‘Sergio’, com Wagner Moura, apela ao dramalhão ao abordar morte de diplomata

“Os extremos delimitam a fronteira além da qual a vida termina, e a paixão pelo extremismo, em arte como em política, é desejo de morte disfarçado.” Milan Kundera

A verdade é que “Sergio” aborda muito mais a morte do que a vida de seu protagonista, já que ele passa boa parte do filme agonizando entre escombros. Cabe a Wagner Moura interpretar Sergio Vieira de Mello (1948-2003), diplomata brasileiro vítima de um ataque a bomba à sede da ONU (Organização das Nações Unidas) em Bagdá, durante a guerra do Iraque no ano de 2003, que terminou com 22 mortos e dezenas de feridos.

Na época, ele era o favorito a ocupar a vaga de Kofi Annan na Secretaria-Geral das Nações Unidas, fato que despertava ciumeiras, resumidas no longa à figura do norte-americano Paul Bremer, especialista em antiterrorismo enviado por George W. Bush como chefe da administração civil no Iraque, com quem Sergio rivaliza em mais de uma ocasião. Ao optar por um recorte bastante específico da trajetória do brasileiro, a produção da Netflix deixa diversas lacunas, e, ao final, pouco ficamos sabendo sobre quem realmente foi Sergio.

As informações reveladas são rasas. Nascido no Rio de Janeiro e formado na Sorbonne, ele não dá muita bola para os filhos e justifica o próprio adultério com frases que, sejamos honestos, dificilmente seriam engolidas por qualquer candidata a ser conquistada pelo charme de um homem destemido e vocacionado, que aposta em métodos pouco convencionais para a nobre tarefa de solucionar conflitos à qual se dedica. Ironicamente, esse comportamento diferenciado como diplomata parece ter sido determinante em sua morte. Mas quando lembramos que há bem pouco tempo o atual presidente do Brasil pensou em tornar diplomata o próprio filho, porque ele havia fritado hambúrgueres na América, as qualidades de Sergio se robustecem.

A missão bem-sucedida e conduzida pelo brasileiro no Timor-Leste, que levou o país a se tornar independente da Indonésia em 2002, e o período de três meses no Iraque centralizam a narrativa. Nascido na Califórnia, nos Estados Unidos, o diretor Greg Barker, que em 2009 produziu um elogiado documentário sobre a mesma personagem, pesa a mão nessa sua estreia na ficção. O filme caminha razoavelmente bem até a fatídica sequência da chuva. Daí para frente, somos entregues a uma novela das 9h de dar gosto. O dramalhão toma conta e os diálogos ralos se repetem numa frequência impressionante.

A tragédia natural da história seria suficiente para comover o espectador, mas Barker decide incrementar a agonia. A direção equivocada compromete o desempenho do bom Wagner Moura e da cubana Ana de Armas (de “Entre Facas e Segredos”, 2019), que sucumbem à pieguice. O recurso, cada vez mais batido, de ir e voltar no tempo não funciona e, nesse caso, gera uma sensação de esquizofrenia, ao realizar cortes sem escala que nos levam de tórridas cenas de sexo para situações sangrentas. Salve-se quem puder.

É uma tendência nesse tipo de trama ambicionar a uma lição de moral, a tal mensagem. No entanto, o que “Sergio” traz de mais interessante é, justamente, uma pergunta, sobre a qual Barker toca de raspão para não melindrar seus compatriotas. Quando sofreu o atentado cuja autoria foi assumida pelo grupo terrorista Al-Qaeda, Sergio estava prestes a divulgar um dossiê denunciando uma série de crimes contra os direitos humanos praticados pelos soldados norte-americanos no Iraque. Na “operação” que tentou resgatá-lo durante horas, surgem dois míseros soldados, com ferramentas michas, paupérrimas. Economista que trabalhou para a ONU e sobrevivente do triste episódio, Carolina Larriera, companheira de Sergio vivida na telona por Ana de Armas, sempre reclamou da falta de investigação acerca do ocorrido, e chegou a declarar, em 2013, que “as circunstâncias do ataque foram enterradas com homenagens e discursos comemorativos”.

Diante de tudo isso, é de se questionar qual seria o interesse das autoridades ianques no destino do diplomata. Como muitos crimes jamais elucidados – que dirá o ainda recente “Quem Mandou Matar Marielle?” – essa pergunta permanecerá no ar.


Raphael Vidigal

Imagens: Netflix/Reprodução.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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