Entrevista: Projota, entre o rap Nutella e de raiz

“Mandei a palavra rimar,
ela não me obedeceu.
Falou em mar, em céu, em rosa,
em grego, em silêncio, em prosa.
Parecia fora de si,
a sílaba silenciosa.” Paulo Leminski

Como muitos ditados populares, a origem é incerta. Fato é que a rivalidade criada por meio do meme “raiz x nutella” começou a se alastrar na internet em 2016. Curiosamente, dois anos antes, uma banda que hoje é vítima do termo já tinha se referido à marca especializada em creme de avelã com cacau e leite.

Foi em 2014 que os garotos do quarteto fluminense Oriente lançaram “O Vagabundo e a Dama”, que dizia: “Ele chegou da pista, viu a cama e foi cochilar/ Ela acordou, abriu a janela, e viu o sol nascendo no mar/ Ele abriu a geladeira, de novo pão com mortadela/ Ela comeu croissant, com Ovomaltine e Nutella”.

Atualmente, o videoclipe de “O Vagabundo e a Dama” supera as 76 milhões de visualizações, comprovando o sucesso de um segmento do rap que ganhou a alcunha nutella por, supostamente, priorizar um discurso calcado nas relações afetivas e na ostentação de bens materiais, em detrimento do histórico de engajamento político e da crítica social presente nas letras dos Racionais MC’s, Sabotage, MV Bill, Rappin’ Hood e Black Alien. Esse segundo time pertenceria ao chamado rap de raiz.

Projetado na cena a partir de 2006, graças a sucessos como “O Poeta”, “Ela” e “Avoadão”, o paulistano Projota admite que sempre procurou essa aproximação com o universo pop, mas vê graça na palavra escolhida para designar sua atitude. “Acho estranho colocar nutella para falar de rap, porque quando comecei nem sabia o que era Nutella e levei dez anos para ter condição de comprar um pote”, conta.

1 – Como vê o momento atual do rap e do hip hop e as conexões que ele têm feito com ritmos como samba, MPB, pop, axé, funk e até música orquestral?
Vejo com muita alegria. Até porque sou uma das pessoas que ajuda a promover isso. Eu sempre vi o quanto isso era interessante, importante e gostoso de fazer. Algo bom, que sempre fiz com muito prazer. Tenho música com gente da MPB, do samba, do funk, do pop, vários estilos! Do rock, do reggae. Sempre me amarrei em fazer isso. Fico feliz também por ver o quanto as pessoas gostam de rap. Anos atrás, quando o rap ainda não estava tão em alta quanto hoje, a gente já começou a receber essas propostas, esses convites. E isso fazia bem pra gente, de falar “pô, que legal que essa galera está ouvindo rap, está curtindo rap também”.

2 – O hip hop nacional tinha por hábito tratar de temas sociais, e têm se dedicado cada vez mais a músicas sobre relacionamentos afetivos. Como enxerga essa mudança e a que atribui ela?
Acredito que isso era algo natural de acontecer. É um estilo de música muito jovem, então, naturalmente vai passar por várias influências, várias vertentes novas que vão surgindo. Porque surgem novos artistas, com outras influências, com outras vivências, e é impossível que se mantenha sempre igual. Mas acho também importante ressaltar que o rap não para de falar sobre temas sociais, sobre questões da nossa sociedade… Isso continua acontecendo. Apenas abrimos o leque de opções de temas. Você fica um pouco mais à vontade para falar sobre qualquer coisa, não só sobre relacionamento, nem só sobre sociedade, mas sobre qualquer coisa. Ou tristeza, ou alegria, ou revolta, ou amor.

3 – O que pensa sobre essa discussão que invadiu a internet sobre rap raiz e rap Nutella?
Acho que com a popularização da internet, as pessoas têm mais oportunidades de difundir as suas opiniões. E a gente ainda está aprendendo a lidar com isso, a conviver com isso. Para quem vem de antes, para quem viveu em uma outra época, pode demorar um pouco para assimilar tudo isso. Eu estou mais do que acostumado. Eu vejo que esse lance de raiz ou Nutella não é só no rap, né?! (risos) Todo mundo começou a usar e isso virou praticamente um jargão para tudo. Para mim, acho até estranho colocar Nutella para falar de rap porque quando eu comecei a fazer rap, nem sabia o que era Nutella. Depois que eu comecei, levei uns 10 anos para ter a condição de pagar um pote de Nutella com o dinheiro do rap. Então, para mim, tanto faz (risos). É muito delicado julgar a arte de uma pessoa. Tem que fazer isso com cautela, com respeito. A arte de uma pessoa, principalmente quando ela resolver fazer rap, na maioria das vezes, está colocando a vida dela na música. E julgar a vida da pessoas é muito delicado.

