Aos 60 anos, Fernanda Abreu diz que ‘governo Bolsonaro veio para destruir’

*por Raphael Vidigal

“A vida é um incêndio: nela
dançamos, salamandras mágicas.
Que importa restarem cinzas
se a chama foi bela e alta?
Em meio aos toros que desabam,
cantemos a canção das chamas!
Cantemos a canção da vida,
na própria luz consumida…” Mario Quintana

Ela é a “mãe do pop brasileiro dançante”, mas pode chamar de “madrinha do funk carioca”. Fernanda Abreu apostou nessa mistura na década de 1990, quando ainda não era moda o estilo dominado por mulheres como Annita, Ludmilla, Iza e Luísa Sonza – todas citadas nominalmente.

“O ambiente da música sempre foi muito masculino, em todos os sentidos. Não apenas em relação aos músicos e técnicos, mas também com os executivos, divulgadores, rádio, TV, imprensa, sempre teve muito homem, e as mulheres vão, guerreiramente, conquistando o seu espaço com muita determinação. Precisamos dar alguns ‘nãos’ e os homens têm que aceitar isso cada vez mais”, sustenta.

Feminista. Fernanda ainda destaca outro diferencial da nova geração. “Temos uma tradição muito grande de mulheres intérpretes, mas temos visto cada vez mais mulheres compositoras, escrevendo o próprio discurso”, celebra. Ela aponta as manifestações de junho de 2013 como ponto nevrálgico dessa atual perspectiva.

“Foi a nossa primavera feminista. Não dá mais pra dar passo atrás, agora é só gol. Apesar de a gente ainda viver um feminicídio gigante, uma violência contra a mulher que é estrutural e também vem de uma reação masculina a esses avanços. Se os homens forem espertos eles vão perceber que precisam se reposicionar diante da força da mulher para caminharmos juntos, lado a lado”.

Parcerias. “Rio 40 Graus”, “Garota Sangue Bom” e “Kátia Flávia, a Godiva do Irajá” estão entre os maiores sucessos da carreira da intérprete. Em comum, a presença de Fausto Fawcett nas composições. “Fausto é um dos maiores escritores brasileiros que eu conheço. A cabeça dele é muito inventiva, ele é um grande intelectual, um homem culto”, elogia. A parceria entre os dois começou há trinta anos.

Logo que Fernanda saiu da Blitz, ele a convidou para participar, como cantora, dos espetáculos de lançamento do álbum “Fausto Fawcett & os Robôs Efêmeros”, de 1987, e, depois, lendo textos da ópera-rap que produziram. Outro parceiro de longa data é Evandro Mesquita. “Somos amigos até hoje, a gente se fala semanalmente. Evandro é um cara muito generoso, e que colocou eu e a Marcinha (Bulcão) na linha de frente da Blitz quando nem se falava direito nisso de dar espaço para as mulheres”, exalta.

Primórdios. Uma onça sobrevoa a cabeça de um casal que aproveita a música para dar uns “amassos”. Poderia ser um quadro do pintor surrealista Salvador Dalí (1904-1989), mas era apenas um dos cartazes que anunciava os primeiros shows da Blitz no Circo Voador, em 1982.

Na outra imagem, policias parecem dar uma batida nos músicos enquanto a dança continua comendo solta. Abaixo dos letreiros da banda, os dizeres: “Para ouvir e dançar apaixonadamente!”. O ingresso custava 300 cruzeiros.

“Foram os primeiros shows da Blitz na estreia do Circo Voador, em sua única edição no Arpoador”, relembra Fernanda, que aponta a presença de Lobão, na bateria, ao fundo, em uma foto com a formação clássica da banda. Evandro aparece com uma peruca de estilo jamaicano na cabeça, a la Bob Marley.

Geração. “Lobão era muito jovem na época e ficou pouco tempo na banda, acho que uns cinco meses, porque já tinha o projeto solo dele”, diz. Com Cazuza, ela travou uma amizade que incluía dias solares e praianos e noitadas na Pizzaria Guanabara e no afamado Baixo Leblon. “Cazuza era muito inteligente, bem-humorado, sempre com aquela pegada de poeta”, garante.

Já com Renato Russo a convivência foi mais esparsa, restrita aos corredores da gravadora Odeon. “Ele apareceu primeiro como jornalista, vindo de Brasília, e, depois, vendendo o peixe dele com a Legião (Urbana) até chegar àquele sucesso gigantesco que deixou o Brasil todo enlouquecido”, conta.

Legado. Para Fernanda, os anos 80 simbolizaram “a consagração de toda uma geração”. Ela enumera bandas que permaneceram criando canções que se eternizaram, como Legião Urbana, Barão Vermelho, Os Paralamas do Sucesso, Titãs e Kid Abelha.

“Claro que, do meu ponto de vista, ‘Você Não Soube Me Amar’ é o grande clássico”. A música abriu as portas para o rock brasileiro dos anos 80 e logo tomou conta das rádios de todo o país, vendendo mais de 100 mil cópias e gerando o primeiro álbum da Blitz, em 1982.

“Houve uma mudança comportamental a partir dali. Independentemente das diferenças de estilos entre as bandas, havia uma coisa em comum que era ser a voz da juventude, trazendo outra concepção de letra, linguagem, estética, com gírias e muita liberdade. Ainda vivíamos o fim da ditadura militar e trouxemos um frescor importante”, orgulha-se a vocalista da trupe que abalou o Brasil em meio a batatas-fritas e um amor que era gostoso até debaixo d’água.

Tempo. Aos 60 anos, Fernanda acumula sete álbuns de estúdio em sua carreira-solo, sendo o mais recente “Amor Geral”, de 2016. Em 2021, lançou uma coletânea com os “lados B” de sua carreira e remixou o inaugural “Sla Radical Dance Disco Club”, com convidados especiais como Emicida e Projota.

E não pretende ficar parada na pista. Inquieta, projeta um aguardado disco de sambas para homenagear os pais, ainda no compasso de espera devido à pandemia de Covid-19. “Sempre gostei de música dançante, fui bailarina e as coisas se juntaram naturalmente”, diz. Em uma indústria tão competitiva como a da música pop, se manter longeva é uma conquista a ser comemorada.

“Quem não tem consistência, acaba dançando, mas, se a pessoa tem carisma e talento, ela se reinventa”, aposta. “Hoje, a música pop é bem rica, tem muita gente fazendo. Em termos de produção fonográfica, temos muitos cantores, hitmakers, DJs, com muita programação e bastante trap-funk”, analisa.

Política. Antenada e otimista, Fernanda acredita que o Brasil chegou ao momento de “finalmente finalizar um dos capítulos mais tristes da nossa história, que é o governo Bolsonaro”. “Parece que a maioria absoluta do povo já entendeu que esse governo veio para destruir tudo que a gente tem de legal e positivo”, opina.

“A cada notícia que passa, especialmente em relação à pandemia, a forma como ainda continuam lidando com a crise sanitária, energética, de petróleo, educação, saúde, ciência…, é estarrecedora. A arte não precisa nem falar. Eles decretaram a cultura como inimiga desde o primeiro dia de governo. Mas temos finalmente uma luz no fim do túnel com o fim desse governo”, conclui a cantora.

Foto: Murilo Alvesso/Divulgação

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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