Dominguinhos, o relâmpago de Garanhuns

“A pressão de seus dedos parecia aumentar na flor o que ela de mais brilhante continha; realçá-lo; torná-lo mais fresco, franzido, imaculado.” Virginia Woolf

Dominguinhos

O primeiro dia de trabalho. Plural e diminutivo. Nome de batismo, a preceder o companheiro de Maria – José – mas que passara despercebido. Preferira, até aquele momento, o apelido. Até que houve o encontro. Não descansara no sétimo, nem no seguinte, ou nos de antigamente, desde miúdo acostumado a encarar o batente, o sol quente, chapéu coco circulando à espera das mãos, abertas e suadas, da caridosa gente.

Nas feiras de Garanhuns, Caruaru, interiores de Pernambuco, cidade natal e os municípios ao redor. Conterrâneo ilustre o viu pequeno, jamais teria crescido, talvez por isso agarrara-se ao modo como o conheciam. Mas Luiz Gonzaga logo o convenceu a abandonar o Neném para atender a partir dali e todo o sempre: Dominguinhos, herdeiro artístico, sanfona nos dedos, coração e astúcia de forrozeiro nato, atrevido, incansável.

À porta do sertão, declinou o convite. A brasa persistia, formigava, zumbia e volteava, ziguezagueava insistente qual abelha no mel, iridescente como vaga-lume no pântano do breu, irritante quanto mosca escapando de tapa, afinal escalou um pau de arara, acompanhado dos seus e dos nossos, em vistas ao sonho dourado, o mar estendido à frente, areia brilhava igual ferida de chifre de bode, e das brabas, Rio de Janeiro, apresentava-se.

Mais de três noites, dias inteiros em boates, nas casas de espetáculos, palcos cada vez maiores, e o nanico garoto um permanente relâmpago: forte, luzidio, sonoro, encantador. Domingos Ambrósio, mestre do Rei do Baião, inspirador da alcunha a espalhar-se Brasil afora certamente orgulhava-se dos filhos pródigos a entoar a cor do povaréu, as cantigas da gente humilde, arruaça nobre dos excluídos, festança de manhã à noite, sem hora pra acabar.

Xote, fole, xaxado, chiado, um xodó, dois bocados, valsa, chorinho, bossa nova. A Elba Ramalho, Gilberto Gil, Fagner, Anastácia, Gal Costa, Maria Bethânia, Chico Buarque. Abriu-se o mundo, imenso, farto. Mas não se pode o espinho lúgubre dum cacto. A aparência engana, ouça. Chegue de manso, calmo, talhe com bordejo os passos. Dele dá-lhe a água. Mineral, árdua. O caule espesso, grosso, armazena a chuva, arisca, e rara.

Os olhos puxados, dum incenso oriental. A boca repete o grave do peito, um batido surdo, e delicado. O acanhado de volta pro teu aconchego. O teclado às laterais da caixa de aço, a madeira, a caatinga, o cangaço. A sanfona de Dominguinhos, e os coitados, desvalidos, agradecem: em coro, de pé, às palmas. Obrigado! Por favor, barulho. Liberte a estrela do nordeste, esqueça o medo, solidão, peste. Eu só quero do amor, este trinido de acordeom. Fértil.

Sucessos: – Eu Só Quero Um Xodó (1974) – com Anastácia
– Lamento Sertanejo (1979) – com Gilberto Gil
– De Volta Pro Aconchego (1985) – com Nando Cordel
– Isso Aqui Tá Bom Demais (1985) – com Chico Buarque
– Gostoso Demais (1986) – com Nando Cordel

Dominguinhos-xodo

Raphael Vidigal

Compartilhe

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on linkedin
LinkedIn
Share on email
Email

Comentários pelo Facebook

3 Comentários

  • oi tudo bem? gostei da sua matéria sobre o Dominguinhos…principalmente desta parte: “Os olhos puxados, dum incenso oriental. A boca repete o grave do peito, um batido surdo, e delicado. O acanhado de volta pro teu aconchego. “… vc escreve com o coração Raphael,isso é lhe é muito peculiar…grande abraço.

    Resposta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recebas as notícias da Esquina Musical direto no e-mail.

Preencha seu e-mail:

Publicidade

Quem sou eu


Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

Categorias

Já Curtiu ?

Amor de morte entre duas vidas

Publicidade