Como democratizar o Teatro no Brasil?

“A rã queria ser um passarinho.
Só se for em teatro, meu amor.
Em teatro você faz o passarinho
e eu faço a rã.
Teatro não é troca de experiências?” Manoel de Barros

Grupo Maria Cutia se apresenta em espaço aberto

Há que se praticar preços populares. Mas não é o suficiente, como comprova a experiência atual. Também há que se compreender que democratizar não passa só por torná-lo popular, mas, sim, em incentivar e alcançar o acesso de pessoas que pertençam a diferentes camadas sociais e grupos. Não raras são as montagens de caráter contundente e forte apelo no tangente a dramas sociais do país – como os relativos a preconceitos de toda ordem, exemplificando-se os contra gays, lésbicas e mulheres – e em que se presume que os ouvidos e olhos mais necessitados de encontrar tais discursos se encontram longe daquelas plateias. Também não é novidade espetáculos de expressiva adesão numérica, mas todos, por assim dizer, do mesmo algarismo, ou do mesmo alfabeto, mantendo inócua e ineficiente a tal democratização do teatro que é, ainda, e, sem dúvida, uma das artes mais restritas a guetos. Infelizmente.

O Teatro, com T maiúsculo, é arte de ação, de movimento, e, portanto, de divisão de um espaço e de um tempo que para sempre será público. Creio que ele se ressente, todavia, de que essa característica fure o invólucro e aconteça na realidade, no palpável. Para o Teatro ser democrático, o lugar aonde ele acontece tem de ser também. Leis de incentivo são importantes, e, diria até, num país como o nosso, imprescindíveis, em especial para quem almeja tornar a arte um ofício. Nunca foi simples ganhar o pão com material tão intangível. Mas estas leis dificilmente cuidam da questão final do processo. Não adianta investimento no objeto se não há público para assisti-lo, a menos que seja puro exercício ególatra, o que para quem pensa em democracia não interessa nem faz sentido. Do ponto de vista mais grave, de longo prazo, fundamental, esta é uma função que depende muito mais dos políticos e a tão decantada valorização educacional.

O público precisa ter acesso à arte, conhecimento, informação, para que não a descarte como um luxo, confundindo-a com brinde, decoração, mero entretenimento. Não se trata disso. Arte, na essência, transforma as pessoas, e as pessoas é que mudam esse mundo infatigável aonde habitamos. É com educação que se cria musculatura para a arte, não educação formal no sentido que consolidamos de acúmulo de conhecimentos, mas uma talvez ainda não nomeada, de despertar da sensibilidade, do aguçar das experiências estéticas, de encantamento com as possibilidades, com a liberdade, em linha que só encontra paralelo, por estas terras, talvez, nas provocações de Antônio Abujamra e Rubem Alves. Há, porém, uma mais imediata é que é capaz, inclusive, de desmentir a primeira, pois a arte é o terreno fértil em que se valorizam as contradições. É possível traçar certas ilações.

Uma música tida como experimental tem o seu nicho de ressonância diminuído pelo próprio caráter, em regra. Mas é que ás vezes nos esquecemos do quanto Shakespeare era popular, e basta atualizar sua linguagem para que essa condição exploda junto a nossos sentidos. Democratizar o Teatro no Brasil passa, necessariamente, por apresentá-lo em espaços democráticos, a exemplo do que já faz a música erudita. Na rua, em parques e praças, locais identificados com a cidade e sua população. Não adianta apresentá-lo num suntuoso Palácio das Artes, excludente por origem, ao preço de duas mariolas, nem de graça. Não adianta reservá-lo a espaços de gueto, em que só aparece a turma enturmada, os entendidos e aficionados, pois, embora muitas vezes com a melhor das intenções e no limite das possibilidades, tendem a acirrar as diferenças, algumas vezes por vaidade. Arte é comunhão, e não medalha.

Talvez o melhor exemplo no Brasil de grupo teatral que conseguiu a contento o feito seja o “Galpão”, que formou esse público misto, democrático, com peças clássicas, elaboradas, e sempre ocupou os espaços populares, aonde todas as classes sociais, ou quase, sentem-se bem recebidas, pertencentes, e não hostilizadas, não com o sentimento de estarem “fora do quadrado”. Seguindo estes passos temos a irreverência do “Maria Cutia” e o engajamento da “Cia. Burlantins” de Maurício Tizumba, e certamente existem outras empreitadas deste gosto, que por desconhecimento ou memória me furto a citar. Democratizar o Teatro em Belo Horizonte passa, por exemplo, em apresentar peças na Praça da Liberdade, não no Centro Cultural que, embora atraente e organizado, impõe restrições por sua monumental fachada. É preciso se comunicar com esse público que mantém a cultura do estupro, o ódio a minorias, o patriarcado, o paternalismo, o Teatro que ataca essas atitudes precisa falar com seu opositor. Caso contrário, esse mundo não muda nunca.

Grupo teatral de BH em encenação de Shakespeare

Raphael Vidigal

Fotos: espetáculos do grupo “Maria Cutia”; crédito para Luísa Monteiro e divulgação, respectivamente.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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