Show: Elba Ramalho (canta Luiz Gonzaga)

“A Rosa modesta eriçou um espinho,
A humilde Ovelha um chifre ameaçador;
E o Lírio branco num deleite de Carinho,
Nem espinho ou ameaça, mas a luz e o esplendor.” William Blake

Elba canta Gonzaga

Elba Ramalho adentra a noite com claros olhos da manhã. Toda a beleza que vi não cabe num parágrafo. Tigre alaranjado, de tiras pretas no dorso, desperta rasgando palmeiras verde-escuro. Ruge e urde, pés vermelhos, terra batida, roda a saia amarela, lilás, reclina o colo, solta a voz, brinda e arranha e corta e gira e morde com seu espetáculo.

Elba Ramalho é assim tão sonsa e sina a nossa saboneteira. Não está ali para brincadeira. Está só para brincadeira e improviso e espontânea esbarra nos erros toda vez sem abrutamento ou dedicação ao palco. É pura dedicação ao palco. Por isso desfila como na vida, ensaia mas deixa o momento tomar conta, com sua mania de ser irreverente e estragar os planos dos metódicos.

Elba Ramalho, teu método é puro e regaço, cansaço do sertanejo, nordestino, a carne seca, a terra casta, a aura gasta, a aurora cheia, uma nuvem no céu é alegria, uma lufa de esperança e cantoria. Debaixo do violão, da sanfona, do triângulo, do forró danado, em cima dos astros, venceu o baião seu Lua, Luz de Gonzaga.

Elba Ramalho, ramalhete de folhas ardilosas, bebe o cantil de cana e açúcar, deixa escorrer o fino fio de desejo por entre os seios áureos, a vindoura garganta prestes a explodir o mundo, mas explode antes o corpo laico, repleto de fé e ternura, firme e forte qual a Paraíba, macha no muque e esmera no caule, os pés tremelicam à provocação do xaxado.

Elba Ramalho, antes uma sanfona branca, mil vezes um dia branco, duas moças brandas, a voracidade e vigor, homenagear o povo e o mestre maior: Iara de Andrade e Sarah Assis, índias banhando-se no córrego das almas, imitando pássaros, avistando calmas e calamidades o decorrer das coras corações corolas.

Elba Ramalho, Benito di Paula nos abriu alas, Dominguinhos reforçou saudade, beija-flor beijou e partiu, Zé Ramalhou riscou chão de giz. E você com seu violão, Elba Ramalho, sua força de estrela, Elba Ramalho, brilhando fortuita e firme e frementemente na poça do baião, forró, xaxado, lambe de leve o rosto gordo e risonho de Luiz Gonzaga.

cantora Elba Ramalho

Raphael Vidigal

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14 Comentários

  • Sem comentários para aquele ser humano. A mulher arrasa! Tá pra nascer uma que fará o que ela faz em cima de um palco viu?? Além da voz que dispensa qualquer tipo de comentário, a pessoa possui uma presença de palco e uma simpatia fora do comum…

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  • Vidigal muitas homenagens ao nosso Rei do baião, Elba com sua força suave e firme mas no dia 25/08 fui p/ o Sesi Osasco assistir Maria Alcina na sua singular pluralidade o Rei do baião emitiu outro canto sem seus hinos marcantes e diversidade, pena q não existe esse confronto nossa mídia é direcionada. Salve, Salve, nossas estrelas incandescente.

    Resposta
  • Olá Raphael;

    é sempre bom encontrar pelas esquinas da cibercultura quem gosta, entende e sabe escrever sobre a boa música popular brasileira. Encontrei o seu blog muito por acaso, e não é que o acaso “nos protege” quando andamos em plena distração? Como diz titãs em Epitáfio? Claro não é a melhor fase dos garotos mas essa música é linda! Em fim, Tenho um blog que não é sobre música e sim sobre arquétipos de mitologia. Mas ousei escrever sobre o rei do Baião. É modesto e bebê mas se puder, passa lá. bjs

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  • Elba é simplesmente FANTÁSTICA! Tudo nela parece tão natural, é simples e envolvente, é cativante, tudo de bom! Seu texto ilustra muito bem toda a beleza de Elba. Parabéns!!! Beijos…

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  • Estou de volta pro meu aconchego trazendo na mala bastante saudade…rsrs
    Essa é uma das músicas que mais gosto da Elba!

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  • Maravilhoso!!! O show e o seu texto! “Lambe de leve o rosto gordo e risonho de Luiz Gonzaga” heuehueh Gostei!

    Resposta
  • Eita… mas esse é perfeito demais! Assim como o show! ^^

    “Elba Ramalho, ramalhete de folhas ardilosas, bebe o cantil de cana e açúcar, deixa escorrer o fino fio de desejo por entre os seios áureos, a vindoura garganta prestes a explodir o mundo, mas explode antes o corpo laico, repleto de fé e ternura, firme e forte qual a Paraíba, macha no muque e esmera no caule, os pés tremelicam à provocação do xaxado.”

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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