20 releituras pra lá de originais da música popular brasileira

“só o impossível acontece
o possível apenas se repete” Chacal

Ao longo do tempo, a música popular brasileira foi pródiga em colecionar sucessos e imortalizar canções no imaginário popular. Outro feito que não se pode negar é o de rebobinar hits e modifica-los completamente, revelando aspectos até então ocultos para o ouvinte. Nessa seara, nomes como Caetano Veloso, Adriana Calcanhotto, Zeca Baleiro, Elis Regina e, mais recentemente, Vanessa da Mata, Cida Moreira, Fafá de Belém e Rubel se destacaram. De funk que vira música infantil até moda sertaneja que vira pagode, tem pra todo gosto!

“Aquarela do Brasil” (1939, samba-exaltação de Ary Barroso) – com Elis Regina
Lançada por Araci Cortes no teatro de revista, em junho de 1939, a música só se destacou um mês depois, quando voltou a ser apresentada, desta vez pelo barítono Cândido Botelho, no espetáculo “Joujoux e Balangandãs”. A primeira gravação em disco foi feita pelo cantor Francisco Alves, acompanhado por uma orquestra que executava o arranjo de Radamés Gnattali. Daí por diante, nomes como Sílvio Caldas, Carmen Miranda, Tom Jobim, Gal Costa, João Gilberto, Caetano Veloso, Bing Crosby e Frank Sinatra a regravaram. Durante a ditadura militar, Elis Regina interpretou a versão mais sombria da canção, acompanhada por um coral que reproduzia os cantos dos povos indígenas do Brasil.

“Lama” (1952, samba-canção de Ailce Chaves e Paulo Marques) – com Arrigo Barnabé
Um dos sambas-canções mais celebrados do repertório de fossa de todos os tempos, “Lama” trouxe a assinatura de uma mulher, algo raro numa época que era ainda mais machista do que a atual. Ailce Chaves foi uma compositora prolífica, gravada por estrelas como Angela Maria, Linda Batista, Elvira Pagã e Ciro Monteiro. No entanto, nenhuma composição atingiu o sucesso de “Lama”, parceria com Paulo Marques lançada pela cantora Linda Rodrigues em 1952. Ao longo dos anos, a música recebeu regravações celebradas de Núbia Lafayette, Zeca Pagodinho e Angela Maria. A mais inusitada interpretação, porém, ficou a cargo do experimentalista Arrigo Barnabé, que a registrou no ano de 1992.

“Negue” (1960, samba-canção de Adelino Moreira e Enzo de Almeida Passos) – com Camisa de Vênus
Nascido em em Portugal, Adelino Moreira mudou-se ainda criança para o Brasil. E foi dentro de casa que ele recebeu os primeiros incentivos para seguir o ofício que o consagraria, pois o seu pai era um poeta parnasiano. Compositor de clássicos imortalizados por Nelson Gonçalves, como “A Volta do Boêmio”, “Meu Vício É Você”, “Fica Comigo Esta Noite”, e tantos outros, Adelino compôs, em 1960, “Negue”. O desgaste na relação entre Adelino e Nelson levou outro cantor a lançar um de seus maiores sucessos. A música apareceu pela primeira vez na voz de Carlos Augusto. Em 1978, Maria Bethânia seria a responsável por uma emblemática regravação. Em 1983, foi a vez de o grupo punk baiano Camisa de Vênus oferecer uma versão debochada ao sofrimento amoroso do protagonista.

“Judiaria” (1971, guarânia de Lupicínio Rodrigues) – com Arnaldo Antunes
Não é por acaso que Lupicínio Rodrigues é considerado o inventor da dor de cotovelo, gênero musical também conhecido como música de fossa. A expressão teria nascido pelo fato de os amantes dispensados e lamentosos habituarem-se a apoiar os cotovelos nas mesas de bar, enquanto choravam suas dores de amor. O próprio Lupicínio teria repetido a atitude inúmeras vezes nos bares de Porto Alegre. Autor de clássicos como “Nunca”, “Vingança”, “Esses Moços” e “Cadeira Vazia”, o gaúcho compôs, em 1971, uma guarânia, que ele mesmo lançou. “Judiaria” repete a sina dos amores desfeitos e coloca a mágoa em primeiro plano. Arnaldo Antunes deu tons roqueiros ao regravá-la em 1995.

