Mostra ‘Grandes Mestres da Comédia’ traz filmes de Chaplin e Buster Keaton

*por Raphael Vidigal

“Sou um sujeito cheio de recantos.
Os desvãos me constam.
Tem hora leio avencas.
Tem hora, Proust.
Ouço aves e beethovens.
Gosto de Bola-Sete e Charles Chaplin.
O dia vai morrer aberto em mim.” Manoel de Barros

Nos primórdios do cinema, a engenhosidade calcada na combinação entre imagens em movimento e música criava um efeito mágico sobre os espectadores. Não raro, eles se viam perplexos e absolutamente fascinados diante de uma projeção. Por vezes, o espanto virava susto. É da fase ainda muda da sétima arte que a mostra “Grandes Mestres da Comédia”, realizada pela Fundação Clóvis Salgado, se alimenta.

Filmes da década de 1920 produzidos e protagonizados por Charlie Chaplin (1889-1977), Buster Keaton (1895-1966) e Harold Lloyd (1893-1971) estão disponíveis até esta quinta (21) nas plataformas digitais da instituição, que abriga o Cine Humberto Mauro e o Palácio das Artes. Foi a maneira encontrada de manter a atração de pé durante a pandemia do novo coronavírus que já matou mais de 18 mil brasileiros.

Ao todo, são 11 filmes: quatro de Chaplin; quatro de Keaton; e três de Lloyd. Em comum, a aposta no humor físico, recurso explorado na época com o auxílio das habilidades circenses que os intérpretes carregavam. Há ainda outras intersecções, como, por exemplo, o fato de os três terem construído personagens atrapalhados, que se enroscam em confusões. As diferenças, no entanto, não são menos expressivas.

A ingenuidade é o traço característico do herói que Keaton desenvolve em “Sherlock Jr.” (1924) e, como bom ingênuo, ele se considera esperto. A narrativa alinha duas atividades cercadas pelo mistério. Keaton é um projecionista de cinema que almeja ser detetive. Envolvido em um crime real, ele, literalmente, se lança dentro da telona para desvendar a tramoia. E nos entrega cenas magistrais, em que a fantasia se impõe e o cinema assume o papel de espaço lúdico, onde tudo é possível.

Ao projetar o seu espelho na tela, o personagem apreende a vida de um ângulo mais bonito. Não há como deixar passar a expressão estoica e imutável de Keaton, a despeito de suas estripulias acrobáticas, conferindo um semblante melancólico àquela figura injustiçada e esguia. Se o cinema se enveredou, ao longo dos anos, numa tentativa cada vez menos inventiva de reproduzir a realidade, aqui temos exatamente o contrário. Ele ainda causava espanto pela capacidade de superá-la e nos jogar para além dela.

O alter ego de Lloyd em “O Homem Mosca” (1923) também busca o impossível. No caso, ele se vê, repentinamente, escalando um prédio de vários andares, desafio que deveria estar a cargo de seu melhor amigo que, neste momento, foge loucamente da polícia. Tudo porque Lloyd precisa ganhar dinheiro para merecer o amor de sua futura esposa. Novamente, se os fatos o desmentem, ele os modifica a seu bel prazer. Munido de óculos arredondados e um chapéu de palha, ele se revela tão destrambelhado quanto cativante.

Chaplin, o maior nome do humor que o cinema já produziu, encarna o conhecido vagabundo Carlitos, incrivelmente bem vestido para as funções que exerce: de chapéu-coco, bengala de bambu e um bigodinho tão bem aprumado quanto sua postura, até que algo lhe tire do prumo. Em Chaplin, a crítica social ao capitalismo é ainda mais explícita. “Dia de Pagamento” (1922), por exemplo, nos traz uma sequência exemplar: um elevador simboliza as diferenças provocadas pelo sistema.

Mas, como estamos no domínio da arte, bagunçar essa lógica é a motivação da empreitada, por meio de uma banana que cai do chefe para o empregado. Ao contrário de seus pares, Chaplin é um doce malandro. Para superar as barreiras visíveis da realidade ele, como Keaton e Lloyd, tece com o invisível motivos para destroná-la. E nos faz rir dos poderosos e de nossa própria condição, com doçura.

Fotos: Fundação Clóvis Salgado/Reprodução.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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