4 – Qual a importância e que papel o hip-hop e o rap ocupam no cenário atual da música brasileira?
Eu acho que o rap a cada dia vem alcançando o espaço que ele merece. Eu cresci ouvindo rap. Desde os 15 anos de idade, eu faço rap. E desde aquele momento, em que comecei a fazer rap e a respeitar e a admirar os artistas e querer ser igual aos caras, eu sempre sonhava com isso, em ver as pessoas respeitando o rap. Era muito triste sentir o preconceito que existia. Era doloroso ver as pessoas falando que rap não era música. Ouvi isso ser falado durante muito tempo. Finalmente, hoje, as pessoas reconhecem. Aqui no Brasil está crescendo. É bom que cresça devagar, que não vire uma explosão, um meteoro, que vem e vai embora. Tem que crescer assim, como aconteceu com o rock, que foi ganhando seu espaço e se tornou o que veio sendo durante décadas. Hoje a gente tem aí uma diminuída, mas eu tenho certeza de que é só um ciclo. E eu, como um cara que cresceu ouvindo rock, tenho certeza de que ele vai voltar a ser tudo que já foi, de ter um alcance tão grande como era, especialmente aqui no Brasil. E o rap é assim. A gente está aproveitando esse momento, trabalhando e tentando fazer crescer mais. Não tem outra saída. A gente tem que continuar trabalhando, mas é no sapatinho, na bolinha de meia, é no passinho da formiga. E vai crescendo, vai crescendo, chegando em novas pessoas, novos adeptos, novos corações.

5 – Quem são os nomes dessa cena que você mais admira?
Os artistas que eu mais admiro são os mesmo que eu cresci ouvindo: Mano Brown, Racionais MC’s, MV Bill, Gabriel, o Pensador, Marcelo D2, RZO. E os meus amigos, Rashid, Emicida, Criolo, Karol Conka. Hoje a gente tem uma nova geração incrível, com Cynthia Luz, Froid, Djonga, Choice, vários caras muito bons. É uma delícia curtir rap (risos)! Cada vez vão surgindo novos talentos, a gente vai aprendendo com eles também. Eu sou assim, sou um eterno aprendiz no rap. E quero sempre aprender e crescer cada vez mais.

6 – Qual a sua opinião sobre a música do rapper Drake e como viu o fato dele bater recordes dos Beatles nas plataformas digitais? Isso ajuda a cena rap no Brasil de alguma forma?
Eu não estava nem sabendo que ele passou os Beatles (risos)! É tanta notícia do Drake, tanto número, tanto recorde que ele bate, que fica difícil até de acompanhar. O cara parece o Cristiano Ronaldo, ele bate recorde toda semana! Eu sou muito fã do Drake, o cara é bom demais! Sou muito fã do Kendrick Lamar, do J Cole, sou fã dos caras da antiga, The Notorious B.I.G., Two Pack, Eminem, Jay Z. E com certeza afeta o mercado brasileiro diretamente. Quanto mais as pessoas ouvem rap gringo, fortalece o quanto elas vão ouvir o rap nacional também. Até porque cada vez mais a galera daqui está conseguindo atingir o nível do trabalho que é feito lá. Eu digo em todos os sentidos: produção, mixagem, videoclipe. A gente tem hoje uma condição de fazer coisas que eram impossíveis de fazer antes. O rap nasceu na periferia e a galera não tinha condição de botar uma grana para fazer um videoclipe. Eu mesmo quando comecei a fazer rap não sabia nem como fazia uma batida. Hoje em dia é outra parada. A gente tem conseguido acompanhar o que eles fazem lá, e isso interfere no que a gente vai fazer aqui também. O rap nasceu nos Estados Unidos, então tudo o que acontecer com o rap lá vai afetar o que acontece com o rap no mundo inteiro. É onde ele nasceu, onde é maior e dominou totalmente o mercado musical.

Raphael Vidigal

Fotos: Pedro Dimitrow/Divulgação.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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