19 encontros incríveis entre música e literatura no Brasil

“– Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.” Manuel Bandeira

A música “Língua” fechava o disco gravado por Caetano Veloso em 1984. “Velô” trazia parcerias com nomes ligados à literatura, casos dos poetas Augusto de Campos, Wally Salomão e Antonio Cícero. A faixa, em especial, era recheada de citações a escritores de variados gêneros, estilos e épocas: passava dos clássicos Luís de Camões e Olavo Bilac aos consagrados Guimarães Rosa e Fernando Pessoa, chegando até ao contemporâneo Glauco Mattoso.

Mas, como numa ironia, ao fim Caetano determinava a superioridade musical quando o assunto era o idioma português: “Se você tem uma ideia incrível/ É melhor fazer uma canção/ Está provado que só é possível filosofar em alemão”, cantava o baiano, acompanhado por Elza Soares. Ele próprio lançaria, em 1997, o livro “Verdade Tropical”, espécie de ensaio que oferecia um olhar agudo sobre a cultura brasileira. Fato é que músicos de todas as gerações têm se arriscado cada vez mais a desmentir a máxima proferida pelo mentor tropicalista.

Do disco para o livro
Autores de hits tentaram a sorte em páginas literárias

Adriana Calcanhotto
No ano de 2008, a compositora gaúcha arriscou-se na prosa com “Saga Lusa: Relato de Uma Viagem”. O universo infantil foi abordado em “Melchior, O Mais Melhor”, parceria com Vik Muniz. Já em 2018, Adriana organizou a antologia “É Agora Como Nunca”, só com textos de poetas contemporâneos.

Arnaldo Antunes
Com 20 livros publicados, o ex-titã sempre levou a carreira literária de maneira paralela à musical, tanto que, em 1983, lançou o primeiro livro de poesias, um ano antes de estrear em disco com os Titãs. No ano de 1993, Arnaldo foi laureado com o Prêmio Jabuti graças ao livro “As Coisas”.

Chico Buarque
Autor de clássicos da MPB, Chico repete o sucesso na literatura. Ele é vencedor de três prêmios Jabuti. Em 1992, levou o de melhor romance com “Estorvo”, enquanto “Budapeste” e “Leite Derramado” lhe valeram o de melhor do ano, em 2004 e 2010. Em 2014, ele lançou “O Irmão Alemão”.

Chico César
Conhecido pelo hit “Mama África”, o artista paraibano realizou sua primeira incursão na literatura em 2005, quando lançou “Cantáteis: Cantos Elegíacos de Amozade”. Voltou à seara em 2015, com “Versos Pornográficos”, e 2016, com o infantil “O Agente Laranja e a Maçã do Amor”.

Fernanda Takai
No mesmo ano em que a vocalista do Pato Fu lançou o seu primeiro disco solo, ela estreou na literatura, com a reunião de contos e crônicas “Nunca Subestime Uma Mulherzinha”, de 2007. “A Mulher Que Não Queria Acreditar” e o infantil “A Gueixa e o Panda-Vermelho” deram continuidade à carreira.

Letícia Novaes
Quando decidiu estrear em livro, Letícia Novaes já era conhecida no meio musical graças ao duo Letuce. “Zaralha”, de 2015, marcou a primeira incursão da artista, numa mistura de diário com páginas rabiscadas, rascunhos de poesia e muita liberdade literária por parte da carioca.

Rita Lee
A autobiografia da eterna mutante, lançada em 2016, foi um estouro de público e crítica. Mas Rita já se arriscava na literatura desde os anos 80, quando escreveu quatro livros infantis que tinham como protagonista o rato cientista Dr. Alex. “Storynhas”, “Dropz” e “FavoRita” são seus outros livros.

Tony Bellotto
O guitarrista dos Titãs debutou no mercado literário em 1995, quando lançou o seu primeiro romance policial, “Bellini e a Esfinge”. O sucesso do protagonista valeu uma saga com três continuações em livro e a adaptação para o cinema. Em 2018, Bellotto lança o nono romance de sua carreira.

Vanessa da Mata
Nascida em Alto Garças, no interior do Mato Grosso, a artista se inspirou em memórias da infância para escrever o seu primeiro romance. “A Filha das Flores” foi lançado em 2013, pela editora Companhia das Letras. Vanessa é autora das músicas “Não Me Deixe Só” e “Ai, Ai, Ai”.

