Crítica: Obra “Real”, do grupo Espanca!, procura a reflexão pelo espanto

“a beleza é o início do terror que podemos suportar” Godard

Novo espetáculo do grupo Espanca trata de episódios reais

A narrativa episódica que une temas diversos na busca de dar a eles um sentido comum foi alternativa recorrente do cinema cômico italiano nos anos 1960 e também assimilou esta brecha junto a figuras da nouvelle vague francesa. Mais recentemente, essa conduta pôde ser observada, por exemplo, no argentino “Relatos Selvagens” e há bem pouco tempo em “Código Desconhecido”, do austríaco Michael Haneke. Neste último, principalmente, o tom é muito diverso ao que os italianos propagaram mundo afora, pois trata-se de película dramática, crítica, com enfoque social voltado para as mazelas da atualidade. Pode-se dizer que “Real”, do grupo Espanca!, parte desse princípio. Constitui-se da coesão de quatro miniespetáculos, assim chamados esquetes pela curta duração e o foco em uma situação específica, cada uma delas assinada por diferentes dramaturgos que foram provocados pelos atores da companhia a criarem cenas a partir de acontecimentos recentes e reais, unidos pela violência: um linchamento, um atropelamento, uma greve e uma chacina.

Além de distinguirem-se pelos fatos tratados, as cenas alternam perspectivas temporais e de enfoques cênicos, sendo possível aferir que “Inquérito”, texto de Diogo Liberano e Gustavo Bones, coloca-se mais assertivamente no presente a partir de suas expressões e gestos, e que o texto, aqui, denota com maior contundência a força imagética que se pode retirar das palavras. “O Todo e as Partes”, peça com texto de Roberto Alvim e direção de Eduardo Félix, impressiona pela acuidade da iluminação e seu uso preponderante para o desenvolvimento da história, além de expressar a contradição de uma perspectiva futurista cuja lógica soa medieval. “Parada Serpentina”, montagem coletiva dos atores, desenrola-se a partir do motim grevista, atividade que remonta a questões ligadas ao nosso passado, e imprime suas ponderações principalmente pelo movimento, a dança. “Maré”, dirigida por Marcelo Castro, traz novamente à baila o texto de Márcio Abreu, recente colaborador do grupo Galpão em “Nós”, cujo recurso da repetição vem a cristalizar a poética de sua escrita sem prejuízo à tragédia explicitada pelo conteúdo. A partir de diferentes enfoques que capturam o mesmo momento, o tempo passado, o presente e o futuro aqui transcorrem de maneira simultânea para espectador e intérprete. No entanto, é a cenografia simples a principal responsável pela condução da cena.

Com respiros pontuais para o humor, “Real” jamais perde sua gravidade em cena ou mesmo resvala na tentação de oferecer um alívio ou uma redenção. Talvez seja este sentimento, afinal, quem afine as diferentes cenas que, através de variados acordes oferta o mesmo tom. Sendo que mesmo o humor, quando aparece, carrega certo aspecto de morbidez. Ri-se não pelo ridículo, mas pelo que se configura absurdo ou passível de espanto. O desempenho de todos os atores é algo acima da média, digno de nota, e a gana e domínio com que literalmente tomam suas personagens e as oferecem à plateia consegue junto a texto, direção e os outros aspectos técnicos mencionados acima uma transformação homogênea que, para além de favorecer o teatro, propicia que se atinja o público em sua consciência e sentimento. É tudo, afinal, espantoso.

Ficha técnica
Dramaturgia de Diogo Liberano, Roberto Alvim, coletiva, Byron O’neill e Márcio Abreu.
Direção de Gustavo Bones, Eduardo Félix, coletiva e Marcelo Castro.
Com Alexandre de Sena, Allyson Amaral, Assis Benevenuto Vidigal, Gláucia Vandeveld, Leandro Belilo, Marcelo Castro, Gustavo Bones, Karina Collaço, Leandro Belilo e Michelle Sá.
Iluminação: Edimar Pinto/Figurino: Gustavo Bones e Helaine Freitas/ Cenografia: Adriano Mattos, Ivie Zappellini, Ana Cecília Souza, André Victor, Jéssica de Castro, Maria Soalheiro e Rita Davis/Trilha Sonora: Eduardo Félix e Rafael Martini/Construção de bonecos: Mauro de Carvalho/Maquiagem: Gabriela Dominguez.

"Real" aponta a violência da sociedade contemporânea

Raphael Vidigal

Fotos: Guto Muniz.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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