Miséria Humana à Luz de Sebastião Salgado

“Na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.” Lavoisier

Sebastiao-Salgado

Observei. A miséria humana deve ser mostrada. Ossos, cartilagem, membros, diafragma: estraçalhados. Estilhaços de vida imunda, feia, funda, gasta. Nas costelas à mostra, nos dentes pastosos, no langor dos tornozelos empastados repica a luz. Menina me olha. Menino beija. Mulher implora. Homem ajoelha. Gado apodrece. Feijão se colhe. Corpos amontoados servem-se às vespas, moscas, marimbondos, abelhas. No reino dos mortos arfa a mãe natureza.

A escuridão comum. O forte como um boi zebu. Aguarda a faca, o corte, a ferida. No entanto franzem as correntes de prata, as valiosas armadilhas. O corpo magro não as impediriam. O tornozelo ao chão está restrito. O teu sorriso é um mero veredicto. Os amuletos, vestes, bichos, filhos; foram primeiro; incidem em reza e vício. Mas afinal franzino franze os fios, punhos cerrados, incólumes; martírio. Resiste o bravo, calmo, apolíneo.

Barriga grande, pontuda, verga a coluna. Estreito seio, donde sairá o leite. Sustentada em pernas finas. Desdentados vorazes querendo o bico. Pele negra, pálida, cor do desmaio. O preto no branco falseia. O limpo no sujo. Desce aranha, novela, em casulo; armado à transparência: devorando-me, passo a passo, ossos, cartilagem, membros, diafragma: alimento. Renova-se a esperança. Repica a luz. A miséria humana deve ser mostrada. Creio.

À luz de Sebastião Salgado.

Sebastiao-Salgado-luz

Raphael Vidigal

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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