4 músicas históricas gravadas por Simone

“Quando eu soltar a minha voz, por favor, entenda,
Que palavra por palavra eis aqui uma pessoa se entregando,
Coração na boca, peito aberto, vou sangrando,
São as lutas dessa nossa vida que eu estou cantando…” Gonzaguinha

Cantora Simone gravou clássicos inesquecíveis da música brasileira

Baiana, natural de Salvador, nascida no dia 25 de dezembro, data em que se comemora o Natal, e jogadora de basquete profissional, inclusive convocada para a disputa de Mundial da categoria pela Seleção Brasileira, Simone trazia inúmeros adjetivos para se tornar conhecida. Porém, a cantora de nome único, sem a necessidade de sobrenome ou alcunha, uma raridade no meio, tornou-se consagrada justamente através da música. Como se não bastasse a voz, ao mesmo tempo suave e marcante, agregou como característica indissociável de suas gravações a interpretação única, positiva, temperada pela galhardia e o desbravamento inerentes à própria personalidade. Pois música, como arte, é isto: viver intensamente o que se produz, mais até do que de seu resultado. A voz de Simone pontuou, como poucas, vários de nossos momentos históricos.

Bárbara (MPB, 1972) – Chico Buarque e Ruy Guerra 
Em 1972, Chico Buarque compôs a primeira música que se tem registro que fala do amor homossexual entre duas mulheres. “Bárbara” foi composta por ele e por Ruy Guerra para a peça de teatro “Calabar – o elogio da traição”, censurada à época da ditadura. A música trata o tema de forma lírica e intensa, sem julgamentos ou preconceitos. Foi gravada por Ângela Ro Ro (homossexual assumida), Maria Bethânia, Gal Costa, Simone, entre outras.

Geraldinos e Arquibaldos (samba, 1975) – Gonzaguinha
No ano de 1975, Gonzaguinha se esquiva das garras da censura imposta no Brasil em razão da ditadura militar, com um samba irônico e divertido, cuja sinuosidade da letra é acompanhada de perto pelo ritmo. “Geraldinos e Arquibaldos” traz ainda uma homenagem às pessoas humildes que frequentam os estádios nos lugares mais simples, a “geral” e a arquibancada, além de lançar mão de expressões típicas do esporte mais popular do país, como “cama de gato”, e outros ditos populares, como “angu que tem caroço”. Lançada num dos primeiros álbuns de Gonzaguinha, “Plano de Voo”, já mostrava o poder de crítica e a acidez construtiva dos versos de Gonzaguinha, além da inventividade formal. Foi regravada, com sucesso, por uma de suas grandes admiradoras, a cantora Simone. “No campo do adversário/É bom jogar com muita calma/Procurando pela brecha/Pra poder ganhar…”.

Tô voltando (samba, 1979) – Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro
“Tô voltando”, um samba de 1979 de Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro celebra a volta pra casa do narrador que já se delicia com a lembrança dos quitutes tipicamente nacionais com os quais pretende se deliciar em breve, além, é claro, do conforto, carinho e aconchego do lar nos braços de sua amada. Interpretada por Simone, no contexto da época foi usada para festejar não apenas o encontro de um casal, mas o retorno de vários anistiados brasileiros que haviam sido exilados em outros países pelo regime ditatorial. O ritmo pra cima, festeiro, alegre, contrastava com a situação cinza na qual o país havia emergido, mas era também uma resposta, uma maneira de resistir e provar aos mesquinhos e poderosos da exploração que não se pode tirar da pessoa aquilo que lhe é mais imprescindível, e não se conquista através de determinações, mas de um sentimento honesto e verdadeiro. Como uma cerveja gelada, uma flor perfumada e um amor inquebrantável.

Sangrando (1980, balada) – Gonzaguinha 
No início da década de 80, Gonzaguinha passou a morar em Belo Horizonte com sua segunda esposa, Lelete. Desse casamento nasceu a sua caçulinha, Mariana, irmã de Daniel, Fernanda e Amora, filha do relacionamento do cantor com a Frenética Sandra Pêra. Nessa época, ele vivia sua melhor fase e já desfrutava dos sucessos de “Ponto de Interrogação”, “Grito de Alerta” e “Sangrando”. A balada imortalizada por Simone revelava um desenho autobiográfico e pungente do compositor que não se dizia cantor, mas intérprete de suas emoções. Na letra de “Sangrando”, o intérprete se rendia por inteiro. Começava soltando a voz com um delicado pedido, para depois consentir que a música se apoderasse dele e exprimisse a vida em sua plenitude.

Simone é uma das cantoras mais reconhecidas do país

Raphael Vidigal

Fotos: Cristina Granato.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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