Os Últimos Dias De Paganini

“Agora, a furtiva serpente desliza
Na dócil humildade
E o justo enfurece nos desertos
Onde vagam os leões.” William Blake

Paganini

Cansado dos boatos a seu respeito. Acalmar os nervos. Copo d’água com açúcar. Vê-se no espelho com ossos a intimidar a rotina. Frívolo, ferve numa xícara rosa a mistura. Prepara chá de amendoeiras. Sacode as ancas que ainda lhe restam. Pressionadas. Distendidas. Extensas. Recolhe as pernas compridas e largas à cadeira de palha a incinerar cortina defronte lareira aquecida. Febre. Gripe. Simulações esquisitas. Há o que não entendo.

O que sobrar ao manejo serve para cutucar risos, relva, raiva. Austero. Copo se quebra. Despedaça de sua mão fragilizada em ramos circulares. Outrora insano, agora contemplativo. Restabelece memórias no coração enferrujado. Capim, palha. Óleo acende tuas olheiras. Conduz eletricidade.

Dança das fadas agarradas às ombreiras de carolas. Paganini arreganha a boca repelindo dentes qual besouros caem do céu azulado. Troça soluça à míngua expelindo calhas e telhas e caspa. Outorgados cabelos penteiam o vento sórdido. Negros como as caudas de gambá na folhagem fúnebre da infância. Dispensa ensinamentos, multidões, agruras refinadas pelo ouvido do maestro. Há uma revolução formal em curso, sem custo, nem sobra.

Entregue reles aos que o querem bem, mal, no lugar divertido. Censura os medos, fumega sombras espectrais, abraça expectativas longilíneas, assume a raça sorrateira e insurgente a que já lhe é apanhadora. Destruindo, esmagando, demagogicamente o lúgubre ator da cena vaiada, aplaudida. É o rosto fantasmagórico esvaziando, esvaindo em corrente de gelo seco e liquefação. Riscam o quadro branco à sua frente.

Petulância incólume, incorre em sutis inflexões, sóbrias. Eu só não acredito é que o amor é uma louça limpa, branca, irrestrita. Eriçado, sonega a farta e ociosa corda tensionada à sua frente. A Quarta do Violino. Estática boneca sem criança para ninar. Demite a sorte, apega-se à lenda.

No saco de açúcar, cristalizou o rosto jovem. E agora esgota. Desfere de forma abrupta socos e canhões que rechaçam tentativa de intervenção. Afago morno, pardo, pagão. Preconizar exasperante: O sigilo sensual descontente. Depressão. Laços que se ativeram à cintura frígida.

Paganize, sussurram-lhe as fadas. Divinize, abrandam os dragões. Um capuz preto cai-lhe na face, como mote, no guindaste, puxa-lhe os dedos podres até estes ficarem grotescos distantes o suficiente para molestar crianças na porta do circo improvisado.

Pirata duma perna única. Grunhido escapa. Zurro de asno. Louca alegria. E uma transição. E um cromatismo. E um lírico abusivo desliza, Paganini. A travessia. Rumava longe. Nos corredores. Rumava quente. Nos abajures. Rumava. Sempre. A poesia rumava perto dos abutres um rumo incerto sem temperatura pulava ao mar partia ventres e então chorava: vim para dizer o nada vim para te pedir todo vim porque venho e portando, parto. “Mentem demais os cantores!”, saúda Homero.

Extingue condições, alimenta gemidos, soletra magias. Fagotes, fadigas, sobrevivência, insulina. Súbita. Riscos riscados triscados brados no Piano. Sinos. Apitos. Mesmo que não existissem. Movimentos dispersam brasas, acendem cinzas, soçobram a luz Solar. Arranha. Unhas. Madeira. Esperma. Orgasmo. Gozo. Toques incontáveis dos dedos. Multiplicam-se. Olho de vidro. Ímã. Colam-se pregos, metais, trompas, trombones, ávidos por seu Violino. Que inquieto, destro, alarga sua passagem com sobrancelhas arrepiadas. Picadeiro Impertinente Iluminado.

Sua música do povo, ao povo pertence. Distorce valsas, ignora bilhetes às autoridades. Lembra com saudades o quente macio arraigando-se em suas pernas trêmulas porém firmes. Assombrando-se com espasmos de gente fina e sã. A sordidez insolúvel de sua essência mergulhada em ervas fantasias repertório de hienas. Confunde os que aguardam solenidade e sorvetes. Espirra nos ásperos sortidas notas indolentes. Arguta melodias ferozes chagas abertas. Intermináveis: condizentes, contradizendo.

Assovios sorridentes brotam daquele corpo que concerne à lida um pingo de complacência. Ironia do que dominou. O violino o ataca de frente. É a expressão fria de um nariz adunco, unhas que tremem, cordas e cabos de um instrumento. Divino ou demoníaco? Anjo ou Trevo?

Paganini. Só. Em Seus Últimos Momentos.

Paganini-Musica

Raphael Vidigal

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12 Comentários

  • Olá. Raphael!
    Eu sou a Nina fundadora do grupo do Paganini no Brasil.
    Adorei o link, o texto, só posso agradecer.
    Estive em Gênova em fevereiro, vi o Canonne e foi um momento emocionante, só comparado a visita que fiz ao túmulo dele por duas vezes em Parma.
    Seu texto foi preciso e respeitoso com o nosso amado magricela do Passo di Gatta Mora.

    Poucas pessoas falam dele com tanta delicadeza e clareza.
    Muito obrigada
    Abraço
    Nina Toledo

    Resposta
  • Parabéns Raphael Vidigal… belo seu trabalho!!!

    Admiro seu trabalho… sempre compartilharei ok?

    Resposta
  • Maravilhoso e LIndo como a própria divindade do ser…e mais!!!! Parabéns!

    Resposta

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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