Entrevista: Jards Macalé

Músico segue como espécime raro e livre na estrada musical 

Músico

Torquato Neto, Emilinha Borba, Debussy, Wally Salomão, Dóris Monteiro, Beethoven, Cazuza, Guimarães Rosa, Radamés Gnatalli, Tim Maia, Glauber Rocha, Jacques Brell, Itamar Assumpção confluem-se no rio JARDS, de ondas sonoras como o “bater de asas de uma borboleta.” “Quero, principalmente, o som do silêncio.”

MACALÉ, apelido de garoto ruim de bola e habilidade no violão, supera definições sobre música. Permanece incapturável e característico, espécime raro em qualquer época: “Joguei pela janela os catálogos todos, samba, funk, música moderna, contemporânea, antiga. A carteira de identidade da música é a própria. Som é som. Não som é não som. E não som também é som. Não entendo essa necessidade desesperada de complicar a compreensão.”

No colo da avó, “uma voz límpida, pequenininha, afinadíssima”, vem a primeira lembrança musical, estendida para a “bela voz da minha mãe, hoje com 91 anos, facilidade natural para tocar piano, sem nunca ter estudado”, e os concertos de ópera no Teatro Municipal aos quais era levado pelo pai, ainda garoto, “calças-curtas”.

Foi a força desse impacto sonoro em sua vida, que levou JARDS MACALÉ a estudar orquestração e composição na PRÓ-ARTE do Rio de Janeiro com o Maestro Guerra-Peixe, análise musical com Stella Sclyar, violão e violoncelo, possibilitando formação erudita. Ao mesmo tempo, era copista de Severino Araújo na rádio Mayrink Veiga. E se especializou nos sopros e percussões da famosa Orquestra Tabajara. “Agora eu queria além dos sopros e das palhetas, as cordas, e fui fazer cópias para o Teatro Municipal”.

Chiquinha Gonzaga enobrecendo as teclas de Radamés Gnatalli fascina o músico, que ressalta: “Não sou tropicalista. Toda minha geração foi ouvinte da rádio Nacional, que tocava música popular e erudita. Radamés Gnatalli foi um músico erudito que inovou as orquestrações da música popular. Para mim, não existem mais fronteiras.”

Ele considera distintamente os integrantes do movimento antropofágico com os quais conviveu: “Fiquei zangado com o Caetano (Veloso), porque ele não colocou os créditos das pessoas que trabalharam com ele no disco TRANSA, – produzido por MACALÉ – mas outro dia nos telefonamos e rimos muito. Tenho o telefone dele desde 1958. Sempre tive. Não gosto de brigar com meus amigos DE VERDADE”. Sobre Gal Costa, arrepende-se: “Falei uma bobagem que não devia ter falado. Mas nunca brigamos. Meus ouvidos estão com saudade da voz da Gal.” E em relação à Gilberto Gil, encerra: “Continua lá, com aquela fala barroca. Eu acho graça.”

Outra briga musical de sua carreira foi com Dori Caymmi: “Ele trocou uma diminuta de uma música minha e eu não gostei. Entrei num lotação e o vi sentado. Fiz o maior escândalo, fingi que era gay, sentei no colo, gritei que tinha sido largado. Depois de um tempo percebi que a diminuta fazia sentido. Ficamos três meses sem nos falar por isso. Falei com ele, imagina se fosse uma aumentada?”

MACALÉ assegura que proibir carnavalé impossível, e se declara como um dos fundadores da festa que teve o primeiro bloco de samba inaugurado por Ismael Silva –“Deixa Falar”- o qual recebeu álbum em parceria com Dalva Torres como homenagem, nos dez anos de sua morte. “Pensei que a gente morresse, mas não. Morrer está fora de moda. Não precisa ser artista, qualquer pessoa tem uma história que na boca de outras continua. As pessoas não morrem, quer dizer, problema delas se morrerem.”

