Atriz de vanguarda, Maria Alice Vergueiro encenou o próprio velório no palco

*por Alexandre Toledo (ator, dramaturgo e diretor)

“Eu me pergunto o que posso fazer para que o tempo não lhes pareça tão longo. Já lhes dei meus ossos; já lhes falei de vários assuntos; já lhes expliquei o crepúsculo muito claramente. Mas será bastante – isso é que me tortura! – será bastante?” Samuel Beckett

O outono é a estação do ano em que as folhas das árvores costumam perder sua verdura para ganhar tons que oscilam entre o amarelo e o vermelho ferrugem, e, então, caírem. Por essa razão, na língua inglesa, o outono é também traduzido como “queda”. Numa região aonde as estações não são tão bem definidas como a nossa, é bem mais difícil termos essa experiência. Por aqui, o outono é uma estação marcada pelo céu muito limpo e o ar seco, prenúncio de um inverno ainda mais rigoroso.

E por ser uma estação geralmente associada ao ocaso da vida, difícil não enxergá-la como uma metáfora para a nossa situação atual. Difícil não a associar ao ocaso de milhares de vidas que assistimos diariamente, provocado pela pandemia do novo coronavírus e outras enfermidades de caráter político e moral. Ao ocaso que vai nos deixando mais pobres de nossos valores artísticos. Nem todos, diga-se de passagem, levados pela sanha genocida da Covid-19. Perdemos Moraes Moreira, Daniel Azulay, Flávio Migliaccio, Aldir Blanc. Perdemos agora Maria Alice Vergueiro.

A atriz era conhecida no meio teatral paulistano como a “dama do underground” ou a “velha dama indigna”. Sua carreira teve início em 1962, quando participou da comédia “A Mandrágora”, dirigida por Augusto Boal para o Teatro de Arena. Ela participou ativamente de três dos grupos mais importantes do teatro de São Paulo e do Brasil. Além do já mencionado Teatro de Arena, esteve com o Teatro Oficina de Zé Celso Martinez Corrêa, participando, inclusive, da célebre montagem de “O Rei da Vela”. Com Cacá Rosset, ela ajudou a fundar o Teatro do Ornitorrinco, e foi diretora e atriz na peça “Núcleo 2”. Para completar, passou pelo icônico The Living Theatre, de Julian Beck e Judith Malina.

Ainda no teatro, Maria Alice Vergueiro atuou com a Companhia de Ópera Seca em “Electra com Creta”, dirigida por Gerald Thomas, e marcou sua presença na montagem de “Katastrophé”, com texto de Samuel Beckett e direção de Rubens Rausche. Mais recentemente, ressurgiu em “Temporada de Gripe”, de Felipe Hirsch. Todas essas atuações a confirmaram como uma autêntica dama do teatro de vanguarda. Irreverente e incontrolável, ela também fez cinema e televisão, mas não se adaptou às amarras do segundo formato.

Na telinha, ganhou um papel escrito sob medida para sua personalidade em “Sassaricando”, de Silvio de Abreu, e apareceu com menos destaque na novela “Bebê a Bordo” e na série “Brava Gente”, todas da Rede Globo. No cinema, sua atividade foi mais diversificada, trabalhando em pornochanchadas, como “O Bom Marido”, sob as ordens de David Neves em “Muito Prazer”, no drama “Perfume de Gardênia”, de Guilherme de Almeida Prado, e sob a batuta de Sérgio Bianchi em “Cronicamente Inviável”, retrato cínico de um país esfacelado pela desigualdade.

A despeito deste currículo, não resta dúvidas de que sua aparição mais popular ocorreu com o curta metragem “Tapa na Pantera”, de 2006, dirigido por Esmir Filho, Mariana Bastos e Rafael Gomes (disponível no YouTube), onde ela representa uma senhora que fuma maconha há trinta anos. O estouro a apresentou para novas e antigas gerações que não tiveram a oportunidade de apreciar seu talento cênico. E como trabalho pouco é bobagem, Maria Alice também professora, tendo lecionado na Escola de Aplicação da faculdade de Pedagogia e na Escola de Comunicações e Artes, ambas da USP (Universidade de São Paulo).

Acometida pelo mal de Parkinson, ela decidiu encenar o próprio velório no palco, com a peça “Why The Horse?”, de 2015, transformando as aflições da vida em arte. Aos 85 anos, ela morreu vítima de uma pneumonia, no dia 3 de junho de 2020. Dizem que quando uma artista morre, uma chama se apaga na Terra para uma estrela se acender no céu. Pode ser, mas é inegável que, com a morte de tantos artistas, o Brasil está ficando a cada dia mais triste e menos criativo.

Fotos: Arquivo Pessoal/Divulgação.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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