70 anos de Zé Ramalho em 7 curiosidades

“Raio fresco jamais luziu nessas cavernas;
Os miasmas febris, entrando pelos muros,
Filtram a se inflamar assim como lanternas
E o corpo vos penetram de cheiros impuros” Baudelaire

Todas as vezes em que vi Zé Ramalho ele estava em cima de um palco, comprovando a definição, que se tornou surrada, daqueles que chamavam a sua voz de cavernosa. De fato, o som oriundo da garganta do homem nascido em Brejo do Cruz, no interior da Paraíba, se articulava de longe e, ao mesmo tempo, de um lugar escuro e úmido. Apesar de nunca ter trocado uma palavra com Zé Ramalho, me tornei parceiro dele em 2013, quando coloquei letra na canção “Paraibeiro”. Na próxima quinta (3), o autor de “Vila do Sossego”, “Chão de Giz”, “Mistérios da Meia-Noite” e outros clássicos, completa 70 anos. Embora esteja em turnê pelo país, ele se nega a dar entrevistas e adota um comportamento cada vez mais recluso, como se, dentro de si, estivesse mais próximo do outro.

Origens
Filho de uma professora e de um seresteiro, Zé Ramalho perdeu o pai aos dois anos, quando ele se afogou em uma represa. Com isso, passou a ser criado pelo avô. Essa relação foi homenageada pelo compositor numa de suas músicas mais emblemáticas, místicas e misteriosas. “Avôhai” surgiu durante uma experiência de Ramalho com cogumelos alucinógenos e, segundo ele, chegou de uma única vez. Em 1977, a canção foi gravada pela cantora Vanusa. Com várias referências à sua criação, o músico revela a união das palavras que formam o título da canção no verso: “Avôhai/ Avô e pai”.

Romance
Na noite em que iniciava o seu romance com a cantora Amelinha, o cantor Zé Ramalho estava no Hotel Plaza, no Rio, quando compôs “Frevo Mulher” para a amada. No mesmo ano os dois se casaram, em 1978. No entanto, apenas em 1980 a canção ganhou as rádios de todo o Brasil. A demora aconteceu porque a gravadora de Amelinha não acreditava naquela música. Pouco tempo depois, Caetano Veloso afirmou que o Carnaval da Bahia tinha tomado outro rumo graças ao êxito de “Frevo Mulher”. O ritmo da canção sugere uma mistura entre frevo e forró, ritmos que dominavam as festas juninas no Nordeste.

Política
“Admirável Gado Novo” merece um capítulo à parte na biografia de Zé Ramalho. O refrão marcante ganhou a força de um ditado popular, sendo usado tanto para se referir a situações de opressão quanto de alienação: “Ê, ô, ô/ Vida de gado/ Povo marcado, ê/ Povo feliz”. Ela foi inspirada no título de um livro de Aldous Huxley, “Admirável Mundo Novo”, de 1932, que versava sobre tecnologia reprodutiva e manipulação psicológica. Lançada em 1980 pelo próprio autor, a canção voltou a ter sucesso em 1996, quando virou tema da novela “O Rei do Gado”. A despeito da conotação política, Ramalho comprovou a triste atemporalidade da música.

Religião
O interesse de Zé Ramalho por forças ocultas e sobrenaturais e o misticismo que envolve grande parte de sua obra recebeu uma atenção especial em seu segundo disco de carreira. Além do batismo, “A Peleja do Diabo com o Dono do Céu”, ainda trazia na capa a atriz Xuxa Lopes no papel de vampira que tenta Deus e o personagem Zé do Caixão, vivido por José Mojica Marins, como diabo. O artista plástico Hélio Oiticica também comparecia no encarte do disco. Faixas como “Pelo Vinho e Pelo Pão” e “Jardim das Acácias”, com participação de Pepeu Gomes, retomavam essas temáticas espirituais e religiosas.

Minas
Mineiro de Bom Despacho, o cavaquinista Waldir Silva gravou, em 1981, o disco “Cavaquinho Camarada Nº 3”, que trouxe uma participação mais do que especial. Além de interpretar “Pelo Vinho e Pelo Pão”, Waldir registrou uma versão para “Pai e Mãe”, de Gilberto Gil, declamada por Zé Ramalho. Os dois se conheceram nos estúdios da CBS, no Rio, onde ambos eram contratados. A amizade resultou em “Paraibeiro”, parceria instrumental cujo título brincava com o fato de um ser paraibano e o outro mineiro. Com letra, a música foi gravada no disco “Waldir Silva em Letra & Música”, de 2016, pela cantora mineira Luana Aires.

Encontros
Em 1996, Zé Ramalho subiu ao palco com seus companheiros de geração para apresentar o espetáculo que ficaria conhecido como “O Grande Encontro”. Além da prima paraibana Elba Ramalho, estavam presentes na edição original os pernambucanos Alceu Valença e Geraldo Azevedo. Zé Ramalho gravou três discos da série “O Grande Encontro”. Outra união em disco se deu com o compadre cearense Fagner, em registro ao vivo 2014. Questionado se faltava à sua geração o mesmo espírito de grupo dos baianos tropicalistas, Ramalho disparou: “Nós não fizemos turismo nas nossas letras”.

Homenagens
Apelidado de “Dylan do Nordeste”, “Violeiro do Apocalipse” e “Trovador de Cordel”, Zé Ramalho jamais negou suas influências, o que se verifica pelo número de homenagens em disco que ele dedicou a seus ídolos. A primeira delas aconteceu em 2001, quando ele cantou o repertório de Raul Seixas. No ano de 2008, foi a vez de verter para o português clássicos de Bob Dylan. No ano seguinte, o contemplado foi Luiz Gonzaga. Em 2010 e 2011, o músico deu voz a canções de Jackson do Pandeiro e dos Beatles. Unindo psicodelia a ritmos nordestinos e ao rock, Ramalho criou uma obra única e reconhecível.

Raphael Vidigal

Fotos: Dario Zalis; e CBS/Divulgação.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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