Entrevista: O Universo Cabeludo de Carlos Careqa

“Comecei a sentir minha miséria no catre sobre o chão, escutando a música, minha miséria, é por isso que eu quero cantar.” Allen Ginsberg

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Rogério Skylab esquece de perguntar o assassino de Carlos Careqa em sua canção “Eu Quero Saber Quem Matou”, mas Cida Moreira, Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção e Tetê Espíndola não deixaram de prestigiá-lo em seu CD de estreia, “Os Homens São Todos Iguais”, em 1993, com sugestiva capa recheada de ironia, e eis aí bom indício de por onde trafega o compositor, ainda que afirme em seu terceiro disco: “Não Sou Filho De Ninguém”, lançado em 2004. Dez anos depois contabiliza dez títulos na discografia, além de participações e trabalho como produtor. Muito longe desses números, ao acaso, redondos, Carlos traça seu caminho na inventividade. “O mercado não quer um cara rebelde como eu. Não quero ficar cantando a mesma música a vida toda”, afirma.

Nascido em Lauro Muller, interior de Santa Catarina, o intérprete mudou para Curitiba aos cinco anos, e lá se formou como artista frequentando grupos de teatro e participando de campanhas publicitárias. Sobre a importância da arte dramática em seu processo de composição musical, define: “Importância Suprema. Tudo é cena. E a todo o momento tenho que prestar atenção no que está acontecendo, e isto vai virando música”. Já a possível “escolha” por uma carreira pautada no mercado independente é rechaçada. “Eu não optei. As coisas foram acontecendo. Tenho ideias, e assim vou caminhando. A música independente é isto, sem amarras, sem gente mandando. Faço o que quero, o que me der na telha. Não faço música experimental. Acho que eu faço coisas bem palatáveis, mas sou independente por que a vida me quis assim”.

TRANSITAR
Além de transitar por mais de uma arte, como a música, a dramaturgia e a publicidade, e de também inserir elementos diversos em suas composições, Carlos é um andarilho do ocidente. Em 1984 foi para os Estados Unidos, em Nova York, para onde retornou em 1986. Em 1990 recebeu uma bolsa do Instituto Goethe de Curitiba para estudar alemão em Berlim, e também se apresentou em Genebra, na Suíça. De volta ao Brasil em definitivo fixou residência em São Paulo. “Nova York em especial foi muito legal. A primeira cidade grande que conheci. Fiquei estarrecido. Conheci uma gente fantástica lá. Mas não aguentei o tranco. São Paulo me esperava. Amo São Paulo”, declara-se. Foi na capital dos paulistanos que conheceu os primeiros sucessos comerciais em âmbito nacional.

“Acho”, canção do primeiro disco, foi bem executada pelas rádios, e “Ser Igual É Legal”, presente no segundo, “Música de Final de Século”, de 1999, emplacou na novela “Anjo Mau” na voz de Vânia Abreu, irmã de Daniela Mercury, que viria depois a gravá-lo, assim como Chico Buarque, Letícia Sabatella, Mônica Salmaso, e outros. “Chico Buarque é um artista de grande importância na minha vida. Daniela Mercury entrou por tabela pela Vania Abreu, sua irmã. Somos apenas bons amigos”, considera. Outros nomes tiveram e ainda têm relevância expressiva na sinuosa e insinuante trajetória de Carlos Careqa. Com Arrigo Barnabé, por exemplo, chegou a dirigir um selo, além de participações em shows e parcerias em músicas. “Arrigo foi meu padrinho artístico. Mudou minha maneira de pensar música, carreira, etc.”, diz.

PALAVRÃO
O mais recente disco de Carlos Careqa, “Palavrão Cantado”, foi lançado em 2013, com a proposta de ser uma “música infantil para adultos”. Entre os títulos há referências a escatologias e alguns como “O diamante azul do vovô”, referência ao Viagra, e “Porque é que a vovó tá fria?”, com humor mórbido para tratar a morte. Nas letras, obviamente, existe o uso de palavras usualmente designadas como de “baixo calão”, os palavrões. “A recepção foi ótima. As críticas sempre muito generosas”, orgulha-se. O projeto conseguiu recursos através de um site de financiamento coletivo, e teve a participação decisiva de Mario Manga, um dos integrantes da lendária e vanguardista banda “Premeditando o Breque”, além de autor de “Rubens”, música alçada ao sucesso na gravação de Cássia Eller com explícita menção à homossexualidade masculina.

