Carlinhos Vergueiro: ‘Estão acabando com a cultura, o meio ambiente e a educação’

*por Raphael Vidigal

“Assim eu suponho/ A vida o que é:
– Estágio entre um sonho/ E outro sonho qualquer.
E que o pensamento,/ No qual me embaraço,
É um fio de Tempo/ No pano do Espaço.
Da mesma maneira/ Que, o Mundo, acredito
Ser grão de poeira/ Num vão do Infinito.
E todo sentido/ Que há nessa corrente
Está refletido/ Por dentro da gente.” Paulo César Pinheiro

“Quando meu time caiu de divisão/ Cantei meu samba/ Quando minha escola pecou na evolução/ Cantei meu samba/ Quando perdemos a eleição/ Quando enganei meu coração/ Quando errei na decisão/ Cantei meu samba”. Inicialmente solitária, a voz de Carlinhos Vergueiro, 68, dá a partida na introdução de “Cantei Meu Samba”, mas logo é acompanhada por violão, pandeiro, cavaquinho, flauta, tamborim e outros instrumentos de percussão, amplificando o coro da esperança em tempos de desilusão.

Parceria do anfitrião com Cadú Ribeiro e Gregory Andreas, dois nomes da nova geração que ele conheceu nas peladas habituais, a faixa foi a escolhida de “Tô Aí”, o mais novo disco de Vergueiro, para ganhar um videoclipe, e se encaixa como uma luva no conturbado momento político brasileiro. Como um endosso à tese, o compositor paulista pinça mais uma frase da mesma canção: “Mesmo o mais mortal dos temporais traz a bonança”.

Em “A Flor do Meu Lugar”, composta com Douglas Germano, esse discurso é reforçado: “Não, não vão roubar minha liberdade/ Não, não vão calar minha verdade/ Eu sou pau que nasceu torto/ Nem a pau eu endireito/ O meu jeito é muito singular/ Sou muitas nações por dentro/ Com um coração no centro/ Que ódio nenhum vai apagar”, canta o músico, antes de prestar reverência, entre outros, a Darcy Ribeiro (1922-1997), político e antropólogo mineiro perseguido e cassado pela ditadura militar em 1964.

Crise. Vergueiro conta que, antes mesmo da pandemia do novo coronavírus, responsável pela morte de mais de 24 mil brasileiros, ele “já via as pessoas muito tristes, deprimidas, principalmente na minha área”. “Estão acabando com a cultura, o meio ambiente, a educação. É um desmonte que eu nunca imaginei que fosse chegar a esse ponto”, lamenta. “É uma coisa assustadora. Estamos enfrentando uma pandemia e os conselhos que vêm de cima são todos contrários à ciência. Existe um contrassenso porque a economia só vai melhorar se as pessoas cumprirem as recomendações médicas. Se a gente ficar em casa agora, poderemos sair do isolamento mais rapidamente”, completa.

Desde o anúncio da chegada da doença ao país, Jair Bolsonaro perdeu dois ministros da saúde, que deixaram o cargo por desavenças com o presidente na condução do enfrentamento à Covid-19. O mandatário é contra a quarentena e defende o uso da hidroxicloroquina, medicamento sem eficácia comprovada e com riscos de causar parada cardíaca. Atualmente, a pasta da saúde é ocupada por um ministro interino. Apesar disso, Vergueiro repete, com outras palavras, o mantra eternizado por Ivan Lins: “Desesperar jamais”.

“Não podemos deixar a tristeza tomar conta, nem nos deixar anestesiar ou dispersar por esse monte de fake news. Não é possível que depois de lutar tanto para sair de um período tão difícil, a gente veja a volta da censura com normalidade. Está tudo meio escondido, mas é como se a gente tivesse regredido muito para trás. Precisamos ficar espertos, pelo nosso futuro e dos nossos filhos e netos, senão não ganhamos essa batalha. É muita mediocridade, mas não podemos nos deixar levar pela apatia. As pessoas começam a achar que tudo isso que está acontecendo é normal, e não é. Estou aqui, perplexo com tudo, mas sem perder a fé e a ternura”, afiança o compositor.

Inéditas. Para ajudar a superar esse cenário desolador, Vergueiro conta que criou uma rotina de trabalho para si. Desde que regressou a São Paulo em 2017, depois de três décadas morando no Rio de Janeiro, ele colocou na agenda duas atividades que sempre desempenhou com regularidade e que passaram a caminhar, literalmente, juntas: compor e jogar futebol. “Tem gente que não me leva a sério quando eu digo que o futebol e a música são fundamentais na minha vida. E sou precoce, comecei nos dois por volta dos 3, 4 anos”, revela.

