Crítica: “Nós”, novo espetáculo do grupo Galpão, enaltece a comunhão

“Se o meu passado foi lama/Hoje quem me difama
Viveu na lama também/Comendo a mesma comida
Bebendo a mesma bebida/Respirando o mesmo ar…” Paulo Marques & Ailce Chaves

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A capacidade de lançar um olhar novo sobre textos clássicos permitiu ao grupo “Galpão” priorizar dramaturgias de autores consagrados ao longo de sua trajetória, sem, com isto, cair na reiteração ou na reverência pura, muito pelo contrário. Desta feita, porém, a companhia leva à cena um espetáculo contemporâneo, com direção de Marcio Abreu que também auxilia na dramaturgia com Eduardo Moreira. “Nós” alcança o mérito de abordar questões de momento sem perder a sua complexidade histórica e temporal, inclusive a partir do recurso cênico da repetição; e prova o quanto é possível panfletar com inteligência e resultado, desde que munido de duas características básicas: humor e sagacidade. O que é válido, até, para o enfoque trágico, quando se apontam dramas modernos sem resvalar no piegas, graças à poética proposta.

Trilha e efeitos sonoros ficam a cargo de Felipe Storino, digno dos aplausos, pois toda vez que a música é chamada o espetáculo cresce em vigor e intensidade, e seu recado aparece com uma clareza ainda mais deslumbrante. Outro destaque é a iluminação sutil e subjetiva de Nadja Naira, que colore os ambientes como se extraísse o sentimento de cada personagem refletido por ela. Puro e inventivo, o cenário proposto por Marcelo Alvarenga atua e interfere objetivamente no transcorrer das ações, ora sublinhando-as, outrora servindo de base para os atores. O elenco formado por Antonio Edson, Chico Pelúcio, Eduardo Moreira, Júlio Maciel, Lydia Del Picchia (cuja dança/sapateado encanta) e Paulo André tem como principal virtude a sabedoria de fornecer à icônica Teuda Bara os artifícios para que protagonize esse espetáculo e seja novamente louvada, tanto em pessoa quanto em artista, atributos quase indissociáveis em sua trajetória.

Há que se enaltecer os diversos profissionais envolvidos na montagem, como Ernani Maletta, já recorrente na história do grupo, responsável pela preparação musical e os arranjos vocais e instrumentais; Babaya, que também auxilia na preparação vocal e na direção do texto, além de João Santos, Gilma Oliveira, Thays Canuto e outros contribuintes. Em suma, não há nenhum recurso que apareça fora de hora, fora de lugar, e que não exerça influência na contação da história; “Nós” apresenta dramaturgia antenada com a fragmentação narrativa da atualidade, atenta à circularidade do tempo na vida das pessoas e, sobretudo, disposta a chamar seus pares para contemplarem valores como a comunhão, a tolerância e aquela que segue sendo a grande vedete da arte: liberdade. A quem tanto a estética quanto a política entregam seus conteúdos.

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Raphael Vidigal

Fotos: Guto Muniz.

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Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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