Entrevista com Arnaldo Antunes: “Lula é um político brilhante”

“O que vemos não é o que vemos, senão o que somos.” Fernando Pessoa [Bernardo Soares]

Uma das obras mais perturbadoras do espanhol Francisco Goya (1746-1828), pintada diante de seu horror com as guerras napoleônicas, traz a inscrição “O sono da razão produz monstros”. Foi “tomado por esse mesmo estado de perplexidade” que Arnaldo Antunes, 59, compôs, logo após o segundo turno das últimas eleições, “O Real Resiste”.

A música dá nome a seu mais novo disco, já disponível nas plataformas digitais. Lançada como single em dezembro, ela teve o seu videoclipe retirado, sem explicações, da grade de programação da TV Brasil. A letra, ácida, afirma em tom de ironia: “Miliciano não existe/ Torturador não existe/ Fundamentalista não existe/ Terraplanista não existe/ Monstro, vampiro, assombração/ O real resiste/ É só pesadelo, depois passa/ Múmia, zumbi, medo, depressão”.

“Na minha cabeça, é inadmissível que as pessoas não apenas se declarem favoráveis a brutalidades, como apoiem um projeto intolerante com a diversidade, as minorias raciais, étnicas e religiosas e que defende a tortura e a censura”, diz Arnaldo. “Os valores que sempre preguei, de preservação do meio ambiente, respeito aos direitos humanos e redução das desigualdades, estão sendo hostilizados. Só pode ser um pesadelo”, completa.

Participante do Festival Lula Livre realizado na cidade de São Paulo em junho de 2019, o cantor diz que “Lula é um político brilhante” e explica os motivos que o levaram a defender a libertação do ex-presidente. “Ele foi preso sem provas, de maneira injusta, para tirá-lo da corrida presidencial. A soltura dele foi uma defesa da justiça e da democracia”, declara Arnaldo, que vê “pontos positivos e motivos para críticas aos governos do PT”. “A questão ambiental, principalmente no que se refere à construção da usina hidrelétrica de Belo Monte (no Pará), foi uma tragédia”, observa.

Arnaldo diz que “a polarização não é mais entre esquerda e direita, mas entre quem defende a civilidade e a democracia e os que querem fechar o Congresso e o Supremo Tribunal Federal”. “A imprensa cultivou uma distorção, como se houvessem dois lados extremistas, quando na verdade só existe um lado extremo, que é a direita que chegou ao poder. Nós passamos por um período de redemocratização sem nenhum risco para a democracia. De repente um universo de mentiras começou a contaminar a população por meio da internet e se criou um sentimento de antipetismo doentio”, afirma.

“Na verdade, isso é um absurdo, você não pode negar fatos como se fossem divergências ideológicas. Dizer que não existe aquecimento global, que a Terra é plana, que o nazismo é de esquerda, que os ambientalistas colocaram fogo na Amazônia e que os africanos são os responsáveis pela escravidão, coisas muito primárias. Isso vai sendo repetido e as pessoas passam a acreditar em kit gay, que a esquerda vai implantar a pedofilia e etc.”, reclama o músico, que diz ainda “esperar que a população acorde”. “Precisamos conservar o que nos resta de democracia”, conclui.

Raphael Vidigal

Fotos: Marcia Xavier/Divulgação.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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