Quando Tudo Desaparecer

“Não estamos buscando o todo, por que perdemos algo?” Emil Cioran

Camila é uma jovem mulher que transige entre um vestido vermelho datado, que lhe dá uma postura pesada, e um leve e quase flutuante roupão, enquanto os seus dias também passam entre esses dois pertencimentos: por ora, um universo fluido e fácil; noutras, o peso do que parece ter ficado no século passado. Ela possui relações tensas e conflituosas com pessoas que, possivelmente, captam-na de outra dimensão. Talvez Camila já esteja morta.

Marcelo não consegue se acostumar com a ideia da perda. A rotina é um mero disfarce para o peso maçante do acaso: a qualquer momento, sem motivo aparente ou comportamento de risco, as pessoas que ele enxergava podem desaparecer, tal qual uma mancha de café sobre uma toalha, ou o sangue na língua que há pouco o lembrava da existência de um corpo de carne. Essa indiferença do que se convencionou tratar como Deus o torna apático e, por vezes, perplexo, ao perceber-se como coadjuvante de um protagonista invisível. Marcelo não enxerga defesas para a posição da morte diante da vida. Ele tem a alma com chuva que, até seca, permanece pingando.

Rejane debate-se há bastante tempo com um sonho obsessivo. Ela está em um espaço mínimo, presa diante de um touro que dorme. O animal é enorme, e a posição espalhada o torna ainda mais gigantesco e ameaçador. Durante todo o tempo, o animal permanece dormindo e insiste em soltar das narinas um bafo quente. A cada vez que retorna a este pesadelo a reação de Rejane é diferente, mas nada dispersa a imagem do animal em seu adormecer. É bem possível que Rejane tenha visto a filha Camila morrer ainda muito nova.

Cláudio caminha entre o pântano e o abismo das nuvens. E se de repente a aparência humana não revelar a sua essência em si? Na verdade, ele é uma ideia: a noção aterradora de que se está morto, com consciência dessa condição e, ainda assim, nada compreendemos do que passamos, do que estamos passando, da existência e seu fim. Tudo permanece enigmático como no começo: ou um copo de vidro recheado de leite sobre uma mesa vã.

Marcelo tem os olhos baços. O que significa que o que enxerga está sempre maculado por reminiscências, como o tártaro ou o mofo que, inevitavelmente, se integra às superfícies com o passar do tempo. Para olhar, portanto, procura estabelecer uma postura para além da imediata paisagem. É como se o que procurasse no mundo externo estivesse sempre além quando, na verdade, este movimento o leva a enclausurar-se para seu interior. Ele não se lembra de quando passou a ter consciência de que a vida acaba – no sentido dramático da morte como uma inexistência e desaparecimento de duração infinitamente maior do que a parca existência terrena. Essa consciência o oprime.

Marcelo traz no espírito algumas frases que mal compreende, como: “dormir significa morrer”; o que o leva a adiar o quanto pode tanto o sono quanto o despertar. Também é perseguido pela sentença: “quando tudo desaparecer ainda restará a palavra socorro”. A primeira morte que o afetou foi de uma jovem menina que ele mal conhecia, mas que o câncer levou quando ela tinha apenas 20 anos. Em seguida, assistiu a outras mortes, sempre de pessoas não muito próximas, mas em tenra idade, todas para a mesma doença. Essa aproximação que nunca se configurou definitiva o levou a um estado de espera opressora, como se a qualquer momento uma morte ainda mais dramática, ou seja, a dele próprio ou de alguém mais próximo, chegasse sem avisos prévios. É essa espera que o mantém neste estado suspenso, com os olhos baços, absorto e meio letárgico. Marcelo tem a alma com chuva, do tipo que mesmo depois de seca permanece pingando. Um homem de aproximadamente 40 anos de idade.

Rejane perdeu uma filha quando ela tinha 20 anos, para o câncer. Entre o diagnóstico da doença da menina e a morte passaram-se apenas seis meses. No entanto, a filha reclamava de dores na perna desde a infância, o que levou à conclusão de que a doença já se instalara no corpo da jovem desde muito antes. Por essas circunstâncias não houve muito tempo para o desespero, e tampouco a consternação. O choque da repentina partida de sua filha a levou a um estado de imobilidade inicial. Depois, ela encontrou no espiritismo conforto para essa dor inominável. O que a crença não foi capaz de afastar é um sonho que desde o período da doença da filha a persegue: ela está de frente para um touro que dorme, o bicho é enorme, tão monstruoso em sua largura e no brilho dos chifres afiados que supera as dimensões reais do animal. Embora adormecido, o bicho continua soltando pelas narinas um bafo quente. O espaço em que ela e o animal estão inscritos é pequeno, cercado por todos os lados, tal como um caixote, e a distância que os separa é mínima. Durante todo esse pesadelo ela permanece olhando para o bicho, temerária de que ele desperte.

Camila vive apenas para o presente. É ágil e leve como uma criança. Não tem preocupações com o que deixou de ser ou com o que virá. Em suas conversas há espaço apenas para a futilidade. Nunca conheceu o drama ou tragédia da vida senão por relatos muito distantes. Embora tenha se deparado com dificuldades, sempre lançou um olhar de plenitude a eles, tão entregue ao momento em si que não teve tempo de pensar sobre eles, afinal estava ali no espaço da ação que, como tal, possui natureza bem menos permanente do que o pensamento. Ironicamente, ela é fã da cantora Maria Callas, mas não entende nada do que é dito nas músicas, apenas aprecia pela volúpia musical.

Cláudio é a consciência de estarmos mortos e ainda assim não compreender.

Raphael Vidigal

Imagens: obras de Oswaldo Goeldi.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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