Entrevista: Quem quiser pode rir de Luis Lobianco, da Porta dos Fundos

“Todo mundo é sério menos eu.” Allen Ginsberg

Luis-Lobianco-entrevista

Luis Lobianco não teme o riso, neste caso sinônimo de sucesso. Embora o ídolo tenha cravado a “consagração com a vaia” e a “burrice da unanimidade”, o ator, uma das estrelas do projeto-empresa “Porta dos Fundos”, desfruta dos aplausos de forma serena. “Meu humor tem a função de divertir. Isso pode soar simples demais, mas acho que hoje subestimamos a importância de se divertir”, assina, e prossegue na conclusão do tema. “O humor tem infinitas funções: política, denúncia, informação, mas, se não for divertido, não serve pra nada. Tem muito ‘humor do bem’ que não tem graça nenhuma”, opina.

Com 20 anos de profissão começou no teatro aos 11, quando se mudou do Rio de Janeiro para Niterói. Tempos depois, aos 18, voltou à capital para receber o diploma da Casa das Artes de Laranjeiras. Também veio cedo o interesse pelo autor dos dois aforismos citados acima. “Fui precoce em Nelson Rodrigues. Era trágico, pornográfico, mas eu me divertia tanto e aquele humor me atraía”. Por esse motivo sabia em criança, de cor, as falas de filmes nacionais como “A Dama do Lotação”, “Rio Babilônia” e “Os Sete Gatinhos”, todos baseados em obras do escritor, dramaturgo e jornalista.

NOVELA MEXICANA
A televisão, assim como o cinema, teve participação decisiva na carreira de Lobianco. Com predileção pelas “mais dramáticas!”, sentava em frente ao aparelho na busca de novelas mexicanas. Adorava, por exemplo, “Rosa Selvagem” e “Simplesmente Maria”, com transmissão no Brasil do SBT. “Coisas absurdas e que não eram exatamente humor me encantavam”, atesta. Da tela grande em salas de projeção preserva na memória imagens da atriz americana Whoopi Goldberg e do famoso longa-metragem “Curtindo a Vida Adoidado”. Ainda dos Estados Unidos a admiração pelo seriado “Friends”.

Partindo do mantra de Raul Seixas (“Antes de ler o livro que o guru lhe deu/Você tem que escrever o seu”, na música “Todo mundo explica”), Luis é quem se prepara atualmente para servir de espelho, quem sabe, a futuros atores e atrizes. “Para o ano que vem tenho cinco filmes estreando! Começo a filmar um novo agora em novembro e já estamos trabalhando nele! Cinema é mesmo um tesão! É possível fazer humor sem histeria e com beleza ali!”, empolga-se. Mas a “Porta dos Fundos” não deve ficar de lado por conta dos novos empreendimentos. “Estamos só começando”, diz.

BURACO DA LACRAIA
Para 2014 está garantido, além da continuidade da “Porta dos Fundos”, o espetáculo “Buraco da Lacraia Dance Show”, outro êxito de público e crítica que conta com a participação do entrevistado. Há um ano e meio em cartaz na capital carioca e com casa sempre lotada, Lobianco realiza ao lado de Eber Inácio, Letícia Guimarães, Patrícia Pinho e Sidnei Oliveira sátiras que vão de Edith Piaf a “Meu Pintinho Amarelinho”. “É um cabaré musical, minha prioridade máxima junto com a ‘Porta dos Fundos’. São dois projetos revolucionários e ali está o que acredito e meu DNA”, afirma.

Participante especial desde 2006 de várias atrações televisivas, como em “Os Caras de Pau”, “Sensacionalista”, “O Fantástico Mundo de Gregório”, “O Dentista Mascarado”, “A Grande Família”, “Adorável Psicose” e fixo em “Copa Hotel” o ator admite certa restrição do formato. “Na TV há menos espaço para ousadias, mas tenho escutado por aí que as emissoras querem se abrir mais. Tomara! Artistas e público só têm a ganhar”, celebra. Com todo este trânsito livre tampouco se faz de rogado quanto a gêneros. “Tenho e sempre terei interesse em explorar a tragédia, o romance, tudo”, confirma.

COMÉDIA MUSICAL
A trajetória no teatro prova a diversidade do caminho de Luis, com “quase trinta espetáculos nas costas, tive a sorte de fazer tristes comédias e doces tragédias”, ratifica. Por essas e outras se encontrou com Andréa Beltrão, este ano, na peça “Jacinta”, uma comédia musical na qual ela interpretava a “pior atriz do mundo”. “Andréa é gente fina, elegante e sincera”, define ao encerrá-la em verso de Lulu Santos. “É uma das maiores atrizes da atualidade, uma pessoa que dedicou toda energia a erguer um teatro que acolhe atores e companhias com respeito e carinho”, e rememora a criação da casa “Poeira”.

