Crítica: “Migrações de Tennessee” tenta apreender universo do dramaturgo

“Não quero realismo. Quero mágica. Sim, mágica. Tento dar isso às pessoas. Sei que deturpo as coisas! Digo o que deveria ser verdade. Se isso é pecado, castigue-me!” Tennessee Williams

Migrações de Tennessee recria histórias do dramaturgo

Decidir levar ao teatro a vida de um dos mestres no ofício não é tarefa fácil, e requer coragem. “Migrações de Tennessee” procura apreender com reverência o universo do autor de “Um Bonde Chamado Desejo”, “Gata em Teto de Zinco Quente”, “De repente, no último verão” e outros clássicos, ao oferecer em pílulas alguns episódios e personagens que teriam servido de inspiração para o dramaturgo. Um dos inúmeros méritos da obra de Tennessee Williams foi o de infundir a tramas novelescas aspectos que inspecionavam prodigiosamente a alma humana, salpicando de poesia situações sórdidas e trágicas, sem que a fluência fosse prejudicada, justamente do que se ressente a atual montagem. Ao optar por uma dramaturgia de forte teor descritivo, com recorrente utilização do texto na substituição de ações, nem sempre a transição de uma situação a outra alcança a coesão necessária, travando a peça em ocasiões importantes. A música, ao contrário, sempre presente nos textos do homenageado, é quem consegue em alguns instantes amarrar esse laço. E configura, aqui, um acerto. Outra solução que surte efeito, e que está, por sinal, agregada à trilha, é a de recriar o som de objetos no palco, garantindo calor às cenas e preenchendo a atmosfera com uma certa aura dos anos em que o rádio teve o seu esplendor.

Há um bom trabalho na direção dos atores, que se revezam no palco entre funções e personagens com domínio e desenvoltura. O protagonista mimetiza com precisão a persona pública de Tennessee Williams, porém o espetáculo sempre o capta com a feição que escolheu mostrar frente às câmeras, evadindo-se de investigar suas outras camadas; estas aparecem, como bem o quis durante a vida, somente entre as personagens. O cenário funciona mais do que os outros fatores técnicos que, discretos, pouco interferem na história, enquanto em seu desmonte e remodelamento ele deixa sempre algo a dizer quanto às tensões, sentimentos e emoções instaladas. Escolhas cênicas correspondem em relação ao experimentalismo estético e inferem certa contemporaneidade à atração, mas não ultrapassam esse ponto para conseguir se tornar, de fato, decisivas à trama. Os momentos de beleza e arrebatamento são reservados, principalmente, para quando a dança substitui a palavra, pois é aí que a história para de ser narrada e acontece a olhos vivos. A despeito do fluxo migratório o teatro refere-se à paisagem que permanece em nós, a da nossa alma, criada sob a influência do mundo exterior, mas não servente a ele. É quando se dá o nosso encontro com ele, Tennessee Williams.

Ficha técnica
Dramaturgia, direção e trilha sonora de Eid Ribeiro.
Com Camila Morena, Cristiano Peixoto, Fábio Furtado e Juliana Martins.
Assessoria de movimento: Lydia Del Picchia/Figurino: Wanda Sgarbi/Cenografia: Morgana Mafra/Colaboração dramatúrgica: Sara Pinheiro/Consultoria de cenografia: Ed Andrade/Assistente de cenografia: Laís Grossi/Iluminação: Felipe Cosse e Juliano Coelho/Edição de trilha: Raphael Martins/Operação de som: Militani de Souza/Cenotecnia: Morgana Mafra e Marco Antônio dos Santos/Assessoria de imprensa: Adilson Marcelino

Tennessee Williams foi um dos grandes dramaturgos da história

Raphael Vidigal

Fotos: Guto Muniz.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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