“Vapor Barato” (1972, tropicalista de Jards Macalé e Wally Salomão) – com O Rappa
Aquela geração ameaçada e violentada pela ditadura não se dobrou à tirania e truculência dos militares e encontrou, na experimentação de drogas proibidas e alucinógenas e na prática do sexo livre e desprovido do sentimento de posse, formas de resistir aos dramáticos tempos de chumbo. É dessa vivência que fala a música de Jards Macalé e Wally Salomão, dois dos artistas mais inventivos e originais do Brasil, em “Vapor barato”, cujo título é uma alusão à maconha. A desilusão com o momento também é refletida nos primeiros versos, com referência direta ao “casaco de general cheio de anéis”. Lançada no histórico show “FA-TAL – Gal a Todo Vapor”, em 1972, foi regravada pelo grupo O Rappa em ritmo de reggae.

“Naquela Mesa” (1973, bolero de Sérgio Bittencourt) – com Otto
“De Sérgio Bittencourt para Jacob do Bandolim”, assim Elizeth Cardoso anuncia a homenagem emocionada do filho jornalista e compositor para o pai bandolinista. Abatido com a partida precoce do pai, Sérgio, que também era jurado de programas na televisão, é o autor da música que se tornou um hino sobre a tristeza pela perda. A canção foi apresentada na TV Record, com o próprio Sérgio acompanhando Elizeth ao violão. Regravada diversas vezes por nomes de diferentes linhagens e incorporada ao repertório informal dos seresteiros, “Naquela Mesa” tornou-se um clássico da canção brasileira. O pernambucano Otto a regravou em 2009, com uma pegada bastante original.

“Me Deixe Mudo” (1973, vanguarda de Walter Franco) – com Alice Caymmi
Walter Franco foi um dos compositores mais inventivos da música brasileira, difícil de ser etiquetado pelo mercado fonográfico, cabendo a ele, apenas, a alcunha de músico de vanguarda. Em 1972, no Festival Internacional da Canção, o júri formado por Nara Leão, Décio Pignatari, Júlio Medaglia, Roberto Freire e Rogério Duprat, elegeu “Cabeça”, de Franco, como a melhor canção, mas ele jamais recebeu o prêmio, porque as vaias da plateia e a presença dos militares da ditadura resultaram na troca de jurados. Em 1974, ao ter todas as suas músicas censuradas, Chico Buarque gravou “Me Deixe Mudo”, lançada com minimalismo por Franco em 1973, que ganhou a voz de Alice Caymmi em 2019.

“Maracatu Atômico” (1974, tropicalista de Jorge Mautner e Nelson Jacobina) – com Nação Zumbi
O movimento manguebeat deve muito a uma dupla nascida no seio do Tropicalismo. Na década de 70, Jorge Mautner e Nelson Jacobina compuseram juntos “Maracatu Atômico”, com imagens que angariavam para si uma liberdade completa e desbravadora em tempos de ditadura militar. A música foi lançada pelo próprio Mautner em 1974, e regravada por Gilberto Gil no mesmo ano. Mas foi a versão da Nação Zumbi, à época capitaneada por Chico Science, que a levou ao sucesso definitivo, quando, em 1996, ela reapareceu no álbum “Afrociberdelia”, que a apresentou a toda uma nova geração. Os versos poéticos de Mautner combinados à melodia de Jacobina e ao som da Nação foram vitais.

“Amar Como Jesus Amou” (1974, religiosa do padre Zezinho) – com Fernanda Takai
Nascido em Machado, no interior de Minas, e filho de violeiro, José Fernandes de Oliveira, conhecido como padre Zezinho, nunca escondeu o fascínio pela música. Aos 23 anos, já nomeado padre, começou a compor. Uma década depois, em 1974, registrou em disco um de seus grandes sucessos. “Amar Como Jesus Amou” fazia parte do álbum “Histórias Que Eu Conto e Canto”, pioneiro no uso de instrumentos como guitarra e bateria na música religiosa. “Amar Como Jesus Amou” recebeu regravações do cantor José Cid e do padre Marcelo Rossi. Mas foi em 2014, quando Fernanda Takai se juntou ao padre Fábio de Melo, que ela recebeu uma versão diferenciada. A vocalista voltou a interpretá-la em 2017.

“Bola Dividida” (1975, bolero de Luiz Ayrão) – com Zeca Baleiro
Na década de 70, o carioca Luiz Ayrão experimentou o auge do sucesso, graças a músicas como “Porta Aberta”, “O Lencinho”, “Nossa Canção”, “Os Amantes”, dentre outras que inundavam a programação das rádios e televisões. Logo, porém, ele foi posto no escaninho de cantores bregas, ao lado de nomes como Odair José e Agepê, só para citar alguns. Em 2008, promovendo um resgate habitual em sua discografia, Zeca Baleiro subverteu “Bola Dividida”, injetando ironia no bolero de Ayrão, originalmente gravado em 1975 pelo autor. Segundo Baleiro, a intenção era “não deixar essas canções se perderem no tempo e, na esteira disso, colocar em discussão os conceitos de bom gosto e mau gosto”.

