Illy lança homenagem ousada a Elis Regina com ‘Te Adorando pelo Avesso’

“Mas o mundo está dormindo
em travesseiros de luar.
A mulher do canto lindo
ajuda o mundo a sonhar,
com o canto que a vai matando,
ai!
E morrerá de cantar.” Cecília Meireles

Illy, 32, ganhou de aniversário o mesmo presente do ex e do atual namorado: um box com a obra de Elis Regina (1945-1982), cantora que ela homenageia no álbum que acaba de lançar, “Te Adorando Pelo Avesso”, o segundo de sua carreira. O “climão” do presente repetido foi desfeito no dia seguinte, quando ela se dirigiu a uma loja de discos para realizar a troca. O jornalista e assessor de imprensa Jorge Velloso, com quem a cantora baiana namora há cerca de oito anos, “ficou brincando que o box trocado deveria ser o do ex”, recorda Illy.

Qual não foi a surpresa de ambos quando eles perceberam que, na verdade, uma caixa continha os discos gravados por Elis nos anos 60, e, a outra, aqueles da década de 70. “Foi tão maravilhoso! Falei para o Jorginho que, em pouco tempo, ele já me conhecia tanto”. A fascinação de Illy por Elis começou na infância. Ela se lembra de escutar a avó, Dilma Maria – primeira atriz-mirim a viver Narizinho no programa “Hora da Criança”, criado em 1943 – cantando “Vida de Bailarina” (1954), samba-canção de Américo Seixas e Chocolate, que Elis gravou a fim de registrar a influência de Angela Maria, intérprete original do sucesso, em sua trajetória. “Elis sempre fez parte do meu repertório, muito antes desse disco, que é uma homenagem dupla: para a Elis e para a minha avó”, assinala.

Vespeiro. “Te Adorando Pelo Avesso” agrega 12 faixas. Illy já havia batido o martelo para seis canções quando chegou o convite do canal Bis, para que ela participasse do especial “Versões”. A cantora não titubeou em levar para o palco da atração músicas de sua “ídola número 1”, como ela se refere a Elis. E garante que o fato de ter selecionado apenas canções do período setentista da Pimentinha, “não foi proposital”, ao menos do ponto de vista de seus relacionamentos amorosos.

“Escolhi o que me dava mais vontade de cantar. Talvez porque, na década de 70, a Elis estivesse mais aberta para novos sonhos musicais, com um repertório mais versátil, que marca muito a minha estética também. Ela se abre para o rock nessa época”, exemplifica Illy. O peso do gênero dá o tom da roupagem nova de “Na Baixa do Sapateiro” (1938), clássico de Ary Barroso que recebeu a voz de Elis em 1979, durante o Festival de Jazz de Montreux, na Suíça. “Foi um trabalho feito com todo cuidado do mundo. Eu sabia que estava mexendo num vespeiro ao revisitar o repertório da maior cantora desse país. Dei uma de ‘mamãe coragem’ e fui”, complementa, com graça.

Repertório. Acompanhada pelo guitarrista Guilherme Lirio e pelo baixista Gabriel Loddo, Illy concebeu arranjos pra lá de originais. “Querelas do Brasil” (Aldir Blanc e Maurício Tapajós) virou samba-reggae. A emblemática “Como Nossos Pais” (Belchior) transformou-se em ska. “Fascinação” (versão de Armando Louzada) acabou envolta em ares de funk melody. “Dois Pra Lá, Dois Pra Cá” (João Bosco e Aldir Blanc), “Trem Azul” (Lô Borges e Ronaldo Bastos), “Ladeira da Preguiça” (Gilberto Gil), “Vou Deitar e Rolar” (Baden Powell e Paulo César Pinheiro), entre outras, foram relidas na mesma frequência de ousadia. Para amenizar o espanto, Illy se valeu de uma estratégia.

“Antes de dar o play, eu queria que a pessoa já entendesse o que vinha pela frente. Desde o título, minha intenção foi deixar claro que eu estava arriscando outro caminho, com a minha maneira de cantar, para fugir a qualquer tipo de comparação”, explica Illy. O projeto gráfico seguiu a mesma direção. A entrevistada tomou como base o LP “Elis”, de 1973, no qual a anfitriã surge iluminada, em um vestido brilhante, e se enfeitou como tal. Mas virou a capa de ponta-cabeça. “É uma imagem bem pop da Elis, ela está toda de paetê”, aponta. “O nome da Elis sequer é citado na capa do disco, a homenagem fica explícita nas demais circunstâncias”, completa.