Mesmo antes da fatídica interação a colega de palco por “mais de duas horas, onde cantávamos e dançávamos”, já povoava o vasto mundo de “professores” de Luis Lobianco, ao lado de “Débora Bloch, Regina Casé, Pedro Cardoso, Luiz Fernando Guimarães, Fernanda Torres, Marco Nanini”, entre outros. “Era uma verdadeira aula assisti-los”, afere. Outro mestre, Luiz Fernando Veríssimo, “foi importantíssimo para a minha geração”. Não por acaso a dramaturgia tomou cada vez mais conta dos interesses. “Eu virei gente no teatro. Dedicava-me mais a ele que à escola”, confidencia.

POLITICAMENTE CORRETO
Além de aprender “história, a falar, ler, educar o físico e ter postura, fôlego e força”, Lobianco deve ao teatro aquele sentimento de pertencer ao mundo. “É o lugar onde posso tirar o sapato, estudar, trabalhar e me espalhar como se tudo parasse do lado de fora”, sentencia. Com esta “relação tão íntima quanto a que tenho com a minha casa e meu corpo”, ele se sente igualmente à vontade para registrar o fato de ter se apresentado “em casas de shows lotadas ou pequenas salas com duas pessoas na platéia”. Em relação às comédias stand-up é taxativo: “Nunca tive vontade, mas tenho amigos que o fazem como ninguém!”.

Aguçado intérprete da jornalista Marília Gabriela e de tipos políticos, em episódios com referência às manifestações populares e polêmicas com deputados; destrincha a relação do humor com o que é “político” e com o que é “correto”. “Sem dúvidas, na política, o humor pode incomodar”, verifica. E relembra o acontecido “nas últimas eleições, quando políticos tentaram proibir humoristas de fazerem piadas sobre eles”. Com a lupa de aumento típica dos caricaturistas, Lobianco procura “ver além”. “Raciocinar já é um ato político, o que explica o desinteresse de autoridades em investir na educação”, aponta.

LIBERDADE
Sexo, religião, uso e tráfico de drogas e futebol foram abordados pela trupe da “Porta dos Fundos”. Sobre tratar assuntos “espinhosos” com o olhar do ridículo, o humorista não se esgueira. “Sinto no ar uma onda de moralismo e, de outro lado, pessoas famintas por liberdade. O humor vem para libertar”, depõe a favor da causa, e vaticina: “É ato político rir dos falsos profetas, dos que lucram com a bíblia e a miséria do povo, e dos governantes que sacrificam as cidades”. No que tange à “correção” da graça, Luis Lobianco apresenta sua tese. “A palavra-chave é bom gosto, e isso é muito pessoal”.

E fala à vera sobre demandas com as quais tem o costume de brincar frente à platéia, como legalização da maconha e casamento gay. “A princípio penso que cada um tem direito de escolher o que faz ao corpo”, salienta para apresentar ressalvas em seguida. “Num país sério descriminalizar é a saída, mas aqui grande parte da população já nasce sem escolha alguma, e a droga é uma sentença”. Com o temor de “apenas pagar imposto para o tráfico” afinal o “colarinho branco que vai taxar a maconha é o mesmo que facilita a entrada da droga no país”, num ponto é convicto: “Investir tudo em educação”.

HIPOCRISIA
A união entre pessoas do mesmo sexo é vista de maneira assertiva por Lobianco. “É muito simples, depende apenas da sociedade ser menos hipócrita e intolerante”. Para fundamentar o ponto de vista recorre aos preceitos de justiça: “Estou falando de casamento civil, não religioso. É uma forma de ditadura um cidadão homossexual pagar os mesmos impostos que um heterossexual e não ter as mesmas garantias legais”, e comemora o “avanço nesta questão”. Ao contrário do que enxerga nas ideologias políticas, onde detecta um retrocesso. “Não nos servem mais”, pontua.

Em esquetes que mencionam o ex-presidente Lula, propaganda política obrigatória, debates eleitorais, e o comportamento de ministros e em assembléias, o ator reverbera até mesmo destituído das personagens o descontentamento. “O mundo mudou e dentro do Brasil ainda existem feudos e coronéis, é vergonhoso. Ainda mais se pensarmos que o Congresso garante e financia tudo isso”, desabafa e dá o tiro de misericórdia: “Não acredito no atual governo e nem na forma como fazemos política por aqui”. Talvez a frase de Millôr Fernandes de que “humoristas não atiram para matar” esteja equivocada.