“Vá Pro Inferno Com Seu Amor” (1976, sertaneja de Meirinho e José Rico) – com Vanessa da Mata
O encontro entre o mineiro Romeu Januário de Matos, o Milionário, e o pernambucano José Alves dos Santos, apelidado de José Rico, rendeu uma das duplas sertanejas mais famosas do Brasil. Eles foram um dos responsáveis pela adesão da tradicional canção caipira a elementos que desembocaram na música sertaneja que passou a imperar no país a partir dos anos 90. Em 1976, Milionário & José Rico lançaram “Vá Pro Inferno Com Seu Amor”, baseada no típico rancor dos mal-amados. Chitãozinho & Xororó a regravaram com enorme sucesso em 1993. Nascida no interior do Mato Grosso, Vanessa da Mata criou uma versão roqueira para a canção que ela afirmava ouvir com frequência desde a infância.

“Você Não Me Ensinou a Te Esquecer” (1979, bolero de Fernando Mendes, José Wilson e Lucas Mendes) – com Caetano Veloso
Desde que eliminou os excessos operísticos ao regravar “Coração Materno”, tango-canção de Vicente Celestino, em 1968, para o histórico disco “Tropicália”, Caetano já mostrava a sua habilidade em extrair a beleza de canções abafadas por arranjos equivocados. Foi o que ele fez, por exemplo, com “Sonhos” e “Sozinho”, ambas de Peninha. Em 2003, foi a vez de ele recuperar “Você Não Me Ensinou a Te Esquecer”. A música havia sido lançada por Fernando Mendes em 1979, um dos autores do bolero, ao lado de José Wilson e Lucas Mendes. Na versão para o filme “Lisbela e o Prisioneiro”, dirigido por Guel Arraes, Caetano, munido de seu violão, trouxe à tona o que ela tinha de essencial.

“Eva” (1982, pop de Umberto Tozzi e Giancarlo Bigazzi) – com Banda Eva
Antes de se transformar em hino da banda Eva em ritmo de axé e ainda comandada por Ivete Sangalo, a música “Eva” se tornou uma febre no Brasil pelas mãos da banda paulistana Rádio Táxi que, por imposição da gravadora, registrou uma versão da canção homônima lançada pelo cantor italiano Umberto Tozzi. A presença da personagem bíblica não acontece por acaso, ao menos na versão original, que anuncia o fim dos tempos olhando para o passado, misturando astronave com arca de Noé. O roteiro surrealista foi responsável por brincadeiras que passaram a circundar a música, associada ao uso de maconha, em paródias jocosas que substituíam o nome feminino Eva por “Erva”.

“Meu Erro” (1984, balada de Herbert Vianna) – com Zizi Possi
Um ano antes de serem uma das duas únicas bandas brasileiras a não serem vaiadas no primeiro Rock in Rio da história, ao lado do Barão Vermelho, o grupo Paralamas do Sucesso confirmou a sua apoteose com o álbum “O Passo do Lui”, que rendeu ao trio formado por Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone discos de platina e ouro pelas milhões de cópias vendidas. Um dos destaques do álbum era a balada “Meu Erro”, inspirada no término do relacionamento de Herbert com Paula Toller, vocalista do Kid Abelha. Em 1989, quando lançou uma versão lenta para “Meu Erro”, no álbum “Estrebucha Baby”, Zizi Possi recebeu um elogio de Tim Maia: “Nem o Herbert sabia que a canção que ele fez era tão bonita”, disse.

“Será” (1985, rock de Renato Russo, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá) – com Simone
Um dos hinos da geração roqueira dos anos 80, “Será” foi lançada pelo grupo Legião Urbana em 1985, no primeiro disco da trupe e, como tudo que dizia respeito ao líder e vocalista Renato Russo, acabou envolvida em uma aura messiânica. Os versos questionadores “Será só imaginação?/ Será que nada vai acontecer?/ Será que é tudo isso em vão?/ Será que vamos conseguir vencer?”, ajudaram a definir o sentimento de toda uma juventude. Percebendo esse poder de identificação, a cantora Simone se aventurou a regravar a canção em 1991, no álbum “Raio de Luz”. Além dela, o grupo de pagode Raça Negra e a dupla sertaneja Bruno & Marrone também compreenderam a atemporalidade da faixa.

