15 Músicas de Sucesso no Carnaval

“O Carnaval é a invenção do Diabo que Deus abençoou…” Caetano Veloso

Músicas de sucesso no carnaval

Cantado em verso e prosa e de cabo a rabo no Brasil todo, o Carnaval é certamente a festa popular do país mais reconhecida intramuros e além deles, pois feito, principalmente, de exaltação e liberação de costumes, transas e bodes. Com a bênção de Baco, Deus e o Diabo, a festança se estende por 4 dias entre os 4 cantos e becos e bocas por avenidas, blocos, ruas, confetes e serpentinas. Tradição maior a folia canta suas alegrias, tristezas e esperanças, em forma de sátira, gozo ou lamentação desde que o mundo é mundo, mas, no caso, aqui vamos da década de 1930 até os anos 2000, com direito a Carmen Miranda, Braguinha, Assis Valente, Caetano Veloso, Gal Costa e tudo o mais!!!

Ta-Hi [Pra você gostar de mim] (marchinha, 1930) – Joubert de Carvalho
Na pacata cidadezinha de Uberaba, o menino Joubert de Carvalho logo se engraçava quando vi ressoar o som da banda, no que corria de pijama e tudo atrás da mesma. Inicialmente, o pai era contra a investida do filho, pois achava que desviaria a atenção da medicina. Só que os editores passaram a comprar cada vez mais as músicas de Joubert e aumentar o valor dos pagamentos. Enquanto a canção ‘Príncipe’ tornou-se a primeira brasileira gravada no exterior, ‘Ta-Hi’ virou uma febre nacional. A marchinha lançada por Carmen Miranda, intitulada a princípio ‘Pra você gostar de mim’, caiu tanto no gosto do povo que este se viu no direito inclusive de trocar o seu nome de batismo. Nunca houve um filho adotivo carregado com tanto fervor e entusiasmo. E olha que a marchinha nem era o ritmo preferido de Joubert de Carvalho, assumido apreciador de seresta e música clássica. Mas ‘Ta-Hi’ era irresistível, e ainda é.

Eu dei… (marchinha de carnaval, 1937) – Ary Barroso
A canção em destaque talvez tenha sido a marchinha de carnaval a iniciar a malícia do duplo sentido na cultura musical com acento tipicamente brasileiro. O que muito se explica em razão da conotação da festança, que tem nos deuses do vinho e do prazer, como Dionísio, todo o seu efeito e sentido. “Eu dei…” composta por Ary Barroso e lançada por Carmen Miranda em 1937 já brincava com a relação sexual entre a expressão e as múltiplas possibilidades que ela desperta no imaginário. O desejo de cada um é que define o que foi afinal que deu Carmen, afinal ela não revela, e “adivinhe se é capaz…”.

Yes, nós temos bananas (marchinha, 1938) – Braguinha e Alberto Ribeiro
João de Barro, o Braguinha, e Alberto Ribeiro, reafirmam seu orgulho do Brasil ao cantarem os versos da música: “Yes, nós temos bananas!”. A marchinha feita pelos dois em 1938 foi um dos grandes sucessos do carnaval daquele ano e trazia uma crítica bem humorada aos norte-americanos que insistiam em chamar os países da América Latina de “república das bananas”. Exaltando as qualidades da fruta que se tornou brasileira e ainda brincando com as exportações de café, algodão e chá mate, Braguinha e Alberto Ribeiro encerram a canção com os divertidos versos: “bananas para quem quiser!”.

Camisa listrada (samba-choro, 1938) – Assis Valente 
A camisa presente nas passarelas de rua do carnaval de 1938 foi a listrada de Assis Valente. Nela é possível perceber o desespero da mulher que vê o seu homem desfilar na avenida vestindo suas roupas, sua saia e sua combinação. A música é uma combinação entre alegria e tristeza, e mostra de forma debochada e simples o contraste entre a fantasia do homem que sai para se divertir e a preocupação da mulher que assiste àquilo com ares de repreensão. A música retrata o descompasso do amor entre a mulher que sofre em vão e o homem que vai à folia do carnaval. É um apelo que a mulher faz para que seu homem não se fantasie.