“Mario Manga e o ‘Premeditando o Breque’ foram de suma importância na minha carreira. Quando vi estava fazendo a mesma coisa que eles em São Paulo. Só que eu morava em Curitiba. E depois o Mario passou a ser meu parceiro musical em tudo que faço”, confessa. Já em relação à experiência com o “Catarse”, site onde hospedou o projeto “Palavrão Cantado”, assume: “É muito bom, mas dá muito trabalho. Também todo mundo está fazendo isto agora. Então virou febre. Mas acho legal. Temos que inventar outras coisas. Sei lá. Eu adorei fazer, mas não gostaria de repetir tão cedo. É muito trampo. Tem que ficar 24 horas online para que a coisa aconteça”, resume. Sobre o atual cenário da música brasileira, Carlos vai direto ao ponto. “A indústria faliu. A música fofinha é chata. MPB alternativa e suas barbas são chatas. Algumas coisas são geniais como a banda ‘Casuarina’ e o Edu Krieger”.

MERCADO
“O mercado só pensa em dinheiro. Pagou, tocou”, aponta Careqa. O que talvez explique a ausência dele e outros muitos artistas em meios midiáticos. “Mas sou um artista independente. Para ampliar o público precisaria de grana e gente investindo. Assim sigo meu caminho sozinho. Ninguém me enche o saco. Para ir para Belo Horizonte também é difícil. Não vou correr riscos, preciso pagar os músicos que tocam comigo. Sempre espero receber convites. Mas isto é outra coisa difícil de acontecer”, sintetiza com o humor que lhe é propício. Parceiro musical do poeta curitibano Paulo Leminski e de Adriano Sátiro, Careqa homenageou, em 2008, o músico e também ator norte-americano Tom Waits, com quem tem motivos de sobra para se identificar. “À Espera De Tom”, reúne versões de 14 obras do “Bardo de Pomona” traduzidas para o português.

Além da evidente estranheza e originalidade, o que levou o entrevistado a Waits foi “a independência, a musicalidade, a busca por timbres novos dentro do cenário musical”, enumera, além de considerar o ídolo “um inovador”. Ator “desde criança”, profissional e amante do “teatro na juventude”, Carlos ganhou “a vida fazendo publicidade”, e logo dispensou as aspas para dizer textos próprios quando surgiram os convites para o cinema. Textos que, mesmo escritos por outros, em sua boca tinham e ainda têm conotação peculiar. “As pessoas me veem na TV e me chamam para atuar em filmes”, simplifica. Das películas que participou destacam-se, “Alô” e “Avassaladoras”, de Mara Mourão, “Bicho de Sete Cabeças”, de Laís Bodanski, “Água Na Boca”, de Marcos Lazarini e “Cristina Quer Casar”, de Luís Villaça.

REFERÊNCIAS
Careqa exibe as referências cinematográficas, como “Woody Allen, Fellini, Alfred Hitchcock e cinema europeu em geral. Enfim, muita coisa”, avisa. E também estende o gosto para as artes plásticas. “Gosto muito de Van Gogh e do Surrealismo. Mas vou muito pouco a museus”, admite. Na música erudita também abre o leque, com indisfarçável iconoclastia. “Adoro Bach, Glenn Gould, Mozart, Beethoven, Villa-Lobos, Piazzolla, Pixinguinha, Ernesto Nazareth”, celebra. Ao comemorar, em 2009, os 25 anos de carreira, o músico lançou o álbum “Tudo Que Respira Quer Comer”, com participações de Maria Alcina, Zé Rodrix, Raul de Souza e outros amigos. Hoje ele avalia o primeiro pontapé, o início de tudo, o chute na barriga. “Como disse Vicente Celestino, ‘nasci artista’”, cita. “Não sei como te falar. Curitiba é um laboratório muito bom. Tem muita gente boa que veio e foi criada lá. A cidade era sensacional nos anos 1980. A gente podia experimentar de tudo em termos de teatro e música”. Está feito o convite para experimentar o universo cabeludo de Carlos Careqa, e quem sabe sair com umas pulgas atrás da orelha.

DISCOGRAFIA
1993 – Os Homens São Todos Iguais
1999 – Música Para Final De Século
2004 – Não Sou Filho De Ninguém
2005 – Nosotros Que Somos Nós Mesmos
2006 – Pelo Público
2008 – À Espera De Tom
2009 – Tudo Que Respira Quer Comer
2011 – Alma Boa De Lugar Nenhum
2013 – Made In China
2013 – Ladeira Da Memória (Produtor)
2013 – Palavrão Cantado

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Raphael Vidigal

Fotos: Divulgação.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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