Entrevista: Fátima Guedes caminha sensual entre música e poesia

“Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.” Carlos Drummond de Andrade

Fatima-Guedes

O escritor colombiano Gabriel García Márquez afirma que todo autor passa a vida burilando o mesmo livro, e no caso dele seria o da “solidão”. Maria de Fátima Guedes, conhecida nacionalmente a partir do segundo nome como cantora, compositora e instrumentista nascida e moradora do Rio de Janeiro, afiança: “Toda a síntese da minha obra está na canção ‘Condenados’”.

De versos como “ah, meu amor, estamos condenados/nós já podemos dizer que somos um/e nessa fase do amor em que se é um/é que perdemos a metade cada um”, a música foi lançada no segundo álbum da artista, em 1980, intitulado apenas com o seu nome. Dona de discografia com onze títulos, fora coletâneas e participações, Fátima prepara novidades para 2014, inclusive uma volta a Belo Horizonte.

SURPRESAS
Com mais de 50 músicas novas – algumas apresentadas em shows, mas sem registro em disco – a autora de clássicos da canção popular brasileira como “Arco Íris”, “Cheiro de Mato”, “Lápis de cor”, “Mais uma boca” e várias outras, se coloca à disposição. “Como artista estou pronta, tendo oportunidade eu gravo. Na verdade isso não depende mais tanto de nós, e nem me aborrece. Gosto muito do trabalho de palco, e este não falta”, anima-se.

Dessa nova fornada de Fátima algumas intérpretes já tomaram parte, a exemplo de Simone e Leila Pinheiro. A primeira lança “Haicai”, no álbum comemorativo aos seus 40 anos de carreira “É Melhor Ser”, enquanto a segunda se apresenta com Jaime Alem a bordo de repertório que mescla sucessos a surpresas de Guedes. Em tom de mistério Fátima confidencia retorno à capital mineira em 2014, sem mais revelar do projeto.

POESIA
No momento a rotina de Fátima Guedes é onde ela mais gosta de estar. Além de “Transparente” – espetáculo revisionista sobre a carreira – percorre desde 2005 cenários da capital carioca e de outros estados do Brasil (esteve em cartaz no Teatro Alterosa) com “Tanto Que Aprendi De Amor”, a partir de poemas de Manuel Bandeira enovelados a criações autorais, todas sob o viés da paixão. “Meus roteiros sempre querem dizer algo, o contexto é fundamental”, pontua.

A união entre música e poesia não é novidade na trajetória da artista. Cecília Meireles recebeu 13 melodias providenciadas por Fátima para o projeto “Cânticos”, um trabalho feito com o apoio da prefeitura de Belo Horizonte que resultou no CD e em shows de Thelmo Lins e Wagner Cossi, lançado em 2006. O maior desafio foi “desembaraçar os sons escondidos naquelas poesias sem rima, mas tudo é de uma delicadeza, que você nem sente falta”, orgulha-se.

SENSUAL
Ainda na seara da literatura, sem fugir do “amor à palavra”, mas migrando para a prosa, Fátima destrincha os detalhes da importante incursão aos textos do escritor irlandês Oscar Wilde. “Como leitora me considero uma amante dele, não apenas da prosa, mas da dramaturgia”, diverte-se. O exemplo mais claro é a canção “O Rouxinol e a Rosa”, presente no álbum de 1988, “Coração de Louca”. “Inspirei-me na idéia do conto dele, e criei letra e música”, destaca.

“Leitora devota de Carlos Drummond de Andrade”, a compositora hesitou em lançar sobre o mestre as felinas garras. “Achei que não deveria mexer, foi uma ousadia tanto da minha parte quanto dele, que neste poema atiça um lado sensual, como um mantra”. Extraído do livro “O Amor Natural”, recebeu melodia em 2008 e já foi apresentado em shows na companhia de Renato Braz. Trata-se de “O Chão É Cama”, dos versos “O chão é cama para o amor urgente,/amor que não espera ir para a cama./Sobre tapete ou duro piso, a gente/compõe de corpo e corpo a úmida trama.”.

INFLUÊNCIAS
Na cabeceira de Fátima Guedes descansaram recentemente as poesias de Paulo Leminski e “A Cama Na Varanda”, de Regina Navarro Lins, últimos livros lidos. “A literatura é parte do meu pensamento musical. Sou muito exigente quanto a letras e forma, bastante caprichosa”, considera. No trato com as letras ela espelha-se principalmente em Chico Buarque e Dolores Duran. “Na música popular toda poesia tem um ritmo, ainda que não haja a rima”.

“Apaixonada também por música erudita”, dedica todos os louros da glória, e mais alguns, para o americano Bobby McFerrin, hábil na execução de peças do jazz e música clássica, segundo a cantora “ele em si é um instrumento, chego a considerar absurdo o que é capaz de fazer, não perco um show!”, derrete-se. Completando as influências indica a cantora portuguesa Dulce Pontes, e a tal “Pimentinha”, conhecida também como Elis Regina.

