Entrevista: O Carnaval Melancólico de Rogério Skylab

“O pequeno crocodilo
Enfeita a lustrosa cauda,
Despeja as águas do Nilo
Sobre as escamas douradas!

Com que deleite arreganha-se
E calmo desdobra as garras,
Chama os peixes às entranhas
Da sorridente bocarra!” Lewis Carroll

rogerio-skylab-entrevista

“Eu dava pra Rogéria”, encerra o cantor, músico, escritor e entusiasta das travestis Rogério Skylab, um dos mais provocativos e indefiníveis sujeitos dentro da música brasileira, ou fora dela. “sou um sobrevivente. Todavia, me defino como um cadáver dentro da MPB”, afirma paradoxal em texto de caráter biográfico publicado no site oficial. Embora fuja de definições e aplauda “Qualquer tentativa de eliminação do discurso”, Skylab é, sobretudo, um artista conceitual. E se esbalda com perspicácia na hora de teorizar suas incursões. No mais recente trabalho “Melancolia e Carnaval”, segundo da trilogia iniciada com “Abismo e Carnaval”, que já prenuncia os desdobramentos da obsessão por séries, o entrevistado, outra vez, já que não assusta, desta vez surpreende. “Eu sou um tipo de compositor que sempre vai buscar caminhos ainda não explorados. Isto é, inexplorados ainda por mim. Se você der uma examinada no conjunto do meu trabalho, vai chegar a essa conclusão”, garante.

Bem mais lírico e palatável que vários trabalhos da carreira de Skylab, e com a participação da Velha Guarda da Mangueira, Rômulo Fróes e Jards Macalé, o compositor costura e destrincha os caminhos que o levaram até esse disco. “A concepção dessa trilogia dos carnavais é o mergulho no coração da MPB, com uma espécie de linguagem muito própria a esse estilo. Ao mesmo tempo, eu dou andamento a um trabalho experimental que comecei com ‘Rogerio Skylab e Orquestra Zé Felipe’, e que deve redundar num novo disco. Por outro lado, tem o projeto ‘SKYGIRLS’, ligado ao eletrônico e que bebe na fonte de bandas como ‘Stereolab’. E tem a série dos Skylabs, que é um som com o qual eu fui mais reconhecido em função também dos dez discos lançados dessa série, um deles inclusive ganhou o Prêmio Claro de Música Independente, o SKYLAB V”, demarca. Além das já citadas participações, o álbum também conta com release de peso, escrito por um dos ídolos de Skylab, a lenda Fausto Fawcett.

PARÓDIA
“Fausto é um grande amigo, ainda que sejamos completamente diferentes no que fazemos. Quando o levei ao programa ‘Matador de Passarinho’, que apresento no Canal Brasil toda segunda-feira à meia-noite, fiz questão de sublinhar o seu caráter solitário no cenário do rock brasileiro, que foi aonde ele apareceu. É curioso que hoje em dia quando ouvimos todas as grandes nacionais que fizeram sucesso naquela década de 1980, nos dá a sensação de envelhecimento precoce, ao contrário do que acontece se ouvimos hoje os primeiros discos de Fawcett: continuam vigorosos. Fiquei muito feliz de ele ter escrito o release. Sou tão solitário quanto ele”, apresenta o entrevistado de maneira a dispensar acréscimos. Da mesma maneira Fausto retribuiu no release, ao dizer: “Depois de estrangular freiras, matar passarinhos, acordar a sua irmã Silvia Maria, ver ratos entrando pelo grande cu do mundo, (…), Rogério Skylab nos desconcerta mais uma vez com ‘Melancolia e Carnaval’”.

Sobre esse desconcerto, essa mudança sempre brusca de direção, Skylab arredonda: “Então, quando você me pergunta, baseando-se no ‘Melancolia e Carnaval’, se foi uma rendição ou um enfastiamento, eu te respondo que não foi nem uma coisa nem outra. Foi apenas a busca de um caminho que eu ainda não tinha explorado: um tipo de arranjo, um tipo de gravação, certa maneira de cantar, de compor e de escrever que é muito própria da MPB, apesar de todo leque de variações que esse gênero comporta. Eu diria que é mais um exercício de linguagem, quase uma paródia”, assinala. A presença de alguns gêneros é assim explicada. “Samba é o coração da MPB. Bossa Nova é uma estilização, quase uma variante desse modelo original que é o samba. Jards Macalé, por sua vez é também uma variante do modelo original – não é bossa nova nem tropicália; é uma exacerbação dos sentidos, que bebe muito na fonte de Baden Powell e tem em Wally Salomão o seu grande companheiro”, diz.

