20 anos sem João Nogueira, sambista carioca ortodoxo e praticante

*por Raphael Vidigal

“A saudade encosta o barco, mansa.
E por dentro a água do mar me invade.
Minha alma é a rota da lembrança.
Minha vida é o porto da saudade.” Paulo César Pinheiro

João Nogueira (1941-2000) foi o típico sambista carioca ortodoxo e praticamente, como ele deixava claro na letra de “Eu Não Falo Gringo”, parceria com o bamba Nei Lopes, lançada em 1986: “Eu não falo gringo/ Eu só falo brasileiro/ Meu pagode foi criado/ Lá no Rio de Janeiro/ (…) Eu aposto um ‘eu te gosto’/ Contra dez ‘I love you’/ Bem melhor que hot dog/ É rabada com angu”, cantava, renovando o discurso de Noel Rosa (1910-1937) em “Não Tem Tradução”, música de 1933 – que ele também regravaria –, composta com Ismael Silva (1905-1978), quando a culpa então recaía sobre o insurgente cinema falado.

A exemplo de seus antecessores, João não admitia interferências sonoras ou estrangeirismos em seu samba e, para garantir tal pureza criou, em 1979, o Bloco Carnavalesco Clube do Samba, que gerou uma divertida canção, onde ele saudava os integrantes mais ilustres: “A Dona Ivone Lara me disse que a Clara está muito bem/ E que o novo trabalho da Beth Carvalho não dá pra ninguém/ Vejam vocês, Alcione e Roberto Ribeiro enfrentaram uma fila/ Foram comprar o ingresso para assistir ao show do Martinho da Vila/ Olha, tia Clementina parece menina sempre a debutar/ Vive cantando pagode e saracoteando pra lá e pra cá/ Chico Buarque de Hollanda tá tirando onda não quer trabalhar”.

A relação com o ritmo era tratada, inclusive, de maneira transcendental: “Não, ninguém faz samba só porque prefere”, definia o carioca do Méier em “Poder da Criação”, sucesso de 1980. Essa postura intransigente, em defesa do gênero mais tradicional do país, o motivou a abandonar uma de suas paixões, a Escola de Samba Portela, que, no coração do músico, só rivalizava com o Flamengo, clube de futebol do qual era torcedor fanático. Em 1984, João decidiu fundar, acompanhado pelos herdeiros de Natal da Portela (1905-1975), a Tradição, agremiação cujo nome dispensava explicações. O compositor estava descontente com os rumos que a Portela havia tomado sob a direção de Carlinhos Maracanã, ignorando seu passado de glórias.

Esse olhar no retrovisor não o impediu de tornar-se um dos mais proeminentes sambistas de sua geração. Filho do violonista e advogado João Batista Nogueira, conhecido como Mestre, o cantor cresceu em um ambiente musical, já que sua irmã, Gisa, também compunha. Foi com ela, aliás, que ele estreou no ofício que o levaria a ser gravado por Eliana Pittman (“Das 200 pra Lá”), Clara Nunes (“Meu Lema”) e Elizeth Cardoso (“Corrente de Aço”), a quem ele agradeceria o batismo musical na faixa “Wilson, Geraldo e Noel”, preciosidade em que presta reverência a Wilson Batista (1913-1968), Geraldo Pereira (1918-1955) e Noel Rosa, que deu nome ao disco homônimo de 1981. De cada um deles, João registraria ao menos uma canção emblemática: “Louco (Ela É Seu Mundo)”, “Bolinha de Papel” e “Gago Apaixonado”, respectivamente.

A admiração por Noel ficou marcada para a posteridade ao musicar “Ao Meu Amigo Edgar”, carta do filho pródigo de Vila Isabel para seu médico, elevando-o a parceiro de um de seus ídolos. A admiração vinha de longe, afinal o pai de João tocara com o autor de “Conversa de Botequim”, da deliciosa “De Babado”, e de “Feitio de Oração”, todas revisitadas por João, a última em dueto com o amigo Luiz Melodia. Para o patriarca, ele compôs “Espelho” (com Paulo César Pinheiro), título do álbum de 1977, e uma das mais comoventes canções a respeito da relação entre pai e filho, tanto em função da letra quanto da melodia densa, levemente melancólica: “Num dia de tristeza me faltou o velho/ E falta lhe confesso que ainda hoje faz/ E me abracei na bola e pensei ser um dia/ Um craque da pelota ao me tornar rapaz”.

Intérprete de dicção precisa, bonito timbre metálico e divisão peculiar, na linha do pioneiro Ciro Monteiro (1913-1973), João detinha habilidades para transitar com desenvoltura do samba de breque ao partido-alto. Ao longo da produtiva carreira, atuou no filme “Quilombo” (1984), de Cacá Diegues, na pele de Rufino da Portela, participou do Projeto Pixinguinha, rebatizado de Seis e Meia, ao lado de Cartola (1908-1980), em 1977, e compôs, com Mussum (1941-1994), a bem-humorada “Because Forever”, que, ironicamente, continha expressões em inglês. Melodista inspirado e letrista que não dava voltas para dizer o que queria, o artista sabia ir fundo na simplicidade, expondo com clareza os brilhos e asperezas da existência humana, como revelam as imprescindíveis “E Lá Vou Eu” e “Súplica”, ambas com Paulo César Pinheiro, seu parceiro mais constante. Na segunda, ele refletia: “O corpo a morte leva/ A voz some na brisa/ A dor sobe para as trevas/ O nome a obra imortaliza”.

No dia 5 de junho de 2000, pouco tempo depois de colocar na praça “João de Todos os Sambas”, título certeiro e definitivo, o compositor morreu, aos 58 anos, vítima de um infarto fulminante. Na época, ele ensaiava para um show onde apresentaria inéditas e antigos êxitos, casos de “Nó na Madeira”, “Boteco do Arlindo” e “Batendo à Porta”. Os derradeiros registros fonográficos com a sua participação foram em tributos a Chico Buarque, Sérgio Sampaio (1947-1994) e no álbum coletivo “Esquina Carioca”, em que ele dividia a cena com Beth Carvalho (1946-2019), Nelson Sargento e Walter Alfaiate (1930-2010). É provável que, para as novas gerações, seu herdeiro seja mais conhecido, o também cantor Diogo Nogueira, dono de técnica e timbre similares, mas sem a mesma verve do pai. Apesar dos pesares, como João havia previsto, “o nome a obra imortaliza”.

Fotos: Beth Santos/Divulgação.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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