10 gringos que foram adotados pela música brasileira

“E em nossa pátria imóvel germinava e crescia
o amor com os direitos do orvalho.” Pablo Neruda

António Joaquim Fernandes morreu em setembro, aos 67 anos, vítima de câncer de pele. Com estas informações, poucos o reconheceriam. Foi no Brasil, para onde se mudou aos 11 anos, que o cantor nascido em Macedo de Cavaleiros, em Portugal, adotou o nome artístico de Roberto Leal, alcançando um enorme sucesso ao popularizar os fados de seu país. Assim como Roberto Leal, outros músicos vindos de fora escolheram o Brasil para expressar sua arte. Listamos alguns deles.

Carmen Miranda (1909-1955) – PORTUGAL
Em 1939, Carmen Miranda estreou na Broadway e iniciou uma carreira de sucesso nos Estados Unidos, participando de vários filmes. Quando retornou ao Brasil pela primeira vez, a cantora foi recebida no aeroporto por uma multidão de fãs, mas, ao se apresentar no Cassino da Urca, foi recebida friamente ao interpretar músicas em inglês. A resposta veio em forma de samba, com “Disseram que eu Voltei Americanizada”, escrita especialmente para ela por Vicente Paiva e Luiz Peixoto. Na letra, Carmen, nascida em Marco de Canaveses, em Portugal, afirmava sua brasilidade, afinal de contas, ela morava no país desde os dez meses de idade. “Eu sou do camarão ensopadinho com chuchu!”, cantava.

Carlos Galhardo (1913-1985) – ARGENTINA
Herdeiro de italianos, Carlos Galhardo sempre negou em entrevistas sua origem argentina, embora a certidão de nascimento comprovasse que ele era natural de Buenos Aires. Mas foi com apenas dois meses de idade que o cantor mudou-se com a família para São Paulo, se estabelecendo mais tarde no Rio de Janeiro, onde ele iniciou a carreira depois de soltar a voz em uma festa onde estavam presentes Francisco Alves, Mário Reis e Lamartine Babo, sendo aconselhado a tentar a sorte no rádio. Conhecido pelos epítetos de “O Rei da Valsa” e “O Cantor que Dispensa Adjetivos”, Galhardo também se consagrou como cantor de marchinhas, principalmente com “Alá Lá Ô”, de Antônio Nássara e Haroldo Lobo.

Ruy Guerra (1931) – MOÇAMBIQUE
Foi no Centro Popular de Cultura do Rio que o cineasta moçambicano Ruy Guerra, nascido em Lourenço Marques, atualmente conhecida como Maputo, iniciou a sua trajetória na música. Morando no Brasil desde a década de 60, quando estreou como diretor com o filme “Os Cafajestes”, Guerra conheceu Sérgio Ricardo e compôs com ele “Esse Mundo É Meu”. Em seguida, iniciou parcerias com Edu Lobo, Marcos Valle e Milton Nascimento, figurando com a canção “E Daí (A Queda)” no álbum “Clube da Esquina 2”. Mas a parceria de maior sucesso foi, certamente, com Chico Buarque. Juntos, eles compuseram a trilha de “Calabar”, e criaram “Não Existe Pecado ao Sul do Equador”, gravada por Ney Matogrosso.

Taiguara (1945-1996) – URUGUAI
Filho do bandoneonista gaúcho Ubirajara Silva e da cantora uruguaia Olga Chalar, o cantor Taiguara nasceu em Montevidéu, no Uruguai, quando seus pais realizavam uma temporada de espetáculos no país sul-americano. Radicado no Brasil, Taiguara chegou a ser considerado o compositor mais censurado pela ditadura militar, que perdurou de 1964 a 1985, com 68 canções proibidas. Em 1968, ele venceu o Festival Universitário de MPB, com a música “Helena, Helena, Helena”, e, no mesmo ano, levou o festival Brasil Canta no Rio, com “Modinha”. Outro de seus sucessos foi “Hoje”, utilizada na trilha sonora do filme “Aquarius”, de Kleber Mendonça Filho. Taiguara morreu aos 50 anos, vítima de câncer na bexiga.

Elke Maravilha (1945-2016) – RÚSSIA
Fruto da união entre um russo e uma alemã, Elke Maravilha nasceu em Leningrado, na Rússia, rebatizada de São Petersburgo. Fugindo da perseguição política do regime soviético, a família mudou-se para o Brasil quando Elke tinha seis anos. A artista morou em um sítio em Itabira e, depois, mudou-se para Belo Horizonte, onde foi colega da futura presidente Dilma Rousseff no colégio Estadual Central. Atriz, modelo e apresentadora, Elke também se destacou na música. No musical “Elke Canta e Conta”, ela soltava a voz em oito idiomas. Em 1983, gravou um compacto com o baião “Que Vontade de Comer Goiaba” e a disco-dance “Joia Rara”. No tributo “100 Anos de Gonzagão”, Elke cantou “Pagode Russo”.