Amigos que se partiram continuam inquebrantáveis na memória de JARDS, personificando materialmente alguns deles à sua frente. Poeta que suicidou, Torquato Neto é um: “Vejo na minha frente. Os gestos, aquela mão meio mole. O timbre da voz.” Ao lembrar-se de outro parceiro, Duda, com quem compôs “Hotel das Estrelas”, MACALÉ recusa a fala do nome da ex-mulher, presente na capa do álbum “Contrastes”: “Quando o disco foi ser editado pra CD, ela criou um barraco para não publicar a foto. Veio a inspiração do Ronaldo Bastos – responsável pelo relançamento – de uma frase da música “Sem Essa”, ‘fazer um álbum de fotografias para depois queimar’. Resolveu botar fogo na foto e deixar só os pequenos lábios.”

Esse amor associado à dor foi o ponto de luz que guiou o poeta Wally Salomão a criar a LINHA DE MORBEZA ROMÂNTICA, presente no segundo disco de JARDS, “Aprender a Nadar”: “A música romântica brasileira sempre foi over, Orestes Barbosa escreveu, ‘a porta do barraco era sem trinco e a lua furando nosso zinco parecia um ESTRANHO FESTIVAL’. Wally queria uma coisa que fosse o over do over. Que exacerba essa dor da música brasileira.”

Das companhias ilustres que encontrou em suas peregrinações, MACALÉ elege Jorge Mautner como uma “pessoa fácil de transar amizade. O difícil é a manutenção. Ele é muito inteligente e rápido. É difícil acompanhar.” Afirma que decidiu “acompanhar só os bons”. E agradece a presença afetiva de Erik Satie, maestro Dino Krieger e o encontro espontâneo com o ídolo Moreira da Silva: “Por sorte, me coube tocar com ele no Projeto Seis e Meia – que promovia shows com duplas de artistas. Esse abraço da capa do disco que dediquei a ele é lindo. Um dos momentos mais…”

Entre seus cantores favoritos lista João Gilberto, Elza Soares e Adriana Calcanhotto. No campo internacional, MACALÉ, que canta em francês, espanhol e inglês, estima Bola de Nieve, cubano. Na literatura, aprecia Lima Barreto, as histórias de René Goscinny e Albert Uderzo, “Astérix e Obélix” e Guimarães Rosa. As artes plásticas lhe são sinônimo de Hélio Oiticica, inventor da palavra “Tropicália”, que criou um penetrável feito em metal e aço para o músico: “Foi uma surpresa. Só fiquei sabendo depois que ele morreu. Ele chamava todos os amigos masculinos pelo feminino. Ele mesmo era muito feminino. E escreveu na obra, ‘dedico ao meu amigo músico Jards Macalé, MA-CA-LÉ-A”.

No filme do diretor Marco Abujamra sobre o artista, que constata a falta do “Lado B – SEXO, DROGAS E ROCK´N´ROLL” – Um Morcego na Porta Principal, o dramaturgo Zé Celso Martinez Corrêaafirma que MACALÉ é “um semi-Deus, um artista do porte de uma Maria Galla, um Niemeyer”. O ex-ministro Gilberto Gil, define que o mesmo “não se preocupou em cuidar da carreira. Em fazer concessões que todos necessitamos”.

A respeito do episódio da música que tem verso inserido no título do documentário, ‘Gotham City’, Jards assume: “Fomos lá para despertar a reação das pessoas. Era um festival ‘nhém nhém nhém’. Entrei vestido numa bata enorme. Os outros músicos estavam com o peito nu, vendas nos olhos, todos fantasiados. Era história em quadrinho falando do momento (plena ditadura militar). Comecei a cantar com a interpretação que pedia a música. O Maracanãzinho inteiro se levantou. Quanto mais vaiavam mais eu enlouquecia. O resultado foi que chegamos anônimos e na manhã seguinte éramos conhecidos no país inteiro.”

Já o álbum “Banquete dos Mendigos”, lançado em ano da comemoração dos 25 anos da proclamação dos Direitos Humanos, nasceu como “uma piada. Todo mundo fazia show beneficente. Resolvi fazer um em auto-benefício. Só depois é que foi incorporada a coisa dos ‘Direitos Humanos’, com trechos da Constituição que tinham a ver com as músicas.” No disco, “Quatro Batutas e um Coringa”, associou a dor como motivação para cantar Lupicínio Rodrigues, Nelson Cavaquinho, Paulinho da Viola, “uma dor mais levemente exposta”, e Geraldo Pereira, “um gozador barra pesada”.

