Rainha do Forró, Anastácia chega aos 80 com disco e ‘mais alegre que pinto no lixo’

*por Raphael Vidigal

“Mas de lá de dentro do fundo da treva do chão da cova
Eu ouvia a vozinha da Virgem Maria
Dizer que fazia sol lá fora
Dizer insistentemente
Que fazia sol lá fora” Manuel Bandeira

Mesmo na mais temível das situações, Anastácia, 80, não perde o bom humor. “Não me escondi embaixo da cama porque não dava para entrar, a minha é box”, brinca, ao ser questionada sobre como tem encarado a pandemia do novo coronavírus. “Fiquei assustada, ouvi um zum-zum que os velhinhos é que estavam na boca para morrer. Falei: ‘pronto, vou fazer 80 anos, misericórdia!’”.

A cantora recifense, nascida Lucinete Ferreira, e que adotou o nome artístico pelo qual é conhecida até hoje há mais de seis décadas, sopra velhinhas neste sábado (30), mas, diante do atual cenário, não fará festa. “Nesse tempo todo eu me preservei, fui quatro só vezes só na rua e por necessidade. Não estou recebendo ninguém, tem parentes que não vejo há 60 dias, só por telefone”, conta. “Ainda estamos muito assustados e confusos”.

Esperança. A doença que já matou mais de 25 mil brasileiros foi definida pelo presidente Jair Bolsonaro como “gripezinha”. Indagado a respeito dos números alarmantes, ele tripudiou: “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Sou Messias, mas não faço milagre”, disse, na ocasião. “Sou de rezar muito, estou sempre fazendo minhas orações e pedindo a Deus para que as pessoas que estão nos representando no governo se conscientizem de que estamos todos de passagem”, pondera Anastácia.

“Estamos sujeitos a erros e acertos. Não viemos aqui para ficar e ninguém é dono do mundo, a não ser Deus. Se alguém está num cargo posto pelo povo, deve procurar dar o melhor de si e fazer o bem à humanidade e às pessoas que depositaram sua confiança. Rezo para essa confusão acabar logo. Tenho pavor de briga. Espero que tudo termine em paz”, completa.

Celebração. Para celebrar os 80 anos, Anastácia entrega o presente ao público com o que sabe fazer de melhor: música. Autora de quase mil composições, boa parte delas ao lado de Dominguinhos (1942-2013), com quem foi casada por mais de uma década, ela tem no rol de sucessos “Eu Só Quero um Xodó”, “Tenho Sede”, “Tá Querendo Cafuné”, “Contrato de Separação”, entre outras, e foi gravada por nomes como Gilberto Gil, Gal Costa, Nana Caymmi, Angela Maria e Noite Ilustrada.

Em “Anastácia 80: Lado A”, que chega nesta sexta (29) às plataformas digitais, a pernambucana privilegia essa reconhecida veia autoral, com cinco canções inéditas e diversas participações. A segunda parte do projeto, com mais cinco novidades, acabou sendo adiada por conta da pandemia. A produção ficou a cargo de Zeca Baleiro, que cantou com a anfitriã no álbum “Daquele Jeito!” (2017), indicado ao Grammy Latino na categoria música de raízes em língua portuguesa. “Eu nem estava pensando em disco, mas como 80 é uma marca muito forte, minha produtora me convenceu de que eu não poderia deixar passar em branco”, confessa.

Participações. Nessa primeira fase, Jorge de Altinho e Hermeto Pascoal comparecem em “A Saudade me Trouxe Pelo Braço”, Roberta Miranda divide os vocais com a entrevistada em “Contando as Estrelas”, assim como Amelinha em “O Sertão Está Chorando” e Chico César na faixa “Venha Logo”. “Venceu a Solidão” traz dueto com Mariana Aydar e Mestrinho na sanfona. No “Lado B”, Anastácia promete soltar a voz com Alceu Valença, Lenine, Geraldo Azevedo, Almério e Flávio José. Em comum, o fato de todos os convidados serem nordestinos.

“Não foi por acaso, eu quis juntar pessoas identificadas com a minha trajetória. É um disco muito diversificado, em que me dei ao desfrute de mostrar a minha faceta de compositora de forró, xote e arrasta-pé. Modéstia à parte, o Nordeste é cenário de grandes artistas que enfeitaram e ainda enfeitam os palcos do Brasil”, orgulha-se. Preferencialmente letrista, Anastácia assina duas faixas com Liane e outras duas com Zeca Baleiro. Já “Venceu a Solidão” é uma parceria com Dominguinhos, que não teve tempo de ver a composição finalizada. Ele morreu em 2013, após travar uma luta de seis anos contra um câncer de pulmão.