Participações. O verso que gerou o batismo do álbum aparece em “Atrás da Porta”, angustiante canção de despedida de Chico Buarque e Francis Hime, que, ao ser cantada por Elis, levou a gaúcha literalmente às lágrimas, em registro antológico disponível no YouTube. A música também se faz presente, com o acréscimo da participação especial de Silva. A dupla havia dividido os holofotes no single “Nós Dois Aqui”, lançado em 2019. “Tenho o costume de repetir uma parceria quando sinto que ela deu certo. A gente combina muito em relação à música. Temos o mesmo pensamento, gostos parecidos. Assim como eu, o Silva é um grande apreciador da música popular brasileira”, exalta.

O rapper Baco Exu do Blues, com quem Illy cantou no remix “Devagarinho 2.0” (com Arnaldo Antunes) é o convidado de “Me Deixas Louca”, bolero do mexicano Armando Manzanero, traduzido para o português por Paulo Coelho. “O Baco foi lá em casa num dia em que eu estava estudando as canções do disco, e, na hora que tocou o trecho ‘quando me pedes, por favor/ que nossa lâmpada se apague/ me deixas louca/ quando transmites o calor de tuas mãos/ pro meu corpo que te espera/ me deixas louca’, eu falei: ‘isso é um rap’”, conta. “Essa é uma letra tão visceral, me lembra ‘Te Amo, Disgraça’ (de Baco). Fiquei enlouquecida, e o Baco também estava nessa onda de ouvir as cantoras da Era de Ouro do Rádio. Ficou bacana porque é surpreendente, o Baco cantando Elis, e aí depois ele vem com aquelas divisões todas e joga a canção do avesso. É a nossa música de trabalho”, revela Illy.

Atemporal. Elis Regina não era nem um pouco chegada ao rock, tanto que, em 1967, liderou a malfadada “Marcha Contra a Guitarra Elétrica”, ao lado de nomes como Jair Rodrigues, Edu Lobo e Gilberto Gil. A antipatia pelo estilo começou a ser desfeita em 1976. Sensibilizada com a prisão de Rita Lee, grávida, pelo regime militar, sob a alegação oficial de porte de maconha, Elis visitou a antiga vocalista d’Os Mutantes na prisão. A amizade entre elas estava consolidada quando, em 1980, Elis trouxe à baila toda a irreverência de “Alô, Alô, Marciano”, alçada ao posto de clássico instantâneo de Rita e Roberto de Carvalho.

O hit abre os trabalhos de “Te Adorando Pelo Avesso”. “Começo o disco com esse pedido de socorro. Tenho visto nas redes sociais muita gente falar ‘me tira daqui da Terra’”, afirma Illy. A letra, ácida, e cada dia mais atual, dispara: “Alô, alô, marciano/ A crise tá virando zona/ Cada um por si/ Todo mundo na lona/ E lá se foi a mordomia/ Tem muito rei aí pedindo alforria porque/ Tá cada vez mais down the high society”.

Tributos. “Essas canções só explicitam o quanto o repertório da Elis é atemporal”, enaltece Illy, que dá como outro exemplo “Querelas do Brasil”, cujos versos de Aldir Blanc, atualmente internado em uma UTI (Unidade de Terapia Intensiva) do Rio com o novo coronavírus, definem: “O Brazil não merece o Brasil/ O Brazil tá matando o Brasil”. “Essa música é sobre tudo o que esse governo está fazendo com a gente. Serve como um alerta para todo mundo ouvir e dar uma chacoalhada”, conclama.

No radar de Illy, um tributo futuro pode contemplar Gal Costa. Durante um espetáculo na capital carioca, em 2016, a baiana aproveitou a ocasião para colocar uma rosa vermelha no cabelo e saudar a conterrânea musa do Tropicalismo, com “Eternamente”, música de Liliane, Sérgio Natureza e Tunai, lançada em “Baby Gal” (1983). “É minha outra paixão, Gal e Elis dilaceram o coração”, constata Illy, que tem como predileção “cantar o amor e a Bahia e, ainda, dar um pitaco sociopolítico”, critério que guiou as eleitas para seus dois álbuns até aqui. “Como intérprete, me sinto na obrigação de mostrar para essa nova geração os pilares da nossa música brasileira”, encerra.

Raphael Vidigal

Fotos: Uns Produções/Divulgação.

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Comentários pelo Facebook

1 Comentário

  • Porrada melódica.
    Tô aqui ouvindo de peito aberto!!!
    Lindeza!
    Valeu Illy.
    Obrigado ,Elis!

    Resposta

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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