100 anos de Virgínia Lane, a voz de “Sassaricando”

“Toda ditadura é casta e contra a vida; toda manifestação de vida representa, em si, um inimigo de qualquer regime dogmático.” Reinaldo Arenas

As pernas de uma mulher eram o máximo da sensualidade nos anos 50. Mas Virgínia Lane mostrou muito mais, como se comprova em fotos e arquivos de áudio e vídeo. A “Vedete do Brasil”, título que recebeu diretamente das mãos do então presidente Getúlio Vargas, combinava os atributos físicos a um talento artístico quase nato, esbanjando carisma e espontaneidade. Nascida há um século, Virgínia colecionou histórias curiosas e lançou um clássico carnavalesco que nunca saiu da boca dos foliões. Com suas pernas longilíneas e sorriso fácil, ela era a própria representação da festa mais popular do país.

Marchinhas
Virgínia estreou como cantora aos 15 anos, no programa “Garota Bibelô”, de César Lacerda, na rádio Mayrink Veiga. Em 1946, deu início à carreira fonográfica com um compacto que trazia a marchinha “Maria Rosa”. Ao longo de sua trajetória, gravou inúmeras marchinhas, inclusive assinadas por ela mesma, como “Marcha do Fiu-fiu” e “É Baba de Quiabo”. Mas a música mais famosa de sua vida foi mesmo “Sassaricando”.

Sassaricando
Composta sob encomenda para a peça “Jabaculê do Penacho”, a marchinha “Sassaricando” era destinada a animar o quadro “A Dança do Sassarico”. No entanto, ela agradou tanto ao produtor Valter Pinto que o espetáculo mudou de nome para “Eu Quero Sassaricar”. Interpretada por Virgínia Lane foi o maior sucesso do Carnaval de 1952. Mas não ficou restrita ao período. Em 1987, batizou novela de sucesso da Globo, com Cláudia Raia como destaque. Em 2007, “Sassaricando” virou musical com Eduardo Dussek e Soraya Ravenle no elenco. De autoria de Luiz Antonio, Oldemar Magalhães e Jota Júnior, que utilizou o pseudônimo Zé Mário, a música foi regravada por Rita Lee e Jorge Veiga.

Malícia
O sucesso foi tamanho que a expressão “sassaricando” entrou no dicionário Houaiss, que a definiu como sinônimo de “dançar ou andar sacudindo o corpo; rebolar; saracotear; folgar; brincar”. Além da célebre marchinha, Virgínia deu voz a outras composições cheias de malícia e duplo-sentido, como “Marcha da Pipoca” e “Bom Mesmo É Mulher”.

Os Trapalhões
Com o estouro de “Sassaricando”, Virgínia logo chamou a atenção da televisão e foi convidada para participar do programa “Espetáculos Tonelux”, da TV Tupi do Rio. Em 1979, ela esteve presente em um quadro do programa “Os Trapalhões”. Na TV, ainda participou das novelas “Belíssima” (2006) e “Sete Pecados” (2007), com mais de 80 anos.

Chanchada
No cinema, a imagem de Virgínia também ficou gravada. Ela foi presença constante em chanchadas da Atlântida e da Cinédia, e atuou em comédias carnavalescas ao lado de reconhecidos humoristas, como Grande Otelo, Oscarito e Zé Trindade. “Alô, Alô, Carnaval”, “É Fogo na Roupa” e “Vai que É Mole” fizeram muito sucesso no período.

Musa
O termo vedete nasceu na Itália para designar a maior atração ou estrela de um espetáculo. No Brasil, algumas vedetes de destaque foram Luz del Fuego e Elvira Pagã. Porém, é inegável que Virgínia foi a grande “Vedete do Brasil”, título que faturou em 1950. A artista posou diversas vezes exibindo suas curvas com poucas ou quase nenhuma roupa.

Romance
No auge da fama de Virgínia, o presidente do Brasil era Getúlio Vargas. Os rumores de que Getúlio e Virgínia foram amantes durante anos eram endossados pela própria cantora, que chegou a declarar que “a barriguinha dele (Getúlio) atrapalhava, mas tudo se resolvia na horizontal”. Como se não bastasse, Virgínia defendeu até o fim da vida que o ex-presidente não cometera suicídio, mas fora assassinado, e que ela estava com ele na cama no dia do crime. Na versão da vedete, ela escapou ao correr pelada do Palácio do Catete.

Raphael Vidigal

Fotos: Arquivo/Divulgação

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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