Gabriela Prioli: ‘Ofensa, ataque pessoal e tom são limites ao debate’

*por Raphael Vidigal

“Onda que, enrolada, tornas,
Pequena, ao mar que te trouxe
E ao recuar te transtornas
Como se o mar nada fosse,” Fernando Pessoa

Não se pode ter tudo na vida. Porém, quando se é dona de uma beleza associada a um padrão consagrado – fundamentado no eurocentrismo – e de uma inteligência fora do comum, a primeira impressão é a de se estar diante da exceção que confirma a regra. O paradoxo dos ditados é que o impacto provocado por sua concisão tende a eliminar a complexidade do prisma, cujo cristal detém a capacidade de, ao receber a luz branca, transformá-la em um cartel variado de cores, realçando suas nuances.

Essa definição talvez atenda melhor ao equilíbrio que Gabriela Prioli, 34, almeja. A loira de olhos azuis e perfil apolíneo procura até encontrar o maior equívoco que as pessoas cometem a seu respeito. “Não me acho inteligente demais”, diz ela ao final da resposta, que se inicia com uma confissão: “Olha eu, fugindo da afirmação peremptória”. Mestre em Direito Penal pela USP (Universidade de São Paulo), a advogada e comentarista política criou, para autoconhecimento, um mantra que, posteriormente, ela passou a dividir com seu público, e que costuma abrir as análises veiculadas em seu canal no YouTube: “Menos emoção e mais razão”.

Posicionamento. “Na verdade, no começo do canal eu falava diversas frases. Por exemplo, antes de um debate, digo que é preciso respirar três vezes até iniciar a fala. Com isso, eu estou tentando tirar a carga emocional do assunto. Se você está abalado emocionalmente, começa a não raciocinar direito. E nós estamos em um momento de polarização política, em que os posicionamentos se dão em uma base mais afetiva e menos racional”, observa ela. Desde que estreou, em março, no quadro “O Grande Debate” do telejornal matutino da CNN Brasil, o peso das opiniões de Gabriela aumentou.

O sorriso levemente irônico e as respostas assertivas para contestar as colocações de seus debatedores alvoroçaram internautas e a elevaram ao status de fenômeno nas redes sociais. Memes com a constatação de que Gabriela “jantava” seus oponentes – expressão criada para exaltar a prevalência argumentativa de alguém – pipocavam incessantemente. Mas a lua de mel durou pouco. Após demonstrar no ar, em mais de uma ocasião, seu desconforto com o que chamava de “desvirtuação do tema proposto” e impedida de concluir as próprias falas, Gabriela anunciou sua saída da atração no final daquele mesmo mês. A gota d’água foram as interrupções do mediador Reinaldo Gottino, em meio à discussão acerca da autorização da Justiça para o cumprimento da prisão domiciliar pelo ex-deputado Eduardo Cunha.

Limite. “Não tenho nenhum arrependimento dessa decisão. Ainda que sejam imediatamente ruins quando acontecem, tento não olhar as experiências do ponto de vista negativo, porque podemos aprender com elas e seguir em frente. A experiência de debater já existia na minha vida. Trabalhei durante muito tempo como advogada criminalista e com advocacia contenciosa. Então, eu estava acostumada a debater em audiências. A novidade foi a exposição. Pela primeira vez, eu estava em um programa diário na TV, e essa foi uma oportunidade interessante, que me possibilitou uma amplitude maior de comunicação”, destaca.

Gabriela era criança quando ouviu um conselho da mãe que ela guarda até hoje. “Você pode falar o que quiser, para quem quiser, só não pode ofender”, relembra. “Existe um limite no debate que é o do ataque pessoal, da ofensa, e acredito também em um limite de tom, principalmente se você está em um ambiente controlado, onde ninguém está ali em uma disputa política, no sentido de concorrer a algum cargo. As pessoas trabalham no mesmo local, então são cenários diferentes em que se desenvolvem esses debates. Procuro tomar esses cuidados”, declara. Se alguma vez extrapolou esse limite, Gabriela diz não se lembrar. “É difícil, porque pode ser que eu não me recorde e possa repensar. Já devo ter errado e vou errar outras vezes, mas, há algum tempo, eu venho tentando me comportar dessa maneira e tenho sido vigilante nesse aspecto”, garante.

