Emicida – Rap & repulsa

“Tenho me fatigado tanto todos os dias
Vestindo, despindo e arrastando amor
Infância,
Sóis e sombras.” Hilda Hilst

Rap

Dentre as acusações correntes que se protocola contra o rap está a de que acabou com a canção, além de incitar a violência e derrocar numa linguagem chula sem direito a aparador.

Do exílio, lírio branco maquiado de fuligem, o instinto sacode as aparências e gravita intencional, direto, frente a frente, olho no olho, dedo na ferida.

Calma e água com açúcar não aparecem no contexto da falta e necessidade, aliadas homônimas da indignação quando resta humanidade, digna luta. Rap e repulsa confluem-se entre letras e sinais de alerta.

Prisioneiro do ofício e da distinção minúscula, o músico Emicida, autor de panfletos litero-artísticos, livre de crimes, mas refém da soberba e intimidação, foi conduzido à cadeia.

“Porque a justiça deles, só vai em cima de quem usa chinelo
e é vítima, agressão de farda é legítima.
Barracos no chão, enquanto chove.
Meus heróis também morreram de overdose,
de violência, sob coturnos de quem dita decência.
Homens de farda são maus, era do caos,
frios como halls, engatilha e plau!
Carniceiros ganham prêmios,
na terra onde bebês, respiram gás lacrimogênio”

Tornou-se, mais uma vez, personagem de tua própria história, recheada de referenciais simbólicos e democráticos, arauto da elucubração ativista e bem posicionada, especialista do tiro rápido, certeiro, imobiliza a vítima.

Viaja mais rápido que a bala a nota, abala a balela a poesia bruta, porém não casta vitaminada de atitude e disposição. Estampado no rosto, no torso negro, nos olhos lacrimejados a expressão da sobriedade: “HIP HOP SALVOU MINHA VIDA”.

Elis e Marighela são aliados, mais que isto, o povo aflito e combativo, ás vezes combalido, mal tratado, escorraçado, vilipendiado, esquecido numa vala comum dum dia de domingo, pois pobre espera na fila como os velhinhos do SUS – a morte lenta e degradável.

Aqui não. Garanto Cazuza, ‘o palco exala imunidade’, não nestas palavras, mas no sentido que resta, réstia, hóstia. Uma prece molha as bocas dos justos. O libelo contra a arte de Emicida dispensa a elegância de um Salvador Dalí e aterra-se no paralelo terrível da mentira deslavada e mal redigida. É este o mérito dos policiais que o prenderam.

Provável que ainda assim se ouça os gritos dos que te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro, pois assim se ganha mais dinheiro, mas é difícil crer que continuaremos fechando caixões e olhos enquanto o rap nos ensina a viver.

Hip Hop Emicida

Raphael Vidigal

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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