Casamento. A melodia permaneceu “na cabeça” de Anastácia durante tempos, “por ser muito bonita”, diz ela. “Comecei a letra e larguei pra lá por uns oito anos. Quando ele ficou meio doentinho, me deu vontade de terminar, porque o Dominguinhos estava passando por um momento de grande tristeza na vida dele”, recorda. “Já não consigo mais me encontrar/ Findou-se a calma, vou desesperar/ A solidão bateu mais uma vez/ E fez de mim seu lar/ Eu vou sair no mundo a gritar/ Quem quer amor/ Eu tenho amor pra dar/ Se por acaso alguém eu encontrar/ Eu vou, sim, amar”, definem os versos da canção.

“Mestrinho é um discípulo do Dominguinhos, chamei ele para tocar e deu certo, a música ficou muito ‘domingueira’”, comemora a artista. “O Dominguinhos tocava o tempo todo. A gente viajava muito por esses sertões afora, ele dirigindo e eu do lado com gravador, caneta e caderno para, sempre que pintasse alguma coisa, eu estar apta a fazer a letra”, revela. Após a separação, os dois ficaram 20 anos sem se falar. Juntos, Dominguinhos e Anastácia deram à luz mais de 250 composições. “Dominguinhos é um dos maiores artistas que o Brasil já conheceu, e tive o privilégio de ser companheira dele. Parcerias são feitas para isso, mesmo que um não esteja, o outro dá continuidade”, assevera.

História. Ao ouvir o seu nome na boca de uma pessoa que passava do outro lado da rua, enquanto esperava o bonde, Anastácia exclamou: “Sou conhecida até aqui!”. Parada na avenida São João, ela tinha acabado de chegar a São Paulo. O primeiro dia na metrópole reservaria surpresas. Acontece que o rapaz que a chamara era um cantor de sua terra, que atendia pela alcunha de Nelson Roberto. “Ele tinha sumido do Recife e eu nem percebi, porque era um cantor de pouca participação. O destino conspirou a meu favor, porque ele tinha que passar por ali e me ver no meio da multidão esperando o bonde. Não pode ser coincidência, é uma coisa de Deus”, garante a intérprete.

O contato a levou a se apresentar com a dupla Venâncio e Corumbá, ambos pernambucanos, e, em seguida, até a gravadora Chantecler, onde realizou um teste e foi aprovada para gravar o seu LP de estreia, em 1961. “Vim para São Paulo com o intuito de ter outra profissão, não me considerava capacitada para seguir uma carreira artística. Eu já fazia sucesso na minha terra, era muito novinha e serelepe, mas achava que era porque a gente morava ali, as pessoas me conheciam e vinham assistir, não pensava que era possível dar continuidade no Sudeste”, admite.

Realeza. A cantora tornou-se um estouro das festas de São João. “As pessoas voltavam com o disco debaixo do braço”, relembra. No entanto, uma situação inusitada se repetia. Ao realizar shows, ela costumava ouvir a pergunta: “Como te apresento? Anastácia de quê?”. “Só Anastácia”, respondia. Foi aí que ela ganhou um epíteto: Anastácia, a Rainha do Forró. “Só tinha eu de mulher cantando forró em São Paulo. A Marinês, que era pioneira, morava no Rio e vinha uma vez ou outra. Tinham alguns trios, mas, mulher, eu era a única. Quando menos esperei, o público me deu esse título, como deu para o (Luiz) Gonzaga de Rei do Baião”, aponta.

“Nunca me considerei rainha de nada, sou uma batalhadora, apaixonada pela música regional nordestina, disposta a mostrar que ela nunca foi uma musiquinha de pé de serra, é universal”, exalta. Decorridas seis décadas desde que se habituou a pisar no palco, Anastácia assegura que “o que nunca mudou e nem vai mudar é a minha persistência e alegria”. “Sou geminiana, tive raros momentos de tristeza. Estou sempre disposta a me divertir e ser mais alegre que pinto no lixo”, gargalha.

“Isso me ajudou bastante, nunca tive um momento de terror que me fizesse pensar em desistir. Mesmo diante das barreiras mais difíceis, eu arrumava um jeito de cortar caminho, sair pela tangente e recomeçar”. Para tanto, ela observa que contribuiu o fato de ter sempre “cuidado bem da saúde”. “Sou privilegiada, nunca fui chegada em doença. Bebida, eu tomo uma vez ou outra, não fumo e sou vegetariana há 60 anos. O tempo de vida é Deus quem dá, e parece que ele está querendo que eu viva bastante. Ainda vou ‘forrozear’ demais por essa vida afora”, festeja.

Fotos: Luciana Leall/Divulgação.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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