Teatro: Nelson Rodrigues

O gênio do escritor brasileiro que revolucionou a dramaturgia e o jornalismo

Teatro brasileiro

Nelson Rodrigues foi, a vida inteira,um misto entre o sagrado e o profano. Foi tarado e santo, gênio e louco, revolucionário e reacionário, e por fim ninguém melhor do que ele próprio para defini-lo: foi um anjo pornográfico.

Suas peças e crônicasnada mais são do que o retrato dele próprio e do que o cercava e moldurava.Como todo artista, sua obra está completamente contaminada dele mesmo, da flor da pele ao pó do osso (como diria Caetano Veloso).

A complexidade de Nelson Rodrigues, suas peças, seu jornalismo anti-idiota da objetividade está intimamente ligada ao seu temperamento controverso e polêmico, e daí vem toda a sua riqueza. Pois Nelson Rodrigues foi um autor que sempre desprezou o maniqueísmo católico e posteriormente comercial, embora ele mesmo carregasse no pescoço uma cruz e quisesse ser reconhecido pelos grandes veículos, intelectuais e público. Embora fosse adepto de uma boa roda de amigos jogando conversa fora e fumante crônico jamais colocou uma gota de álcool na boca, e a boemia não fazia seu estilo.

Teve diversas mulheres, vários casamentos, muitos filhos, e era devoto incurável do amor eterno. Escrevia sobre estupro, incesto, adultério,e se entregava de corpo e alma quando conhecia a nova mulher amada, que idolatrava com cartas,presentes e flores e sabia e dizia quetodas elas gostavam de apanhar.

Mas com uma personalidade como a sua não poderia ser diferente. Nelson Rodrigues era nada mais do que um passional ilustre, capaz das mais belas e ternas declarações de amore dos maiores insultos e desaforos, indo de um para o outro em questão de milisegundos.

E embora o tema de suas peças fosse uma constante, era totalmente imprevisível.Ninguém jamais sabia o que esperar de Nelson Rodrigues, a não ser algogrotesco e genial. Mais do que o exagero presente em tudo o que ele escrevia, o escracho, o deboche, a ironia, Nelson Rodrigues trabalhava, comia, e vivia movido por um motivo único e insaciável, a paixão.

A despeito dos adeptos da objetividade que se apoderavam agora do cenário jornalístico brasileiroNelson carinhosamente os classificava de idiotas e seguia assistindo a espetaculares vitórias de seu Fluminense por 0x2 contra o Botafogo, a crimes já solucionados e cercados por mistério e suspense, a fatos corriqueiros da vida humana que eram comparáveis a uma ópera na qual continuava a se gritar “Bravo” horas, dias, meses depois de seu encerramento.

Pois a vida humana nunca foi tão interessante quanto a criatividade de Nelson e jamais alcançaria um grau tão supremo de beleza e genialidade quanto a que a sua imaginação produzia.

Fraco, adúltero, incestuoso, monstruoso, criminoso, o lixo humano que se estabelecia na realidade e nas peças de Nelson era tão pequeno quanto o sentimento de querer tratar os fatos da vida humana de forma objetiva, sendo escritos por uma outra vida humana, presa e parte presente do universo a ser descrito.

Nelson Rodrigues desprezou eternamente essa tentativa de se abster da parcialidade, mesmo porque não conseguiria, nem ele, nem qualquer idiota com esse pensamento.

Porque acima de tudo, repito, a obra do autor estará sempre contaminada por ele, e segundo porque Nelson era um apaixonado constante, que tinha a sua ótica de ficcionista para tudo, e em todo canto enxergava um buraco de fechadura para espiar, mas era acima de tudo um amoroso, e como “O amoroso é sincero até quando mente”, está perdoado por todas as invencionices que espalhou por suas crônicas e textos, no fundo ele estava apenas nos mostrando o “óbvio ululante.”

Toda Nudez Será Castigada

Raphael Vidigal

Produzido para a matéria de Apuração e Redação, ministrada no curso de Comunicação da PUC Minas por Fernando Lacerda.

Compartilhe

Facebook
Twitter
WhatsApp
LinkedIn
Email

Comentários pelo Facebook

14 Comentários

  • ?” É preciso ter sorte até mesmo para se chupar um Chicabon” Nelson Rodrigues

    Resposta
  • “Ou a mulher é fria ou morde. Sem dentada não há amor possível.” Nelson Rodrigues era o cara

    Resposta
  • Adoro Nelson rodrigues…
    O marido no deve ser o ultimo a saber. O marido nao deve saber nunca…polemico e sarcastico como só ele sabia ser.

    Resposta
  • Sensacional e único! Nelson Rodrigues…”A Vida como ela é…” Vale a pena ler sua biografia: ” O Anjo Pornográfico”. Parabéns, Raphael! Seu site está cada dia melhor. Beijos…

    Resposta
  • “Todo amor é eterno. Se não é eterno, não era amor.”
    Nelson Rodrigues era um eterno apaixonado. Escrevia sobre tudo e um devoto incurável do amor eterno. Provocador, doido e apaixonado. Simplesmente maravilhoso, principalmente porque conseguiu ser sempre ele mesmo.

    Resposta
  • Visão irônica do mundo … particulatmente “sarcástica” … mas REAL. Eu morava no Rio de Janeiro e ía bastante ao Leme, visitar uma antiga amiga. Não raro, nos cruzávamos. Ele sempre “sisudo” com os seus indefectíveis suspensórios puxando as calças para coma da cintura… “UM CRONISTA E TANTO” dos usos e costumes da vida carioca! De uma época, de uma CONTESTAÇÃO firme e procedente.

    Resposta

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Recebas as notícias da Esquina Musical direto no e-mail.

Preencha seu e-mail:

Publicidade

Quem sou eu


Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

Categorias

Já Curtiu ?

Siga no Instagram

Amor de morte entre duas vidas

Publicidade

[xyz-ips snippet="facecometarios"]