TROPICALISMO
Vivente do universo independente desde antes de 1992, quando lançou o seu primeiro vinil, um dos assuntos que mais despertam o interesse de Skylab é o tropicalismo. “Dessa salada de coisas que você tá me perguntando, me interesso mesmo é pelo tropicalismo, assunto do qual venho estudando já faz um bom tempo”, e aproveita para indicar um texto escrito em seu blog “A História Viva do Tropicalismo”, onde também desfia preferências ligadas ao mundo da literatura, dos quadrinhos, da música, das artes plásticas e outras mais, no endereço eletrônico www.godardcity.blogspot.com. “Mas esse é um assunto pra mim palpitante”, retoma a questão anterior. “É a guerra da interpretação, uma guerra que se trava lentamente, porque tudo é narrativa, já dizia Pablo Capilé, o futuro ministro da cultura da presidenta Marina. Ai que dor de barriga”, ironiza. No mais recente disco, inclusive, Skylab estreia parceria com Torquato Neto, morto em 1972, ao musicar um de seus famosos poemas.

“Foi Jards quem me iniciou em Torquato Neto, esse sim um tropicalista. Caetano Veloso chega a chamá-lo de ‘tropicalista ortodoxo’. E foi Macalé quem mais cantou Torquato. O seu suicídio é um enigma simbólico. O meu mergulho na MPB é radical. Por que tudo isso que te falei, samba, bossa nova, tropicália e pós-tropicália, é o fundamento da MPB”, considera. Sobre a importância da arte dramática em seu processo de composição, apesar da evidente presença performática nas apresentações, desdenha: “nenhuma importância”. Ao contrário do que tem a dizer de outros carnavais. “Devoto grande interesse às redes sociais. Todos esses espaços são oportunidades para me manifestar e mostrar minhas preferências. O que posso dizer, de modo geral, é que a interdisciplinaridade é o meu espaço. Nesse sentido faço música, artes plásticas, teatro, literatura, história em quadrinhos”, enumera. “A questão da improvisação na música é o grande tema do meu próximo trabalho”, anuncia.

EXPERIMENTAL
Rogério Skylab tornou-se nome de alcance nacional a partir de aparições no programa de Jô Soares. Em suas músicas Roberto Carlos, Chico Xavier, Glória Maria, Fátima Bernardes, Maria Bethânia já foram citados, quase sempre com sarcasmo. Ao mesmo tempo Arrigo Barnabé, Jorge Mautner, Walter Franco, Chacal e Arnaldo Antunes, tratados com reverência. Skylab, inclusive, orgulha-se da parceria com Mautner, “Palmeira Brasileira”, do disco “Abismo e Carnaval”, e da presença de Barnabé na canção “Cântico dos Cânticos”, em SKYLAB III. Então explica com sinceridade ausências na música “Eu Quero Saber Quem Matou”. “Maria Alcina eu adoro, entrevistei agora no meu programa. Luís Capucho eu não conheço o trabalho ainda. Carlos Careqa é o seguinte, anos atrás fui ao JAZZMANIA, antiga casa de shows do Rio de Janeiro, assistir ao Arrigo, do qual sou fã de carteirinha, e quem abria era o Careqa. As pessoas riam muito, eu detestei. Essa má impressão a gente carrega o resto da vida”.

Porém, assim como os admirados, embora de forma diversa, Skylab transita em faixa de espaço reduzida do ponto de vista mercadológico, mas ampla quando se trata de liberdade artística. “Depois de tudo que eu já te respondi, posso te dizer muito tranquilamente que eu me identifico mesmo é com a música independente e experimental. Até quando estou traçando a MPB mais careta – meu terceiro disco, completando a trilogia dos carnavais, vai se chamar ‘Desterro e Carnaval’ – ainda assim estou sendo experimental”, aponta. Reconhecido pela série de discos assumidamente inspirada nos modus operandi dos serial killers, o músico faz ressalvas quanto a associações. “Quanto à questão da ‘estética do absurdo’, eu sinceramente não sei o que você quer dizer, e esse tema também é tão vasto. Por exemplo, eu não me interesso pelo realismo fantástico, que foi o boom da literatura latino americana, mas me interesso pelo absurdo de Kafka”, diferencia.

ABSURDO
Com capas de disco que versam sobre morte, violência, asco e estranhamento, Skylab dá prosseguimento à resposta. “São duas maneiras de tratar o tema do absurdo que se diferenciam muito. Gosto também do nonsense ligado à linguagem e que passa por Beckett, Joyce e Lewis Carroll. Enfim, isso dá pano pra manga”, sublinha utilizando-se do popular ditado transformado em música por Macalé e Xico Chaves. Já sobre outra polêmica, o autor é enfático. “Djavan é muito maior que Lobão e Thunderbird, vamos combinar. Lobão é um bom compositor e acho que seus discos independentes são infinitamente maiores que a sua discografia feita a partir da década de 1980 ligada às majors. Quanto ao Lobão político e escritor, eu não vou perder meu tempo”, esclarece sobre as críticas que os outros dois fizeram a Djavan no programa de entrevistas que Lobão comandava na MTV, e que Rogério rebateu frente a Thunderbird quando este foi o entrevistado de “Matador de Passarinho”.

