Literatura: Carlos Drummond de Andrade

“se o poeta é um ressentido, e o mais são nuvens?” Carlos Drummond de Andrade

Literatura brasileira

Uma rosa aberta em plena guerra. Feia, no entanto ainda flor. No meio do caminho uma pedra. E o claro enigma no qual investiu-se o poeta. Mineiro de Itabira, Carlos Drummond de Andrade é comemorado hoje, data de seu aniversário, com exibição de filmes a partir das 18h na Livraria Mineiriana e sarau com a presença de escritores convidados a partir das 19h, com curadoria da poeta Thais Guimarães.

O evento criado no ano passado, com o nome de “Dia D”, pretende propagar os lírios e versos do poeta. Na parte da manhã, às 9h, a festa será no Museu das Minas e do Metal, onde também haverá exibição de filmes e leitura de poesias daquele considerado por especialistas “o maior de todos os poetas brasileiros”, dando continuidade ao festejo já iniciado no final de semana, com espetáculo teatral apresentado no Centro Cultural JK.

LIBERTADOR
O escritor e professor de literatura Mário Alex, responsável pela programação do SESC, define a importância do homenageado: “É o poeta mais completo e libertador da nossa literatura. Ao contrário do João Cabral de Melo Neto, dono de uma obra excepcional, mas fechada, Drummond nos permitiu a poesia livre, ao versar sobre memória, guerra, cidade, erotismo, amor”, e completa a respeito da última temática: “As pessoas em geral tem a impressão que o poeta a mais escrever sobre amor é o Vinicius de Moraes, talvez pela incursão no mundo musical, que espalha com facilidade essas informações, mas se pegarmos a obra do Carlos vamos perceber que ninguém escreveu tanto sobre as relações afetuosas como ele”, afirma.

POPULAR
“Além de tudo, Drummond é essencialmente popular, dono de versos conhecidos por qualquer criança, enquanto o João Cabral de Melo Neto, sem nenhum demérito, é hermético”, afere. E aliança este argumento à recepção às festividades propostas: “O público já abraçou, todos estão entusiasmados e esperando um número considerável de pessoas interessadas em apreciar este belíssimo trabalho”, confirma.

Mário Alex faz questão de ressaltar não só a diversidade de assuntos abordados pelo escritor, como também o amplo cartaz literário espalhado por ele em vida: “Não bastasse a amplitude de sua poesia, Drummond transitou com desenvoltura pelos campos da prosa, destacando-se como cronista e no conto”, declara-se.

ALÉM DE DRUMMOND, CLARICE LISPECTOR
Beatriz Moon, designer e produtora cultural responsável pela programação do evento na livraria Mineiriana tece elogios aos convidados da récita: “Escolhemos um timaço de escritores que conviveram com Drummond, principalmente no final da vida, como o Carlos Herculano Lopes, que deverá ler ‘O Caso do Vestido’, Ricardo Aleixo, Antônio Barreto, e muitos outros”, afirma.

Sobre a perspectiva da continuidade do ‘Dia D’, Beatriz garante almejar voos altos: “Sem dúvida, veio para ficar, o público comprou a causa de forma espontânea, e, além disso, já temos confirmado para dezembro uma homenagem à Clarice Lispector, com a participação do performer e poeta Marcelo Kraiser, apresentando o vídeo ‘Para teus olhos’”, adianta.

Adentrando especificamente a obra de Drummond, Beatriz atesta o rigor estético do poeta: “Há um peso de imagem permanente nas palavras utilizadas. Em razão desta visualidade é que os poemas repercutem nas artes plásticas e no cinema”, diz.

INFLUÊNCIAS
A influência na obra de escritores é também apontada por Mário como referência: “O próprio Ferreira Gullar disse em entrevista que compreendeu o ofício lendo Drummond”, e estende o convite para que iniciativas como esta se espalhem por outras cabeças pensantes: “Autores como Cecília Meireles, Manuel Bandeira, Graciliano Ramos, Affonso Ávila, Ana Cristina Cesar, Cacaso, Mário de Andrade, tem tudo para ser lembrados em movimentos similares” e afirma a pouca tradição brasileira nesses caminhos: “Infelizmente no nosso país isso ocorre de maneira muito restrita, não é como na Europa, onde a adoração aos escritores é comum” ratifica.

Em relação ao verso preferido da obra de Drummond de Andrade, Mário hesita, para então decidir-se: “Fico com este que me veio agora à cabeça, do poema ‘Memória’, que diz ‘mas as coisas findas, muito mais que lindas, estas ficarão’, exatamente como Drummond”, conclui.

Versos do poeta Drummond:

“mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.”

“Vontade de cantar. Mas tão absoluta
que me calo, repleto.”

“livre, sem correntes
muito livre, infinitamente
livre livre livre que nem uma besta
que nem uma coisa.”

“Se meu verso não deu certo, foi seu ouvido que entortou.
Eu não disse ao senhor que não sou senão poeta?”

“e um sol imenso que lambuza de ouro
o pó das feridas e o pó das muletas.”

“Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.”

“Só não roeu o imortal soluço de vida que rebentava
que rebentava daquelas páginas.”

“poetas jamais acadêmicos, último ouro do Brasil.”

“A soma da vida é nula.
Mas a vida tem tal poder:
na escuridão absoluta,
como líquido, circula.”

“Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.”

“E faço este verso perverso,
inútil, capenga e lúbrico.
É possível que neste momento
ela se ria de mim
aqui, ali ou em Peiping.

Ora viva o amendoim.”

“na garra de um anzol ia subindo,
adunca pescaria, mal difuso,
problema de existir, amor sem uso.”

Drummond no meio do caminho uma pedra

Raphael Vidigal

Publicado no jornal “Hoje em Dia” em 31/10/2012.

Compartilhe

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on linkedin
LinkedIn
Share on email
Email

Comentários pelo Facebook

10 Comentários

  • Um Brinde!
    Um Brinde ao Dia D.”Se o poeta é 1 ressentido, e o + são nuvens”?

    Resposta
  • Nada como uma boa pausa, ao lado de um ventilador fiel, para ler e me deliciar com a sua contribuição ao grande poeta. Salve Drummond, Salve e obrigado Raphael!!!

    Resposta
  • “Palavras, palavras, se me desafias, aceito o combate. ” Carlos Drumond de Andrade.

    Resposta
  • Essa foto me lembra que, certa vez, o Tom Jobim foi ao encontro de amigos no Plataforma, e lá chegou com um copo de uísque na cabeça. Intrigada, a “galera” logo perguntou: o que é isso, Tom? Sempre brincalhão, o Mestre respondeu: é que o médico recomendou que eu suspendesse a bebida… Como Drummond e Tom eram grandes amigos…

    Resposta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recebas as notícias da Esquina Musical direto no e-mail.

Preencha seu e-mail:

Publicidade

Quem sou eu


Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

Categorias

Já Curtiu ?

Amor de morte entre duas vidas

Publicidade