Ruy Castro: “Ataques a artistas são inadmissíveis”

“Não te encontro, não te alcanço…
Só – no tempo equilibrada,
desprendo-me do balanço/ que além do tempo me leva.
Só – na treva,/ fico: recebida e dada.
Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível/ reinventada.” Cecília Meireles

“Era como se estivesse esperando pela notícia”, confidencia Ruy Castro, 71. “Na véspera, tinha passado o dia tocando vários discos dele, mas isso não é vantagem, porque toco seus discos com frequência”, complementa. A afirmação se refere a julho deste ano, quando, no dia 6, o mundo foi informado de que o papa da bossa nova havia morrido, depois de uma vida de 88 anos em que se dedicou, basicamente, a construir o silêncio por meio da música. Ou vice-versa.

“Gostaria que ele tivesse passado os últimos 20 anos gravando, mesmo que fosse em casa, só ele e o violão. Não sei se isso aconteceu”, lamenta Castro. O que se sabe a respeito dos dias finais de João Gilberto (1931-2019) é que o homem responsável por internacionalizar a música brasileira, após o fenômeno conhecido como Carmen Miranda (1909-1955), teve de enfrentar uma penúria financeira, fruto de disputas entre gravadoras e familiares, e que não subia em um palco desde 2008, quando realizou sua última turnê.

1 – Qual foi a principal contribuição da Bossa Nova para a música brasileira e de que maneira ela permanece relevante atualmente?
A Bossa Nova foi um sopro de renovação na música brasileira, e continua sendo, pelo menos para os músicos que buscam a qualidade e a beleza. A Bossa Nova tem um repertório gigantesco, são centenas de canções belíssimas, sofisticadas e eternas. Nesse sentido, todas são propícias para qualquer momento do país. Às vezes, me vejo em feiras e eventos literários, e, de repente, tem um grupinho tocando Bossa Nova. São jovens, talentosos e de bom gosto. Mas o mercado, atualmente, não quer saber dessas qualidades.

2 – Onde você estava, como recebeu e o que sentiu quando a notícia da morte do João Gilberto chegou até você?
Na véspera, tinha passado o dia tocando justamente vários discos dele, mas isso não é vantagem, porque toco seus discos com frequência. Por algum motivo, era como se estivesse esperando pela notícia. Gostaria que ele tivesse passado os últimos 20 anos gravando, mesmo que fosse em casa, só ele e o violão. Não sei se isso aconteceu.

3 – Como Minas Gerais se inscreve na história da Bossa Nova?
Bem, João Gilberto criou a batida da Bossa Nova em Diamantina, não? E o Pacífico Mascarenhas, que, por acaso, estava lá, ao lado dele, foi um dos que primeiro entenderam o recado. Graças ao Pacífico, dois dos primeiros shows de João Gilberto depois de gravar “Chega de Saudade” (em 1959) foram em Belo Horizonte, no Iate e no Automóvel Clube. Foi quando João Gilberto conheceu o Roberto Guimarães, que lhe deu o “Amor Certinho”, e canção mais bossa nova, impossível.

4 – Um movimento como a Bossa Nova seria possível no Brasil atual?
Acho que não. O pessoal não quer saber de música, só de fazer carreira. Mas isso pode mudar de repente.

5 – Você tem escrito diversos artigos críticos ao governo do presidente Bolsonaro. Na sua opinião, o que esse governo representa para a cultura?
Um desastre. Ataques a artistas são inadmissíveis. Principalmente a uma artista como minha amiga Fernanda Montenegro, que também é uma pessoa monumental.

6 – O Milton Nascimento deu uma entrevista recente dizendo que “a música brasileira está uma merda”. Você concorda?
Concordo, claro. Mas não é só a música brasileira. A de toda parte está isso. Não existe mais a música popular como a conhecíamos, nos Estados Unidos, na França, na Argentina, no Caribe. O rock desnacionalizou e achatou tudo. Entre outras coisas, acabou com a figura do compositor musicalmente preparado e desmantelou a cadeia feita por compositor, arranjador, músicos e cantores. O fim da indústria fonográfica fez o resto. É um acinte chamar de música esses shows em que o cantor ou cantora finge que canta e se estrebucha no palco, cercado por um bando de chacretes, e quem acaba cantando é a plateia.

7 – Quais são os seus próximos planos?
Há um livro novo para sair em novembro, pela Companhia das Letras, batizado de “Metrópole à Beira-mar: O Rio Moderno dos Anos 20”. Foi o mais difícil que fiz até hoje, e os que já leram acham o melhor. Muita gente vai se surpreender com a loucura que era o Rio naquela década. Nesses últimos três anos e meio em que trabalhei nele, eu próprio tinha uma surpresa por dia.

Raphael Vidigal

Fotos: Fábio Motta; e Ricardo Borges, respectivamente.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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