Camisa Amarela (samba, 1939) – Ary Barroso
Todos temiam o gongo do “Calouros em Desfile”, programa criado por Ary Barroso que transformou-se no maior marco do gênero. Nele se apresentaram nomes como Ângela Maria, Lúcio Alves, Elza Soares, que deu uma resposta enviesada para o apresentador, e até Dolores Duran, que temeu críticas por sua voz doce. Todos passaram pelo crivo de Ary Barroso. Desfilaram na passarela exibindo vozes que brilhavam tanto quanto a “Camisa Amarela” que Aracy de Almeida cantou em 1939, segundo Ary Barroso sua melhor escolha de intérprete para uma música sua. A canção foi uma das poucas cantadas em disco pelo próprio Ary Barroso, e conta a história do folião que se perde na avenida e volta para casa cansado, um trapo, pedaço de gente para sua amada. Além disso, a letra cita sucessos carnavalescos da época, “Florisbela” e “A Jardineira”.

Alá lá ô (marcha de carnaval, 1941) – Nássara e Haroldo Lobo
O folião Haroldo Lobo, apelidado de clarinete por sua voz agudíssima, era segundo o amigo Antônio Nássara: fabuloso. E tinha razão de ser. Criador de inúmeras marchinhas que se tornaram parte integrante da memória carnavalesca, ele pediu para o caricaturista completar uma despretensiosa composição do ano anterior. Como não podia deixar de ser, a música era em ritmo de festa e euforia e destacava versos que falavam de sol e caravan. Para isso, Nássara unificou uma divindade a um conhecido cartão postal africano, o deserto do Saara. Pronto, dali para Haroldo arrematar com o refrão entusiasmado foi um pulo: “Alá lá ôôô, mas que calor, ôôô…”. Faltava agora os arranjos e a orquestração, definidos com maestria e alta categoria por ninguém menos que Pixinguinha. Nas palavras de Nássara: “Pixinguinha tinha dividido a melodia em compassos marcantes, saltitantes, brejeiros, originais, vestindo-a com roupagem da alma popular. E eu tive uma sorte danada porque “Alá lá ô” ficou sendo uma das músicas mais tocadas no carnaval. Das que fiz, foi a única que me rendeu alguma coisa”. A música gravada por Carlos Galhardo em novembro de 1940 foi lançada no carnaval de 1941. Virou sucesso permanente.

Papai Adão (marchinha de carnaval, 1951) – Armando Cavalcanti e Klécius Caldas
Blecaute colecionou muitos admiradores que adoravam seu jeito afável e de bem com a vida, esbanjando largo sorriso. Além disso, era conhecido também pela elegância, tanto dos passos como das vestimentas. A cronista Eneida dizia: “Olha que elegância de porte e que charme de sorriso.” Mas o traço mais marcante de Blecaute sem dúvida nenhuma era a espontânea simpatia, contida em sua maneira sinuosa de cantar ditados tão populares: “Papai Adão, Papai Adão já foi o tal, hoje é Eva quem manobra, e a culpada foi a cobra”. A divertida brincadeira sobre as relações conjugais é mais um exemplo da bem sucedida comunhão entre Blecaute e a dupla de compositores formada por Klécius Caldas & Armando Cavalcanti. A música alude ao primeiro pai da história.

Cachaça (marchinha de carnaval, 1953) – Mirabeau, Lúcio de Castro, Héber Lobato e Marinósio Filho
Batizada pelo sambista Henricão com o nome artístico de Carmen Costa, com quem, aliás, iniciou carreira em dupla nos palcos de Juiz de Fora, numa feira de mostras no Arraial do Rancho Fundo, interior das Minas Gerais, a intérprete especializou-se em sucessos carnavalescos, sendo o mais reconhecido de todos eles “Cachaça”, marchinha de carnaval lançada em 1953 cujos versos “se você pensa que cachaça é água/cachaça não é água não/cachaça vem do alambique/e água vem do ribeirão” de inegável inspiração na sabedoria popular ecoam até hoje nas festas do mês de fevereiro. A exemplo dos precedentes sambas-enredo, a música conta com a assinatura de um número expressivo de compositores, algo que se tornaria mais comum nas décadas seguintes.