Atualmente, o músico (des)orienta-se ao som da guitarra de Roberto Frejat e a voz anasalada de Luiz Melodia, todos, segundo ele, integrantes de um mesmo circuito, do qual também fazia parte Cazuza, de quem confessa adorar a música: “Acho o maior barato”. Com um currículo recheado de excentricidades salutares, comenta o encontro com Vinicius de Moraes: “musiquei um poema feito por ele no Uruguai, ‘O Mais-Que-Perfeito’, e ele adorou’. E Lobão: “Nos esbarramos no Baixo Leblon de madrugada e no meio da conversa surgiu o assunto de um violoncelo que ele tinha encostado. Perguntou se eu queria, respondi que sim. Oito meses depois chegou encomenda do senhor Lobão na minha casa. Quando viajei para Barcelona comprei as cordas e dei um trato no instrumento. Adoro tocar violoncelo, mas peguei uma tendinite e resolvi doá-lo para uma amiga que dá aula de música no Complexo do Alemão.”

A campanha particular que vem empunhando, numa das únicas vezes que resolveu hastear bandeira em sua vasta carreira, não sofreu abalo da voz do ator e locutor pornochanchadístico (e dionisíaco, diga-se de passagem), Paulo César Peréio, que contestou a inclusão do AMOR na bandeira brasileira proposta por JARDS, sob a reflexão de que crimes são cometidos também em nome do amor: “Amor por princípio, ordem por base e progresso por fim. Eu falei para o Peréio que ele é o tipo de pessoa que precisa andar com um advogado. Ele diz as coisas mais naturais na cabeça dele. Mas com o poder do tom de voz, pode ser muito agressivo ou um mel. Ele vai acabar sendo processado por homofobia”, ri-se o inusitado MACAO, que debocha do técnico de som e questiona aos vendedores da loja de instrumentos se eles entendem o capitalismo: “complicado”, repete a resposta adquirida.

Amante do cinema, ator em filmes de Nelson Pereira dos Santos, como “Amuleto de Ogum”, no qual também foi responsável pela trilha sonora, e dos alunos da UFRJ, “Conceição – autor bom é autor morto”, sibila sinistramente, MACALÉ já gravou 70 horas em vídeo do DVD que vai ser editado pela Biscoito Fino em parceria com o Canal Brasil – e contou também com a ajuda financeira do próprio músico – e sairá em disco: “Quero incluir no roteiro ‘Cachorro, Bandido, Polícia, Dentista’ do Sérgio Sampaio e a prima decadente desse enredo, a ‘Estrupício’ do Itamar Assumpção, colando com ‘Orora Analfabeta’,- do cantor baiano Gordurinha (autor do hit de Jackson do Pandeiro, ‘Chiclete com Banana’) e Nascimento Gomes – fica…bacana”, conceitua a costura profana.

Sem a previsibilidade que se espera de produtos plastificados pela ordem mercadológica da atual doutrina musical explorada em televisões e rádios, Jards Macalé não estipula data de lançamento para o material: “Não tem essa de lançamento. Quando ficar pronto, pronto”. Afinal das contas contra a favor e nos interstícios, seu material é música, não outra coisa parecida (ou nem isso): “Arte é liberdade e criação. Criação necessita de liberdade para se manifestar. Eu voto na criação e na liberdade. Para isso, eu vivo tal qual eu faço minha música, com liberdade, dentro desse quadro fajuto que é essa sociedade distorcida.” Sintetiza alucinante e lúcido MACALÉ. Anárquico, incontrolável, santo, ergue sua voz das profundezas. Ondas sonoras perpassam sua entidade, “Macalé de Todos os Santos, como a Bahia”, assinala o próprio. Segue o ‘Movimento dos Barcos’: “É impossível levar um barco sem temporais, e suportar a vida, como um momento além do cais…”

“Para sua segurança pessoal, não diga que me viu…” Macalé repete ensinamento de Glauber Rocha

Gotham City música

Raphael Vidigal

Publicado no jornal “Hoje em Dia” em 19/06/2011.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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