Crítica: Espetáculo de dança “Terreiro” conta histórias de Minas à sua maneira

“Primeiro vêm as flores brancas perfumadas, do rés do chão até a ponta dos galhos. Depois vêm as abelhas. Finalmente estufam-se do tronco, dos galhos, as frutas negras, túrgidas de um leite doce que explode com um estalo dentro da boca quando mordidas. Depois da chuva as jabuticabeiras de bolinhas pretas faíscam ao sol. Jabuticaba é Minas Gerais…” Rubem Alves

Companhia Primeiro Ato lança o espetáculo Terreiro

Com 35 anos de estrada o grupo mineiro de dança “Primeiro Ato” preza pela diversidade em sua composição, valor que contamina toda a concepção do espetáculo “Terreiro”. Se o ponto de partida tem a intenção de explorar e revelar as manifestações populares, e o histórico cultural das Minas Gerais, a montagem não se prende a esse matiz somente, ao contrário. Com uma narrativa que dispensa a descrição, a linguagem metonímica enriquece o desempenho de bailarinos e bailarinas em cena. Os momentos se sucedem e passam pela tensão, o agito, a dolência, a sutileza e até a lascívia. Nem sempre a transição de um estado a outro ocorre de maneira fluida, e a própria direção alterna fases em que é muito bem conduzida com outras em que se perde, provocando alguma confusão na plateia. A tentativa de abarcar um número elevado de assuntos e perspectivas confere certa irregularidade à peça, cujo impacto poderia ser maior caso o cenário fosse menos descarnado.

Com os limites temporais cada vez mais distendidos abre-se a possibilidade de flutuação entre diversas camadas emotivas e, por que não, de ímpeto social até. Os figurinos são muito bem trabalhados, e captam com fulgor tonalidades que desfilam tranquilamente entre a tradição e o contemporâneo, inclusive sendo auxiliados em cenas importantes pela presença da luz, que infere ações inspiradas com outras de menor vulto. Se à medida que o espetáculo passa sua mensagem se turva, é com clareza que o canto e as intervenções sonoras lembram-nos da sua essência: muito mais do que representar ou descrever, a dança está aqui oferecida, principalmente, para expressar – um sentimento, uma dor, uma paz – o que alcança em seus melhores instantes. Quando os dançarinos e as dançarinas experimentam o sabor da unidade e inexistem acontecimentos dispersivos no palco, prova-se a força da diversidade da companhia; força essa capaz de tocar esteticamente a mentes e aos corações.

Ficha técnica
Direção coreográfica de Suely Machado.
Coreografia de João Paulo Gross.
Convidados: Titane, João Paulo Gross e Ruan Lopes.
Com os intérpretes criadores: Alex Dias, Ana Virgínia Guimarães, Carlos Antônio, Danny Maia, Lucas Resende, Marcella Gozzi, Marcela Rosa, Pablo Ramon, Suely Machado e Vanessa Liga.
Figurino: Pablo Ramon/Produção: Regina Moura/Assistente de produção: Eliana Capovilla.

Terreiro é novo espetáculo de dança da companhia Primeiro Ato

Raphael Vidigal

Fotos: Chris Birchal.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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