Da literatura para a música
Já reconhecidos como escritores, eles adentraram a canção popular

Antonio Cícero (1945)
Recém-empossado na Academia Brasileira de Letras, o carioca tem vários hits ligados ao seu nome na música brasileira, graças à parceria com a irmã, Marina Lima. Autor das letras de “Fullgás”, “À Francesa” (com Cláudio Zoli) e “A Chave do Mundo”, ele voltou a supreender nesse 2018, com o funk “Só Os Coxinhas”.

Cacaso (1944-1987)
Quando estourou na década de 1970 com as músicas “Dentro de Mim Mora Um Anjo” (parceria com Sueli Costa) e “Lero Lero” (feita com Edu Lobo), o poeta mineiro havia publicado nada menos do que três livros. A intenção era, justamente, tornar-se mais popular, já que ele se mirava em Vinicius de Moraes.

Ferreira Gullar (1930-2016)
O maranhense participou de diversos movimentos literários e chegou a romper com o concretismo, aderindo à estética neo-concreta. A inquietação o levou também a explorar a linguagem musical. Gullar é o autor dos versos de “Onde Andarás” (com Caetano Veloso) e “O Trenzinho do Caipira” (com Villa-Lobos).

Hilda Hilst (1930-2004)
Adoniran Barbosa foi quem tomou a iniciativa de pedir para a poeta Hilda Hilst alguns versos. A intenção do autor de “Trem das Onze” era criar músicas melancólicas. Assim nasceram “Só Tenho a Ti”, “Quando Tu Passas Por Mim” e “Quando Te Achei”, gravada pela cantora paulista Elza Laranjeira, em 1960.

Jorge Amado (1912-2001)
É difícil encontrar, na literatura brasileira, obras que sejam mais populares do que “Dona Flor e Seus Dois Maridos” e “Gabriela, Cravo e Canela”, ambas de Jorge Amado, que também contribuiu com a música brasileira. Ele é parceiro de Dorival Caymmi em “É Doce Morrer no Mar” e “Modinha para Tereza Batista”.

Manuel Bandeira (1886-1968)
As músicas “Modinha” e “Azulão” são duas parcerias do poeta pernambucano com Jayme Ovalle. A primeira foi gravada por Inezita Barroso e, a segunda, lançada por Nara Leão. Já “Tu Que Me Deste Teu Cuidado”, outra letra de Bandeira, ganhou melodia de Capiba e foi registrada pela cantora Clara Nunes.

Paulo Leminski (1944-1989)
Apenas na década de 1980, o curitibano passou a explorar com afinco o campo musical. Popular nas duas searas, o poeta travou parcerias com Caetano Veloso e Moraes Moreira, e teve suas músicas gravadas por Ney Matogrosso e Arnaldo Antunes. Itamar Assumpção ainda musicou seus versos postumamente.

Torquato Neto (1944-1972)
Embora jamais tenha publicado um livro em vida, o autor piauiense passou à eternidade reconhecido como poeta. Para ele, o importante é que a poesia estivesse no dia a dia das pessoas, tanto que se dedicou a escrever versos para canções populares, como “Soy Loco por Ti, América”, parceria com Gilberto Gil.

Vinicius de Moraes (1913-1980)
De apelido Poetinha, o carioca é certamente o maior exemplo de sucesso nessa seara. Autor de versos solenes para livros de poesias e peças teatrais, Vinicius entrou de cabeça no universo da canção popular e foi um dos grandes artíficies da Bossa Nova, com letras que eram coloquiais e ao mesmo tempo sofisticadas.

Wally Salomão (1943-2003)
Também ligado à Tropicália, o baiano conduziu paralelamente as carreiras de poeta e letrista musical, tanto que publicou o primeiro livro em 1972, mesmo ano em que dirigiu o histórico show de Gal Costa (“FA-TAL: A Todo Vapor”), onde comparecia como compositor de “Vapor Barato”, parceria com Jards Macalé.

Raphael Vidigal

Fotos: Guilherme Samora; e Site Oficial/Divulgação, respectivamente.

Compartilhe

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on linkedin
LinkedIn
Share on email
Email

Comentários pelo Facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recebas as notícias da Esquina Musical direto no e-mail.

Preencha seu e-mail:

Publicidade

Quem sou eu


Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

Categorias

Já Curtiu ?

Siga no Instagram

Amor de morte entre duas vidas

Publicidade

PHP Code Snippets Powered By : XYZScripts.com