FURACÃO
Foi Elis quem primeiro apresentou Fátima Guedes na televisão, num especial do final de ano de 1978, e conseqüentemente ao grande público brasileiro. Conhecida também pelo apelido de “Furacão”, em virtude do temperamento explosivo, é a responsável por fenômeno semelhante na carreira da entrevistada. “O apoio da Elis foi crucial. Nós nos conhecemos através de um amigo em comum, o (produtor e diretor musical) Paulinho Albuquerque”.

Não é a toa que Fátima considera Elis sua estrela-guia no ofício de cantar. “Tecnicamente e cenicamente é imbatível, uma professora”. Se não bastasse sublinha a “presença teatral, muito encantadora e tinha uma força que emanava, algo de indescritível”, sugere emocionada. Na presença do ídolo a compositora admite que “ficava super quietinha, só babando, eu a respeitava muito, mais ainda por ser uma pessoa temperamental”, brinca.

POLIAMORISTA
Gravada por Nana Caymmi, Ney Matogrosso, Maria Bethânia, Jane Duboc, Alcione, Alaíde Costa, Zizi Possi, Mônica Salmaso, parceira de Djavan, Ivan Lins, Sueli Costa, Joyce e Adriana Calcanhotto, para citar alguns, Fátima ratifica o seu discurso “poliamorista (entre as definições está a descrença na monogamia e a convivência com desejos de modo a não reprimi-los), assim como um olhar moderno para as questões atuais”.

Reconhecida por inserir o sexo na música brasileira sem cair na vulgaridade ou soar agressiva (são dela os versos “Por você eu raspo pernas, raspo braços/Passo perfume de alfazema, batom suave/Oferenda dos meus lábios/ (…) No poema eu ando nua/Toda rósea, toda etérea, toda sua.”) a compositora aposta na prevalência da “sensibilidade feminina, sendo mais firme e ao mesmo tempo doce, organizada e bem colocada nas últimas décadas”, e completa: “Tudo é o jeito de falar, a embocadura, as palavras certas. Sendo assim você pode ter até a boa pornografia”.

CENÁRIO ATUAL
Envaidecida com os elogios que partem de Leny Andrade, outra a gravá-la, sobre quem diz: “uma cantora maravilhosa, além de pessoa super generosa”, e chegam até Marcos Sacramento, que considera um dos “maiores talentos dos últimos tempos surgido no Brasil” a cantora acentua a “adrenalina de estar no palco, é viciante”, e a “emoção diferente quando outra pessoa canta uma composição nossa”.

Secretária de Cultura em Teresópolis, no estado do Rio de Janeiro, de 2005 a 2006, seleciona pontos que considera importantes em relação ao cenário atual da música brasileira. “O ponto positivo é que estamos em grande número, e vários lugares alternativos se abrem nas cidades, como clubes, parques, e até as ruas. Talento não falta, temos uma geração criativa, mas a organização ainda é precária”, salienta.

BOSSA NOVA  
Por outro lado a cantora se mostra temerosa com “o fato das pessoas estarem confundindo música popular brasileira com mero entretenimento”, adverte. “Morei um tempo no interior, na serra, e na minha volta à capital organizei um show para mostrar o quanto estava perplexa com algumas coisas, juntei músicas minhas com outras de Chico Buarque, Ivan Lins, Guinga, Gabriel O Pensador e Lenine”, enumera.

Com último álbum lançado em 2006, “Outros Tons”, somente com canções pouca conhecidas de Tom Jobim, Fátima aproveita para dar um pitaco sobre os novos rumos do movimento a ampliar o alcance das criações do maestro. “A bossa nova ainda repercute, mas como ‘nova’ não existe mais e nem haverá outra”, e estende-se sobre as contribuições do estilo: “Além de divulgar o Brasil para o mundo trouxe uma simplificação do ritmo e sofisticou a harmonia”.

ARTE
Independente de rótulos, carimbos ou interferência dos meios de comunicação de massa, a artista não titubeia quando o caminho é apontar o papel da arte. “Levar o pensamento de amor aos outros para que as mentalidades desabrochem em busca de uma felicidade maior, nisso tanto eu quanto o meu colega da rua que passa o chapéu depois de uns malabares para ganhar uns trocados somos iguais”.

DISCOGRAFIA
1979 – Fátima Guedes
1980 – Fátima Guedes
1981 – Lápis de Cor
1983 – Muito Prazer
1985 – Sétima Arte
1988 – Coração de Louca
1993 – Pra Bom Entendedor
1995 – Grande Tempo
1999 – Muito Intensa
2001 – Luzes da mesma luz (com Eduardo Gudin)
2006 – Outros Tons

Fatima-Guedes-Entrevista

Raphael Vidigal

Crédito das fotos: Divulgação e Leo Ladeira, respectivamente.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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