Entrevista: Maria Alcina

“O riso magnífico é um trecho dessa música desvairada.” Cecília Meireles

Confete e serpetina

A verdade é que eles não sabiam se era homem ou mulher. Todos: jurados, público, entusiastas, críticos assustaram-se. Para alguns foi espanto de encantamento, outros de temor e repreensão. Há 40 anos, portanto no auge da ditadura militar que se estendeu no Brasil de 1964 a 1985. “Ser alegre contrastava com a situação do país.”

Um fio de corpo tremelicando no compasso da grave voz entoava “Fio Maravilha” – depois proibido o nome pelo próprio homenageado, transformado em “Filho Maravilha” – de Jorge Benjor, no Festival Internacional da Canção, de 1972. Gritos miseráveis escoavam das arquibancadas lotadas do estádio Maracanãzinho, no Rio de Janeiro, de tanto era o descontrole que urros elogiosos poderiam facilmente confundir-se em apupos grossos. “Fui perseguida por comportamento, o país vivia uma outra situação física e emocional.”

FESTA
Comemorando a data com irreverência típica, Maria Alcina promete para este ano, a sair até dezembro, CD de festa, com músicas compostas em sua homenagem por Zeca Baleiro (“Eu Sou Alcina”) e Arnaldo Antunes (“De Normal Bastam Os Outros”).

Entre compositores não menos nobres da lavra mais popular e esfuziante da canção brasileira, a mineira de Cataguases grava Chico Anysio e Arnaud Rodrigues (“Vô Baté Pá Tu”), João Bosco e Aldir Blanc (“O Chefão”, lançada por Marlene em 1974) e Luiz Gonzaga (“Galo Garnizé”), parceria com Antônio Almeida.

GONZAGÃO
O centenário inventor do baião é tema de turnê com que a entrevistada roda a baiana e os quilates de bijuteria esbanjados em fantasia de plumas, paetês, flâmulas e cores. “Deve virar DVD até o ano que vem, porque acaba o show e o público pergunta se não tem CD para vender”.

O flerte recente com a obra de Gonzagão começou com o convite para gravar faixa no tributo idealizado por Thiago Marques Luiz, o mesmo a comandar o álbum festivo da cantora, para a Lua Music, a partir do registro da música “Xamego”, composta com Miguel Lima. “O show começou em março, despretensiosamente, e estourou. É tudo muito simples. Mas o povo abraça de tal maneira… Como uma oração”.

TAMBOR
No entanto, é bom ressaltar, o autor de “Asa Branca” esteve sempre presente na discografia de Maria Alcina, como na música “Paraíba” – em que afirmava e debochava da androginia ao declarar-se “mulhé macho, sim sinhô”.

O tambor dentro de si que a artista guarda, responde, segundo ela, pela invariável aparição de “ícones do ritmo” através da caudalosa garganta. “É um encontro perfeito. A certeza de estarmos fazendo a coisa certa. A sensação de ser a mais linda do mundo.”

FOLCLORE
Mas é do folclore e da baixaria – afinal porque o preconceito com a palavra? Não é assim que se denominam excelentes solos de bateria? – que nascem os principais gotejamentos da fauna de Maria Alcina.

Acusada de reproduzir repertório de baixo calão, ao lançar os temas de domínio público “Bacurinha”, “É mais embaixo”, e a peça de Antônio Sima e Clemilda, “Prenda o Tadeu”, na década de 80, a intérprete já foi associada inclusive a Carla Perez. “É muito chata essa camisa de força! Nossa, me solta! Sinto-me apertadinha, engessada, ai que preguiça!”

A política de correção dos indisciplinados e descortinados – nu que se revele e resvale na abolição debaixo dos panos – atormenta a sonoridade livre e intransigente da cantora alarde. “Acho que prejudica. A gente ri menos. A arte proporciona a fantasia, o sonho, diverte. O papel do artista é encantar.”

ORIGEM
Parece nesse momento nada ter mudado desde o aparecimento da mulher esguia (homem ou enguia?) no cenário de bombas e dardos. Ao que jogou confetes e dados. “Está tudo mais natural. Com menos ‘Ó!’, ‘Ai meu Deus!’, ‘Jesus!’. Eu sempre fui quanto mais melhor. Agora com o envelhecimento a gente vai ficando um pouco menos”, e ouço risadas emergirem com a força e o viço de onomatopeias quentes.

Alcina trabalhava como operária na cidade natal, no interior de Minas, e aproveitava o tempo de folga para cantarolar com um amigo a imitar Ney Matogrosso. “Eu com a voz masculina, e ele de soprano”. A cantora é prova do que diz o ilustrador argentino Quino, inventor da personagem de tirinhas Mafalda, “por sorte nos urbanizaram sem pavimentar nossa naturalidade.”

ELETRÔNICA
Comungou-se com a música dita eletrônica e os novíssimos nomes da safra brasileira surgida a partir dos anos 2000. “O Grupo Bojo me chamou para um espetáculo no Sesc Pompéia, em São Paulo. A aproximação foi muito espontânea, da mesma maneira nasceu a ideia de um disco (intitulado ‘Agora’, de 2003), e daí por diante foi só alegria!”.

Na mesma década lançou com as adesões de Wado e Sérgio Sampaio (autor de “Eu Quero É Botar Meu Bloco Na Rua”) ao repertório, entre outros, o premiado “Maria Alcina Confete e Serpentina”, onde a nova geração já a reverenciava sem meios termos. “Quando vejo o Falcão do Rappa se enrolando ao microfone no palco, digo ‘sou eu cantando!’. A Karina Buhr se atirando ao chão. A Gaby Amarantos, a Vanusa quando jogava o cabelo no rosto!” E é Gilberto Gil quem a auxilia para definir o significado de tais atitudes: “São reinfluências, refazendas!”, e os risos ecoam cada vez mais empolgados e inevitáveis.