Me dá um dinheiro aí (marchinha, 1960) – Homero, Ivan e Glauco Ferreira 
Da união do humor com a música brasileira surgiu uma das mais valorosas peças do nosso repertório. O cancioneiro carnavalesco não foi o mesmo depois de “Me dá um dinheiro aí”, parceria dos irmãos Homero, Ivan e Glauco Ferreira. Outro personagem de fundamental importância nesse sucesso foi o intérprete da canção, Moacyr Franco que, além de cantor, atuava no programa “A Praça da Alegria”, ascendente de “A Praça é Nossa”, no papel do mendigo que eternizou o bordão usado no refrão da música. Posteriormente a música seguiria sendo regravada. O motivo é simples de explicar. Além da qualidade da melodia quem é que não quer pedir um dinheiro aí? Difícil é encontrar quem queira dar.

Adeus de Carnaval (marcha-rancho, 1967) – Maria Inês Aroeira Braga
A história de “Adeus de Carnaval” é curiosa, só para adjetivar. Pois, na verdade, é muito mais. Composta no fim da década de 1960 por Maria Inês Aroeira Braga, poeta, mística e artista plástica mineira, a música retornou à tona anos depois, em 2014 quando, por iniciativa de seu irmão, Marcelo Aroeira, ela foi gravada em estúdio pelo cantor Mauro Zockratto. Mas seu percurso ainda não tinha terminado. Três anos depois, em 2017, inscrita no “Concurso de Marchinhas Mestre Jonas” foi selecionada entre as finalistas para ser apresentada num show. Feita esta parábola, vamos à sua história, que remonta a todas as tradições carnavalescas, começando por seu ritmo, a marcha-rancho, alusão aos antigos ranchos que desfilavam nas ruas antes das escolas de samba e, claro, aos amores desfeitos que, desde Colombina, Arlequim e Pierrô enfeitam e colorem os carnavais brasileiros. Viva nossa festa!

Atrás do Trio Elétrico (1969) – Caetano Veloso 
Em 1969, enquanto no carnaval de Salvador o povo cantava e dançava “Atrás do Trio Elétrico”, seu autor vivia no Rio a expectativa de ser libertado da prisão imposta pela ditadura. A libertação aconteceu somente na quarta-feira de cinzas, só que de forma parcial, pois Caetano Veloso e Gilberto Gil passaram a um regime de confinamento na Bahia, seguindo-se o exílio em Londres. Gravada inicialmente num compacto em 1968, com Caetano Veloso acompanhado por um pequeno grupo dirigido por Rogério Duprat, esta marcha-frevo, mais tarde alcunhada de frevo baiano, homenageava o Trio Elétrico de Dodô e Osmar, com a frase inicial que se tornou praticamente um dito popular: “Atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu…”.

Chuva, Suor e Cerveja (frevo, 1972) – Caetano Veloso
Com seu projeto tropicalista Caetano Veloso revisitou e explorou os gêneros mais representativos e típicos da cultura nacional brasileira. Entre eles não poderia estar de fora o frevo. Composta em 1972, “Chuva, Suor e Cerveja” é um exemplo dos mais bem acabados da capacidade do compositor em unir instâncias, aparentemente distantes, como a modernidade e a tradição, e o que propõe, na letra desta canção, é a irrestrita liberdade de ser e estar. “Chuva, Suor e Cerveja” é uma música que brada contra toda e qualquer caretice, qualquer tipo de censura, costumes ou moralismo, e conclama para o prazer, à diversão, representados pelos itens líquidos que compõe este cenário, onde não poderia ficar de fora a água que se bebe, que se exala e que se recebe. A chuva aparece como graça, memória, folia e vida. “Acho que a chuva ajuda a gente a se ver…”.