“Toda Forma de Amor” (1988, pop de Lulu Santos) – com Fafá de Belém
Lulu Santos já era uma febre do pop nacional, com assinatura própria, quando colocou na pista, em 1988, “Toda Forma de Amor”, um dos maiores sucessos da sua carreira, que deu nome ao seu sexto disco de estúdio. A música entrou para a coleção de hits que o compositor costuma rebobinar de tempos em tempos. Apesar do título inclusivo, a música traz o verso “eu sou teu homem, você é minha mulher”, modificado por Lulu em algumas ocasiões para “eu sou um homem, me diz você qual é?”. Apenas em 2018, o cantor assumiu sua homossexualidade. “Toda Forma de Amor” recebeu uma regravação revigorante e densa da cantora Fafá de Belém, em 2019, para o elogiado disco “Humana”.

“É O Amor” (1991, sertaneja de Zezé di Camargo) – com Maria Bethânia
Em 1991, ao gravar o primeiro LP de sua carreira, os irmãos goianos Zezé di Camargo & Luciano lançaram a balada sertaneja “É O Amor”, que rapidamente alcançou o primeiro lugar nas paradas de sucesso, levando a dupla do ostracismo para o estrelato em questão de dias. A música composta por Zezé di Camargo não demorou a chamar a atenção do mercado fonográfico, sendo regravada no ano seguinte pelo grupo de pagode Raça Negra. Mas a surpresa maior aconteceu quando Maria Bethânia a registrou com delicadeza, em 1999, no álbum “A Força Que Nunca Seca”. A intérprete baiana voltaria a fazer movimento parecido em 2019, quando deu voz a “Evidências”, sucesso da dupla Chitãozinho & Xororó.

“Fico Assim Sem Você” (2002, funk melody de Abdullah e Cacá Moraes) – com Adriana Calcanhotto
Por coincidência ou destino, a dupla Claudinho & Buchecha estava no auge do sucesso quando gravou o disco “Vamos Dançar”, em 2002, que trazia a canção “Fico Assim Sem Você”, de Abdullah e Cacá Moraes. Tristemente, os versos do funk melody se tornaram proféticos quando Claudinho morreu em um acidente de carro, em julho daquele mesmo ano. A música dizia “Amor sem beijinho/ Buchecha sem Claudinho/ Sou eu assim sem você”. Em 2004, Adriana Calcanhotto a repaginou para seu projeto infantil, em que vestia a persona de Adriana Partimpim, e amplificou o sucesso da canção. No mesmo ano, a cantora Roberta Tiepo gravou uma nova versão, para o disco “Alegria, Diversão e Festa”.

“Eu Sou a Diva Que Você Quer Copiar” (2014, funk de Pardal, Wallace Viana e André Vieira) – com Cida Moreira
No videoclipe de “Eu Sou a Diva Que Você Quer Copiar”, Valesca Popozuda surge em uma oficina de carro pedindo ajuda e vê os mecânicos babarem sobre seu corpo. O universo é outro na regravação de Cida Moreira, que levou ao funk de Pardal, Wallace Viana e André Vieira uma atmosfera de cabaré. A versão de Cida foi concebida para “Um Copo de Veneno”, programa de televisão dirigido pelo fotógrafo Murilo Alvesso para o Canal Brasil. A abordagem das duas intérpretes não poderia ser mais distinta, e é isso o que torna a experiência rica. “É uma música muito engraçada, sempre transgredi as minhas próprias regras”, declarou Cida, que garantiu ter recebido um telefonema elogioso de Valesca.

“Medo Bobo” (2016, sertaneja de Juliano Tchula, Maraisa, Vinicius Poeta, Junior Pepato e Benicio Neto) – com Rubel
A ascensão de intérpretes femininas no universo do sertanejo universitário teve como um dos principais nomes a dupla de irmãs gêmeas Maiara & Maraisa, nascidas no interior do Mato Grosso. Ao lado de “10%”, o primeiro hit a dar projeção nacional para as cantoras foi “Medo Bobo”, balada sertaneja assinada por um time tão amplo como aqueles que costumam apresentar os sambas-enredos. Fato é que o refrão “E na hora que eu te beijei/ Foi melhor do que eu imaginei/ Se eu soubesse tinha feito antes/ No fundo sempre fomos bons amantes” grudou tanto nas rádios e plataformas digitais quanto no coração dos fãs. Em 2019, a faixa foi relida pelo cantor Rubel para a trilha de “Amor de Mãe”.

Raphael Vidigal, com as colaborações preciosas de Milton Luiz e Patrícia Cassese.

Fotos: Montagem; e Arquivo/Divulgação.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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