Rótulo. Nas primeiras exibições de “O Grande Debate”, Gabriela dividia a bancada com o advogado e comentarista político Caio Coppolla, que nunca escondeu o apoio ao presidente Jair Bolsonaro e a admiração pelo ex-ministro Sergio Moro, ambos identificados com o espectro ideológico da direita. Essa condição induziu espectadores a relacionarem Gabriela à esquerda, afinal cada um deles deveria defender um ponto de vista divergente. No entanto, por uma questão de premissa, ela prefere “não se atribuir rótulos”. “Vivemos em uma sociedade polarizada, em que algumas pessoas sequer escutam o que a outra tem para dizer a partir da identificação que se atribui a ela. E os referenciais teóricos são diferentes, muitas pessoas sequer sabem por que se definem de uma maneira ou de outra, mas deixam de escutar o outro a partir do rótulo”, justifica.

“Me proponho a comunicar. Quero que as pessoas escutem minhas posições até o final, não que elas se identifiquem comigo a partir do rótulo. Essa não é uma percepção só minha, há estudos que demonstram que as pessoas refutam as ideias de determinados agentes pela característica do grupo de onde elas partem”, completa. Mas, afinal, se não quer se definir como sendo de direita ou esquerda, no campo dos costumes, Gabriela é progressista ou conservadora? “A resposta que eu vou dar é convidar as pessoas a assistirem aos conteúdos que produzo”, arremata.

Redes. Esse conteúdo está disponível de diferentes formas nas redes sociais. Gabriela é ativa no YouTube, Facebook, Twitter, Instagram e, recentemente, entrou até no TikTok, onde ela esclarece que “não faz dancinhas, só dublagens”. “Uso as possibilidades que cada plataforma oferece. No Twitter, por exemplo, faço considerações pontuais. Quando são temas quentes, sobre os quais está todo mundo falando com rapidez, eu digo que vou precisar ler a respeito, não vou falar no calor da hora, a não ser considerações mais superficiais. Mas vou precisar ler a transcrição da decisão para refletir e depois falar o que acho importante”, pondera.

Ela também utilizou o espaço virtual para encampar iniciativas como o Clube do Livro, que incentiva a leitura entre seus seguidores. “As redes são uma plataforma fantástica para a divulgação e a troca de conhecimento e informações, mas eu gosto de ressaltar, sempre, a importância dos livros e de a gente não se submeter a todo momento a essa rapidez e agilidade que as redes demandam. Eu uso as redes, mas, ao mesmo tempo, eu critico alguns aspectos que elas impuseram à nossa forma de viver e se comunicar. Temos que aprender a viver nesse mundo conforme ele se apresenta, usando os dados da realidade, mas sem deixar de promover mudanças que consideramos fundamentais”, afiança.

Encontros. No final de abril, a advogada fechou parceria com a empresa Play9, que tem como sócio o youtuber Felipe Neto, para auxiliá-la na produção de seu material na internet. “Eles têm me ajudado bastante na questão operacional, de edição e organização do meu canal no YouTube. O João Pedro Paes Leme (outro sócio da Play9) tem um histórico no jornalismo e trocamos experiências juntos. Mas quem decide o conteúdo sou eu”, pontua. Já nesse formato, em maio, Gabriela realizou lives com Anitta, a fim de esclarecer dúvidas da cantora sobre política.

“A Anitta é uma amiga pessoal, e, essa troca que vivenciamos nas redes, a gente já havia experimentado de forma particular, no nosso dia a dia. As experiências de vida que ela teve, faz com que ela tenha dúvidas que eu já não tinha, ao mesmo tempo em que ela carrega outras certezas e vice-versa”, afirma. Cobrada, em 2018, a se posicionar a favor do movimento “Ele Não”, contrário à candidatura de Jair Bolsonaro, Anitta aproveitou as lives para questionar Gabriela sobre a nomenclatura atribuída aos ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) e as definições entre esquerda e direita. A ideia era explicar os meandros da política de um jeito simples. O encontro causou repercussões negativas e positivas na rede. Um dos comentários elogiosos veio do escritor Paulo Coelho, que enalteceu “a lição de civismo (de Anitta) ao perguntar coisas que muita gente gostaria de saber”.