Eu quero é botar meu bloco na rua (marcha-rancho, 1972) – Sérgio Sampaio
Com sua loucura lúcida, como disse Lygia Fagundes Telles de Caio Fernando Abreu, Sérgio Sampaio criou uma das mais emblemáticas canções de carnaval de todos os tempos. Em meio à ditadura militar que se instaurara no Brasil, o compositor baiano, tido por muitos como “maldito”, dá uma aura lamentosa à festa popular mais famosa do país, ao entoar versos confessionais em tom melancólico, emendando logo na sequencia o refrão esperançoso que garantiu o sucesso da canção: “Eu quero é botar meu bloco na rua, brincar, botar pra gemer…”. Além do conteúdo sexual abordado no refrão há também referências ao uso de drogas, tudo feito com muito deboche, misturando lamento e alegria e dando seu aval definitivo à festa máxima brasileira: o carnaval.

Bloco do Prazer (frevo, 1979) – Fausto Nilo e Moraes Moreira
O compositor Fausto Nilo conheceu os integrantes do “Pessoal do Ceará” ainda na década de 70, e desde então passou a ser gravado por cantores como Fagner e Belchior, e mais tarde, Chico Buarque, Ney Matogrosso, Caetano Veloso, Geraldo Azevedo, e outros. No ano de 1979, o “Trio Elétrico Dodô e Osmar”, banda criada pelos inventores do Trio Elétrico na Bahia, lançou no carnaval a música “Bloco do Prazer”, parceria de Nilo com o novo baiano Moraes Moreira. O frevo, em ritmo acelerado, é uma conclamação desenfreada à alegria e à festa. Gravada por Nara Leão em 1981, tornou-se sucesso nacional na voz de Gal Costa, um ano depois. Era apenas o início do desfile daquele cearense de Quixeramobim.

Cuidado com o pescoço (marchinha, 2017) – Raphael Vidigal, André Figueiredo e Ronaldo Ferreira
Composta em 2017 a marchinha “Cuidado com o pescoço” mistura duas das receitas mais tradicionais na música brasileira para chegar à sua fórmula festiva. Começando pelo recorte histórico tece ilações entre figuras que foram acusadas de traição com o homenageado que inspira o título. Recurso bastante utilizado nos sambas-enredos. Por outro lado, remete à antiga mania de escárnio presente desde os tempos do poeta satírico Gregório de Matos, conhecido como “Boca do Inferno” e representado em filme pelo também poeta Wally Salomão. A homenagem às “grandes figuras” políticas vem desde o tempo em que Getúlio Vargas ficava irritado ao ser chamado de velho na marcha que trazia o refrão “bota o retrato do velho outra vez, bota no mesmo lugar, o retrato do velhinho faz a gente trabalhar…”.  Ora só, o aviso está dado!

*Bônus
Pé na Jaca (marchinha, 2020) – Bento Aroeira e Rubinho do Agogô
Durante a campanha eleitoral de 2018, o senador Cid Gomes, irmão de Ciro Gomes, presidenciável pelo PDT, se estranhou com apoiadores petistas e disparou: “O Lula tá preso, babaca!”. Da prisão, Lula reagiu com bom humor em uma entrevista, ao dizer: “Eu sei que estou preso, só não precisava chamar os outros de babaca”, e riu. Com a libertação do ex-presidente, o bordão se inverteu. Para completar, o documentário de Petra Costa sobre o impeachment de Dilma, “Democracia em Vertigem”, foi indicado ao Oscar. Os compositores Bento Aroeira e Rubinho do Agogô criaram a marchinha “Pé na Jaca” inspirados por essa trama. A interpretação é de Julie Amaral.

Carnaval é a festa mais popular do Brasil

Raphael Vidigal

Fotos: Arquivo e Divulgação.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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