Mas Skylab também guarda boas recordações da convivência com Lobão, com o qual, além de se apresentar junto, teve a oportunidade de lançar um álbum na revista que o autor de “Me Chama” comandava. “Quanto à ‘Revista Outra Coisa’, pra mim foi muito importante, não tenho nada a reclamar. Inclusive, faturei o prêmio ‘Claro de Música Independente’ com o SKYLAB V que saiu pela revista”, rememora. Já a poesia simbolista, utilizada por Skylab para defender as letras ditas “incompreensíveis” por Lobão e Thunder na polêmica com Djavan, também é comentada com considerações pelo entrevistado. “Quanto à poesia simbolista, eu não sei o que você exatamente quer dizer. Cruz e Souza não teve nenhuma importância pra mim, mas Mallarmé, Rimbaud, Baudelaire, François Villon, tiveram e são a base da poesia moderna”, exalta. Rogério Skylab lançou livro de sonetos em 2006, pela editora Rocco, “Debaixo das Rodas de um Automóvel”, com seu peculiar acento.

DEBOCHADA
Um dos motins que sempre chamaram a atenção e diferenciaram ainda mais a já pouco usual prosódia de Skylab é a abordagem da escatologia na música brasileira. Sobre esse assunto, o intérprete procura distinguir bem os poemas. “Não sei, mas se você fala de escatologia como os Titãs – tem, aliás, uma histórica música deles composta por Nando Reis, salvo engano – se é essa escatologia a que você se refere, estou fora. De qualquer maneira, a nossa MPB, seja por seu lado xenófobo, seja por sua paródia contida e raramente debochada, capitaneada pelo Sr. Caetano Veloso, sempre me pareceu movida com o freio de mão puxado. Quando você fala, na sua primeira pergunta, de possíveis excessos que eu teria cortado com a minha trilogia dos carnavais, quero entender que você via excessos, quando na verdade era apenas uma tentativa de soltar o freio”, abaliza Skylab que, mais solto que passarinho no mato, não roga contra o cano de caçadores.

“Que isso! Tenho o maior orgulho dessa música por todos os motivos. Não sou ‘Los Hermanos’ que evitava cantar ‘Anna Júlia’. Eu canto sempre ‘Matador de Passarinho’ nos meus shows. E tenho o maior orgulho”, alfineta e compara. E sobre o futuro recorre à saudade e insinua uma possível volta aos cantos das Minas Gerais. “Cara, você fala de BH, eu tenho uma puta saudade do tempo em que fazia shows na ‘OBRA’. Pequenininho, porãozinho… Mas os meus melhores shows se dão nesses redutos. Estou começando a trabalhar no meu próximo disco, o terceiro da trilogia dos carnavais, ao mesmo tempo, trabalhando num outro disco, esse com uma linguagem completamente experimental – aqui a minha grande referência é John Zorn. E, claro, estou divulgando o ‘Melancolia’ e fazendo shows com a minha banda”, alinhava. Skylab rejeita “humor negro”, dispensa o riso, e expõe na internet e na entrevista a insatisfação com o Fluminense. “Me irritam profundamente”, diz sobre a associação América e Natal, time que eliminou sua equipe na Copa do Brasil.

CÍCLICO
Mas o futebol é cíclico, e Rogério Skylab, com mais de 20 anos de carreira e 18 álbuns, entre autorais e participações, ainda é moço, soa como tal, vigoroso, incansável, disposto a mudar de rumo, a não ser que ele me desminta de novo. “Ih, comecei velho. Sou como o Tom Zé, eu não tenho nenhum dom e isso é bom. Nunca se esqueça que, no meu caso, tudo é exercício. Nada é natural”. Talvez até a retórica.

DISCOGRAFIA
1992 – Fora da Grei
1999 – SKYLAB
2000 – SKYLAB II (Ao Vivo)
2002 – SKYLAB III
2002 – Tributo ao Inédito (participação)
2003 – SKYLAB IV
2005 – SKYLAB V
2006 – SKYLAB VI
2007 – SKYLAB VII
2008 – SKYLAB VIII
2008 – Tributo ao Álbum Branco (participação)
2009 – SKYLAB IX (Ao Vivo e em DVD)
2009 – Rogério Skylab em Skygirls
2009 – Rogério Skylab & Orquestra Zé Felipe
2010 – The Best of Rogério Skylab (coletânea)
2011 – SKYLAB X
2012 – Abismo e Carnaval
2014 – Melancolia e Carnaval

Rogerio Skylab

Raphael Vidigal

Fotos: Alexandre Rezende.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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