Diálogo. “As críticas existem e, quando você se posiciona publicamente, precisa encará-las com naturalidade, porque elas virão. Não tenho nenhuma pretensão de agradar a todos, porém, acredito que não ridicularizar a dúvida encoraja as pessoas a perguntarem. E só quando você assume que não sabe, se dispõe a aprender. A partir daí, todos podemos crescer”, avalia Gabriela. “Anitta teve uma postura humilde, corajosa, que deve ser enaltecida, de não ter vergonha de compartilhar as próprias dificuldades. Desde sempre, ouço o que as pessoas falam nas minhas redes sociais, para entender como elas raciocinam, independentemente de concordarem ou discordarem de mim. Hoje em dia, infelizmente, consigo responder menos de forma individual. Mas o que eu percebo é que, às vezes, falta um conhecimento dos termos que elas estão usando”, complementa.

Gabriela acredita que “quanto mais gente com propostas diferentes, melhor”. “A minha abordagem é essa, até pela minha formação e intenção de me comunicar, mas é ótimo que se proponham outras e novas abordagens para se debater esses assuntos”, diz ela. “Minha intenção, ao me comunicar, não é me mostrar como uma pessoa sábia e inteligente. Algumas pessoas imaginam que eu queira me colocar como alguém acima dos outros intelectualmente. Falo o tempo inteiro que não me considero inteligente demais. O que procuro é dividir com os outros aquilo que eu sei, que é muito limitado. Existem muito mais coisas que eu não sei. Tento estabelecer e desenvolver o diálogo”, reforça.

Desassossego. A comentarista atribui parte dessa percepção, que não encontra eco na realidade, ao intenso convívio com o público nas plataformas digitais. “As pessoas recebem um pedaço de você. Algumas me consomem em todas as redes, e têm uma compreensão maior, embora limitada. Eu me exponho bastante, mas ainda me reservo um espaço privado, então é claro que há ruídos”, sublinha. Nesse lugar só seu, repousa na cabeceira da entrevistada o “Livro do Desassossego”, de Fernando Pessoa (1888-1935), editado postumamente em 1982, quatro anos antes do nascimento de Gabriela na cidade de São Paulo. “Fico fascinada com os heterônimos e a possibilidade de a gente se reconhecer neles”, conta.

Ela começou a ler a obra do autor português na adolescência. “É uma fase da vida em que a gente se sente incompreendido, e a literatura pode ser um oásis. Esses poemas são um acalento, um afago para a alma”, define. “Tem gente que acha esse livro muito profundo e denso para ser de cabeceira. Mas eu acho tão bonita a complexidade e dualidade que ele enxerga no ser humano. É o que me encanta, vejo beleza nisso”. Aos seis anos de idade, Gabriela foi obrigada a lidar com uma tragédia pessoal, quando o seu pai morreu em um acidente de carro. Viúva aos 32 anos, a mãe é o seu “maior exemplo de força, determinação e resiliência”.

Exemplo. “Sou bem clichê nesse sentido. Admiro a capacidade da minha mãe de se doar pelo outro. Temos características parecidas, mas temos nossas diferenças. E ela teve a grandeza de me permitir crescer segundo as minhas próprias particularidades, sem querer impor as vontades dela. Isso foi fundamental para que eu pudesse me desenvolver de forma saudável. Ela sempre me respeitou como indivíduo. Essa é uma postura democrática, que me transmitiu valores que norteiam o meu pensamento até hoje”, assegura.

Não por acaso, um dos ensinamentos de sua mãe retorna à entrevista: “Você pode falar o que quiser, para quem quiser, só não pode ofender”. Ainda sem data de estreia, a comentarista tem discutido com a CNN o formato de um novo programa. Atualmente, ela pode ser vista no semanário “O Mundo Pós-Pandemia” da emissora e em todas as redes sociais. Inclusive exibindo suas habilidades de dubladora no TikTok.

Fotos: CNN/Divulgação.

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1 Comentário

  • Que exagero. Ela é uma pessoa inteligente comum, nada fora do normal. Nenhum gênio. É impressionante como não podem ver uma mulher “padrãozinho” inteligente que a pessoa é endeusada. Inteligência normal, uma pessoa que estuda e lê. Nada que ela fala é inesperado de alguém que faça essas coisas. Não entendo o fuzuê envolta dela. Só porque ela é branca e loira. Não vejo ninguém exaltando mulheres negras e muitíssimo inteligentes, que estão há muito tempo educando pessoas. Que coisa mais ridícula. Ainda mais em tempos como os que estamos vivendo.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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