Na capital carioca, Vergueiro era ala-esquerda do Politheama, onde atuava ao lado de Chico Buarque, que, como ele, é um dos ilustres torcedores do Fluminense. Ao desembarcar em solo paulista, o entrevistado procurou o compositor Douglas Germano, com quem havia trabalhado nos anos 90, para avisar que precisava “arrumar uma pelada”. Era a senha para o ingresso dele no Madrugada, Futebol e Samba, agremiação que, segundo Vergueiro, “joga até meia-noite para fazer jus ao nome”.

Pelada. “O pessoal me abraçou, recebeu superbem. Por conta disso, comecei a trabalhar com vários parceiros que jogam bola lá e estão nesse disco novo, que tem muito dessa pelada. Essa moçada me deu uma injeção de ânimo para compor músicas novas”, diz ele, que não colocava na praça um álbum de inéditas desde “Vida Sonhada” (2012). Arthur Tirone, Bruno dos Santos, Cadu Ribeiro e Gregory Andreas, os dois últimos do trio Gato com Fome, estão entre os parceiros recentes que o ajudaram a dar à luz “Tô Aí”, “De Mais a Mais”, “Cantei Meu Samba” e “Valsa do Esquecimento”, que versa sobre o Alzheimer, enfermidade que leva à perda gradativa da memória.

“Além do mais, esses garotos também praticam a arte do futebol muito bem, correm para mim em campo e me fazem ter a sensação de ainda estar com 20 anos. Realizei o sonho de jogar e tocar com os filhos e netos dos meus amigos”, diverte-se Vergueiro. O arranjo de “Liberdade” ficou a cargo de Paulo Serau, mais um jovem bamba. A música ainda tem a participação especial da cantora Hilda Maria.

Reencontro. No ano passado, Hilda protagonizou “A Voz do Brasil”, espetáculo dedicado à produção autoral de Vergueiro que, ao longo de uma profícua trajetória, iniciada no mercado fonográfico em 1973, desfrutou do privilégio de compor com praticamente todos os seus ídolos, como ele orgulhosamente afirma, casos de Vinicius de Moraes, João Nogueira, Chico Buarque, Toquinho, Francis Hime, Sueli Costa, Paulo César Pinheiro, e, em especial, Adoniran Barbosa. Alguns deles retornam à baila no lançamento.

J. Petrolino, o “parceiro mais constante e antigo”, comparece com “Liberdade”, que ganhou melodia de Vergueiro. “Nessa pandemia, ele está compondo a todo vapor”, pontua. Com Francis Hime e Eduardo Gudin, ele experimentou algo pouco usual em sua carreira: recebeu músicas para escrever a letra. “Em geral, eu faço junto ou dou a melodia para o parceiro”, conta. Daí surgiram “Meu Delírio”, com o “violão magnífico” de Gudin, e “Por Tudo Que Eu Amo”, com Hime ao piano.

“O Francis tocando é maravilhoso, parece uma orquestra. Simples, mas chique, muito bonito”, enaltece. Amigos há quase 20 anos, da época em que “viviam confinados no bar do Alemão”, Paulo César Pinheiro e Vergueiro assinam “A Cruz e a Estrela”. “Quando nos reencontramos, o Paulo me mandou uma fita com várias inéditas nossas e escolhi essa”, explica o cantor, que compôs sozinho “Linha de Fogo” e “Pra Quem Não Sabe”, exaltação preciosa ao ofício: “Você não sabe o que é fazer um samba/ É quase como receber um santo”.

Memórias. A diversidade de parceiros se reflete nos ritmos, que passeiam pelo samba, valsa, bolero e tango. O leque encontra eco na própria formação de Vergueiro, vindo de uma família de artistas, cujo pai, Carlos Vergueiro, fundou o Teatro Brasileiro de Comédia, foi ator e diretor da rádio Eldorado e tocava piano e violão, a mãe Zilah Maria foi atriz, e o avô era professor de música clássica. “O Brasil é um país riquíssimo ritmicamente, tem forró, frevo, baião, xaxado, bolero, valsa, choro. Com essa quantidade de opções, seria um desperdício não lançar mão delas, ainda que eu tenha uma grande afinidade com o samba”, observa.

Nessa seara, ele aproveita para recordar a “intensa amizade” com Adoniran Barbosa (1910-1982), com quem compôs o clássico samba “Torresmo à Milanesa”, que Vergueiro reputa como “definitivo”. “Eu era fã do Adoniran antes de sermos parceiros. Ainda muito pequeno, eu ouvia no rádio o programa ‘Histórias das Malocas’, do Osvaldo Moles, onde o Adoniran fazia o personagem Charutinho. Eu assisti a muitos shows do Adoniran, ele é meu mestre. Adoniran tinha uma presença cênica e de humor no palco, um espírito de saber lidar com o público, que era impressionante, talvez por ter sido ator antes de cantor. Foi a pessoa mais popular com quem já andei na rua, todo mundo falava com ele. Às vezes eles respondia com uma piada e, em outras, mal humorado. Mas ninguém se importava, era como se fosse um parente, alguém da família”, conclui.

Fotos: Nina Jacobi/Divulgação.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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