CENA PRESENTE
Pelo som da casa de Luis Lobanco têm passado Cauby Peixoto, Ângela Maria e o último álbum da dupla luso-francesa de música eletrônica “Daft Punk”. Hóspedes freqüentes da estante de livros foram Machado de Assis, Monteiro Lobato e Maurício de Sousa, além do já citado Nelson Rodrigues. “Era uma coleção e tanto de revistinhas! Já fui um leitor voraz, mas com o excesso de trabalho e volume de textos para decorar não tenho priorizado os livros”, assume. Na cena presente do humor no Brasil, o ator diagnostica “milhares de atores versáteis e talentosíssimos, mas pouco espaço nas emissoras de TV”.

Inclusive no universo da internet, onde obteve fama, acredita haver “poucos bons canais”. E resume o panorama: “Uma minoria desses colegas está contratada, e para eles há os limites impostos pelas empresas”, lamenta. O comediante não faz coro àqueles que percebem características inerentes ao suporte virtual. “A intuição cênica, o jogo, a relação e a doação é a mesma em qualquer categoria. É só uma equação de volume de voz com expansão do corpo no espaço. Tudo é arte”, insiste e incentiva a criação de novos “CQC’s, Jovem Nerd’s, Portas dos Fundos e Magalzão Show’s”, enumera.

COMUNICAÇÃO
Com pouco mais de um ano de existência e média de 70 milhões de acessos ao mês, além de ser o que apresenta maior crescimento mundial no Youtube, o canal “Porta dos Fundos” é um fenômeno de massa, e tem o crivo especial do próprio participante: “Arte é comunicação”. Para Luis Lobianco o convívio entre esferas distintas na mesma obra é plenamente possível. “Arte chata eu to fora! Se não entreter por beleza, humor, poesia, provocação ou humanidade é uma perda de tempo para todo mundo”, e finaliza: “Se só existe pra satisfação de quem apresenta e a leva a sério demais, não serve de nada”.

O início desta vitoriosa caminhada começou quando uma mensagem do diretor Ian SBF foi recebida pelo Facebook. Alguns já se conheciam, a maioria se acompanhava e outros se encontraram ali. Ao lado de Antonio Tabet, Fábio Porchat, Gregório Duvivier, João Vicente de Castro, Clarice Falcão, Gabriel Totoro, Gustavo Chagas, Júlia Rabello, Letícia Lima, Marcos Veras, Marcus Majella e Rafael Infante, além da equipe por trás das câmeras, Lobianco garante um “clima intenso e de total harmonia, parece uma vida inteira”. Com o “privilégio de se concentrar exclusivamente na montagem dos personagens e total liberdade para acrescentar piadas e sugestões na hora de gravar”, é, na pele um exemplo de democracia. Quem quiser pode rir.

PEÇAS (algumas)
2006 – Surto
2007/2011 – Pout-PourRir
2009 – Calabar
2011 – Senhora Solidão
2012/presente – Buraco da Lacraia Dance Show
2013 – Casamentos e Precipícios
2013 – Jacira

Luis-Lobianco-Buraco-Lacraia

Raphael Vidigal

Crédito das fotos: Porta dos Fundos e Buraco da Lacraia Dance Show, respectivamente.

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5 Comentários

  • Tenho o maior orgulho em dizer que o luis, meu querido, começou comigo e minha filha em uma oficina de teatro aos 11 anos, aqui em Niterói. Nunca tivemos dúvid que ele seria um sucesso. Aluno quieto, mas super criativo e comprometido com tudo que fazia. Ele é um filho querido e nunca deixou o sucesso mudar o seu jeito adorável de ser. Só desejo q a cada dia ele suba mais um degrau fazendo sucesso!!!!!!!!!Ele merece

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  • estou assistindo todos os vídeos no canal do porta no you tube…vcs são d+ boa semana…

    Resposta
  • Pessoal, conheci através dessa página o trabalho do Raphael Vidigal que tem um blog completíssimo sobre arte, o Esquina Musical. Me chamou a atenção o texto que ele escreveu sobre o Porta, muito sagaz e bem construído! Imediatamente mandei pro elenco e equipe e todos curtiram demais e divulgaram. Tive o privilégio de poder, em seguida, dar uma entrevista para o Raphael e hoje ele publicou na rede, tá lá no blog. Ficou INCRÍVEL! Eu adoro ler o que vocês me mandam por aqui e estou bastante atento às coisas boas e pessoas talentosas! Divirtam-se com a entrevista e boa semana pra todos nós!

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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