90 anos de Walter Alfaiate, sambista carioca entre a malícia e a elegância

*por Raphael Vidigal

“Desde sempre parece que ele fora preposto a pássaro. Mas não tinha preparatórios de uma árvore
Pra merecer no seu corpo ternuras de gorjeios. Ninguém de nós, na verdade, tinha força de fonte.
Ninguém era início de nada. A gente pintava nas pedras a voz. E o que dava santidade às nossas palavras era
a canção do ver! Trabalho nobre aliás mas sem explicação
Tal como costurar sem agulha e sem pano. Na verdade na verdade
Os passarinhos que botavam primavera nas palavras.” Manoel de Barros

A exemplo de bambas como Cartola (1908-1980), Nelson Cavaquinho (1911-1986) e Ismael Silva (1905-1978), o carioca Walter Alfaiate (1930-2010) somente teve um de seus talentos reconhecidos pela indústria fonográfica na maturidade, embora sem alcançar a mesma notoriedade dos citados. O ofício que lhe rendeu o batismo musical ele exercia desde os 13 anos. E, apesar de compor desde os 14, só foi estrear em um disco individual no ano de 1998, com “Olha Aí”, quando já era conhecido como Walter Alfaiate, alcunha que carregava com indistinto orgulho.

“Eu sempre gostei de costurar, desde garoto. Ninguém da minha família me influenciou. Naquela época, os alfaiates trabalhavam de porta aberta em lojas de beira de rua. Eles ficavam engravatados, pareciam executivos, eu achava bonito. Na primeira oportunidade que tive, comecei a aprender”, declarou em entrevista. O músico não largou as agulhas e panos até o final da vida. Dois anos antes de colocar o seu primeiro álbum na praça, Alfaiate participou do tributo aos 50 anos de Aldir Blanc (1946-2020), cantando a divertida “Mastruço e Catuaba” com o anfitrião, Wilson Moreira e Nei Lopes. A música de Aldir e Cláudio Cartier contava as desventuras da comadre na tentativa inglória de fazer o compadre pegar no tranco na hora do “fuque fuque”, como dizia a letra, interpretada com suingue e malícia por Alfaiate em “Samba na Medida”, seu disco lançado em 2002.

Foi o coautor de “O Bêbado e a Equilibrista” (composta com João Bosco), que levou Alfaiate ao disco por meio de seu selo Alma Produções, cumprindo uma promessa antiga, que datava da vez em que ambos se conheceram durante um almoço na casa da cantora Clara Nunes (1942-1983). Os sambas sincopados de Alfaiate, com mensagens ora românticas e conservadoras, outrora engraçadas e irreverentes, logo chamaram a atenção da plateia. Quem primeiro o descobriu foi Paulinho da Viola que, na década de 1970, registrou três sambas de sua lavra: “Coração Oprimido” (com Zorba Devagar), “A.M.O.R. Amor” e “Cuidado, Teu Orgulho Te Mata”, as duas últimas feitas com Mauro Duarte (1930-1989), seu parceiro mais frequente. A dupla se conhecia desde 1947. Na ocasião, se encontraram no campo do Fluminense, nas Laranjeiras, e iniciaram uma intensa amizade.

Nascidos e criados no bairro de Botafogo, eles eram torcedores apaixonados do time da Estrela Solitária, que legou ao mundo futebolístico Garrincha (1933-1983), o Anjo das Pernas Tortas. Foi por intermédio de Duarte que Alfaiate se tornou membro da Escola de Samba Portela, em 1982. Com a partida precoce do amigo, Alfaiate dedicou um álbum inteiro às parcerias que haviam feito, intitulado “Tributo a Mauro Duarte” (2005), em que se destacam a contagiante “Arroz e Feijão”, a romântica “Falsa Euforia” e a bem-humorada “Jeito do Cachimbo”. Há, ainda, canções de Duarte com outros nomes célebres, como Paulo César Pinheiro.

Seria o derradeiro trabalho de Alfaiate no mercado fonográfico. Ao longo da carreira, mais iluminada pelas luzes da rua do que pelos holofotes do show business, ele pertenceu à ala de compositores de diversos blocos carnavalescos, como Mocidade Alegre de Botafogo, Bloco do Funil e São Clemente, protagonizou um espetáculo ao lado de Paulinho da Viola, em 1993, teve sete filhos com quatro esposas diferentes e, como crooner da boate Bolero, em Copacabana, eternizou o sucesso “Sacode Carola” (Hélio Nascimento e Alfredo Marques), dos irresistíveis versos: “Sacode, Carola/ Que eu quero ver sacudir/ Mexe e remexe com jeito, Carola/ E deixa o papai te aplaudir”, por meio de sua voz grave e com pleno domínio do ritmo, como se manuseasse linhas e agulhas com a elegância de um autêntico alfaiate.

Fotos: Arquivo Pessoal/Divulgação.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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