Lanny Gordin (1951) – CHINA
Nascido em Xangai, a maior cidade da China, Alexander Gordin veio ao mundo graças ao casamento entre um russo e uma polonesa. Na infância, ele morou em Israel. Com seis anos, mudou-se para o Brasil. Foi aqui que Lanny Gordin consagrou o seu nome na música. Guitarrista virtuoso, tocou com Hermeto Pascoal e iniciou a carreira acompanhando astros da Jovem Guarda. Em seguida, passou a contribuir com a Tropicália, emprestando seu talento para discos de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa. Outros encontros marcantes foram com Jards Macalé e Elis Regina. Em 2013, ganhou um álbum em sua homenagem feito por guitarristas como Pepeu Gomes, Luiz Carlini, Edgard Scandurra e Sérgio Dias.

Perla (1952) – PARAGUAI
Ermelinda Pedroso Rodríguez nasceu em Caacupé, cidade do Paraguai. Criada em uma família humilde, repleta de músicos, ela começou a carreira no país natal, mas foi no Brasil, para onde se mudou na década de 70, que ela chegou ao estrelato. Já morando no Rio de Janeiro, a cantora adotou o nome artístico de Perla e alcançou sucesso cantando guarânias e boleros em boates. O êxito a levou para a televisão, onde acrescentou ao repertório versões para músicas românticas que eram bastante populares na época. Entre elas, estava “Fernando”, versão para o hit do grupo sueco Abba, que catapultou a trajetória da artista e rendeu a ela discos de ouro e platina. Após esse auge, Perla amargou um ostracismo.

Ritchie (1952) – INGLATERRA
A profissão militar do pai levou Ritchie a viver em vários países durante a infância e a adolescência, como Quênia, Dinamarca, Itália, Alemanha, Iêmen e Escócia. Nascido em Beckenham, na Inglaterra, o cantor desembarcou em São Paulo no ano de 1972. Depois, partiu para o Rio de Janeiro. Professor de inglês de Egberto Gismonti, Paulo Moura e Gal Costa, formou sua própria banda, o Vímana, com Lobão e Lulu Santos, e acompanhou Marília Pêra no palco. Já em carreira solo, estourou em todo o Brasil com “Menina Veneno”, a música mais executada nas rádios de todo o Brasil em 1983. Na esteira do sucesso, o LP “Voo de Coração” alcançou um milhão e duzentas mil cópias vendidas, quebrando mais um recorde.

Alice Pink Pank (1954) – AUSTRÁLIA
Formada como professora de balé clássico numa academia de dança holandesa, para onde se mudou ainda bebê, Alice Vermeulen nasceu em Tilburgo, na Austrália, atualmente conhecida como Brisbane. Em 1980 ela chegou ao Brasil e adotou o nome artístico de Alice Pink Pank, graças aos cabelos coloridos e ao estilo irreverente. No país, uniu-se a Júlio Barroso e tornou-se vocalista da banda Gang90 e as Absurdettes. Nesse período, namorou com o cantor Lobão e participou do álbum “Ronaldo foi pra Guerra” (1984). Em 1981, ela posou nua para a revista Playboy. Ainda em 1980, pouco antes de se mudar para o Brasil, Alice participou como backing vocal do disco “Boy”, sucesso da banda irlandesa U2.

Deborah Blando (1969) – ITÁLIA
Sant’Agata di Militello, localizada na região da Sicília, na Itália, é a cidade onde a cantora e compositora Deborah Blando nasceu, fruto do romance entre um italiano e uma ucraniana. Aos dois anos, ela mudou-se para o Brasil. Sabendo cantar e compor em português, italiano, francês e espanhol, a intérprete passou a ser presença garantida nas trilhas de novelas. Em 1993, deu voz a uma versão para “Decadence Avec Elegance”, de Lobão, em “Deus nos Acuda”, repetindo a dose com “A Maçã”, clássico de Raul Seixas. “Unicamente” explodiu nas paradas de sucesso depois de ser tema de “A Indomada”, em 1997. Insatisfeita com os rumos da cultura no país, Deborah anunciou, no início do ano, sua ida para a Inglaterra.

Raphael Vidigal

Fotos: Divulgação.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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