NOVIDADES
Otto, Jorge Du Peixe, BNegão, Talma de Freitas, são citados como “pertencentes à novíssima geração, que reorganiza a gente”. Todos estiveram presentes às últimas apresentações da artista para prestigiá-la e declarar a admiração. Admiração esta que, além dos pupilos, Alcina nutre por ás do samba de malandro. “As canções do Moreira da Silva são todas teatrais, a sonoridade é maravilhosa, foi espetacular!”

A referência é à empreitada de 2009 que contou com o aval de Sérgio Arara e a companhia de Jards Macalé (coautor de ‘Vapor Barato’, com Wally Salomão) ao violão. O formato unia somente o instrumento do músico à voz da cantora. “Era ainda mais louco pelo fato de ser aparentemente desprovido e simplório. Mas por isso era lindo, maravilhoso, uma experiência fantástica, inesquecível, por mim estaria ainda na estrada com esse projeto.”

CARNAVAL
O óbvio não é tolerável na geografia sinuosa de Maria Alcina. No entanto a diversidade encontra porta aberta e liberdade irrestrita, e por mais que se seja ululante, é imprescindível matéria a respeito não associá-la a Carmen Miranda. “Fui criada em casa sem rádio, por isso a música que ouvia vinha da rua, dos vizinhos.”

Culpa da vizinha se a menina atrevida ganhou a mania de escutar a “Pequena Notável”, também a “Rainha do Rádio” Emilinha Borba, para quem dedicou disco (entre os sucessos gravou “Escandalosa”), e por meio delas descobriu Ary Barroso e Assis Valente (de quem registrou “Maria Boa”, com uma inconfundível gargalhada na abertura).

Frutas na cuca, espalhafatosos panos cobrindo o esqueleto, a ousadia da boca a chupar versos ácidos e despejá-los no público sem o menor recato. O enredo construído adorna marchinhas e gêneros “bem populares. Não vou deixar essas composições morrerem nunca”, certifica ao receber o título de única defensora do mais antigo ritmo carnavalesco, ao lado de Eduardo Dussek. Lisonjeada, defini-se numa tacada: “Pode me chamar de carnaval!”

DISCOGRAFIA:
1- Maria Alcina (1973)
2- Maria Alcina (1974)
3- Plenitude (1979)
4- Prenda o Tadeu (1985)
5- Bucaneira (1992)
6- Agora, com grupo Bojo (2003)
7- Maria Alcina Confete e Serpentina (2009)
8- Eu Sou Alcina (previsto para 2012)
9- Maria Alcina canta Luiz Gonzaga (previsto para 2013)

Maria Alcina Confete e Serpentina

Raphael Vidigal

Publicado no jornal “Hoje em Dia” em 12/11/2012.

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Comentários pelo Facebook

11 Comentários

  • Ela é show, e está super , hiper animada esteve dando um show no último dia 8 na Cidade Administrativa, sede do Governo Estadual , foi tudo de bom!

    Resposta
  • OBRIGADO A TODOS QUE ESTÃO DIVULGANDO A ARTE EM SUA VARIAS MANIFESTAÇÕES!!!

    Resposta
  • Bom, muito bom saber que ela está viva e cheia de energia e de planos. Maria Alcina, na minha opinião está entre as mais poderosas senhoras dos palcos. Tive a oportunidade de vê-la há alguns anos no MAP cantando Carmen Miranda. Outros tantos fizeram homenagem a pequena notável, mas nada comparável a irreverência de Alcina. Só ela pra encarnar a alegria e a destreza de Carmen. Depois de Maria Bethânia ter bravejado o seu Carcará em 65, 72 foi o ano de outra Maria sacudir a torcida em seus minutos de Fio Maravilha no Maracanãzinho. Sempre fui fã dessa mineirona e fico na torcida pra que ela ocupe um lugar merecido, a sua altura, no nosso cenário musical. Obrigado de novo, Raphael.

    Resposta
  • Olá Raphael!
    Recebemos o jornal e entregamos para a Alcina!
    Ela adorou a matéria e ficou emocionada com o chapéu do Gonzagão “pulando” da cabeça dela, na caricatura.
    Obrigado!
    Abçs e feliz natal e um 2013 cheio de saúde e sucesso para vc.
    Fran

    Resposta
  • Foi espanto de encantamento e contentamento vê-la esfuziante no Maracananzinho. Inesquecível. Uma apresentação histórica e inaugural. Nunca antes, nem depois, algo de tão extraordinário aconteceu nos palcos do Patropi, em nível de música, exceto Carmem Miranda… igualmente ímpar e imbatível. A excepcionALCINA possui talento em demasia, bagagem, ousadia, irreverência, alegria, provocação, inteligência, vozeirão, performances inimitáveis, carisma, e um repertório brasileiríssimo e diversificado, com bom gosto (até a “baixaria”, é calcada no folclore, no pastoril, não é apelativa).Paradoxalmente, não possui tanto reconhecimento e sucesso…à altura da sua arte. Falta cultura aos brasileiros, para que possam admirá-la com justiça e merecimento. Os que reconhecem seu real e inquestionável valor qualitativo ou de excelência, devem e podem sentir-se privilegiados. Evoé, Alcina…que alucina, no melhor sentido.
    Marcos Lúcio

    Resposta

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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