Crítica: Peça “Rioadentro” extrai sentido real da fantasia de Guimarães Rosa

“Tudo, aliás, é a ponta de um mistério, inclusive os fatos. Ou a ausência deles. Duvida? Quando nada acontece há um milagre que não estamos vendo.” Guimarães Rosa

Rioadentro explora a magia da obra de Guimarães Rosa

Se o teatro é fingimento não é por tal silogismo que sua característica e consequente resultado devam ser a ausência de verdade. O intérprete não se afoga, mas o corpo dele, como a da personagem, estão, em verdade, molhados. Logo, esse ato de fantasia requer, em alguma medida, entrega real. O que acontece, deveras acontece, ainda que seja inventado. Ao carregar as tintas na construção cenográfica, “Rioadentro”, com direção de Lira Ribas e dramaturgia de Raysner de Paula, pinta universo que se aproxima da riqueza descritiva presente na obra de Guimarães Rosa, autor do conto “A Terceira Margem do Rio” que inspira a montagem. A iluminação também é responsável por desenhar objetos cênicos e sublinhar emoções que deverão emergir de gestos e palavras. E é o texto, sobretudo, que ajuda a valorizar a atuação de Lira Ribas, Sitaram Custódio, Carlos Caetano, Thiago Braz e Rainy Campos, que formam um time homogêneo no silêncio, nos cânticos e até nas danças.

Embora não apresente nenhuma inovação cênica ou dramatúrgica, a peça é hábil em transitar por vários ritmos e gêneros em pouco menos de uma hora de duração. O grande trunfo da montagem é capturar o real da fantasia de Guimarães Rosa. Isso se dá, especialmente, porque nada nessa adaptação é gratuito, tudo traz um sentido embutido, ou mais de um, quando melhor. Em favor do teatro, as cenas são construídas com tal preciosismo que chega a ser uma pena não poder fixar a atenção em mais de uma ação ao mesmo tempo quando acontecem em regiões relativamente espaçadas do palco. Nisso deve-se louvar não apenas a criatividade de infundir a música e objetos cênicos a situações banais, no aspecto de rotineiras e cotidianas, como a capacidade de contar essa estória sem com isto prejudicar a imanência da poesia presente nesta enigmática parábola de Guimarães Rosa. A se ver, e apreciar, imoderadamente. Em tempo, mesmo clássica, a peça lança olhar ao presente.

Ficha técnica
Dramaturgia de Raysner de Paula.
Direção de Lira Ribas.
Com Carlos Caetano, Rainy Campos, Sitaram Custódio, Thiago Braz e Lira Ribas.
Iluminação: Pedro Amparo/Figurino: Lira Ribas e Rainy Campos/Cenário: Lúcio Honorato/Trilha Sonora: Thiago Braz/Orientação musical: Júlia Ribas/Pesquisa e aula em danças folclóricas: Dadá Diniz.

Peça foi baseada no conto "A Terceira Margem do Rio"

Raphael Vidigal

Fotos: Jenfs Martins.

Compartilhe

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on linkedin
LinkedIn
Share on email
Email

Comentários pelo Facebook

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recebas as notícias da Esquina Musical direto no e-mail.

Preencha seu e-mail:

Publicidade

Quem sou eu


Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

Categorias

Já Curtiu ?

Siga no Instagram

Amor de morte entre duas vidas

Publicidade

PHP Code Snippets Powered By : XYZScripts.com