Entrevista: As surpresas musicais de Mariana Arruda

“Mas nem uma mulher em chamas
Cede o beijo assim de antemão
Há sempre um tempo, um batimento
Um clima que a seduz
E eis que nada mais se diz
Os olhos se reviram para trás
E os lábios fazem jus” Chico Buarque

Mariana-Arruda-Francisco

Mariana Arruda surpreende. Inclusive para quem já a conhece. Atriz do grupo “Maria Cutia” desde 2006, ela estreia o espetáculo em que homenageia Chico Buarque, uma de suas maiores, senão a maior, paixão. E canta, entretém, diverte. A busca de originalidade e a mescla em sua vida são duas constantes. “Minha paixão por Chico Buarque vem desde cedo. Quando criança ouvia suas canções cantadas por Elis, Gal e Nara. Esse amor foi crescendo e, em 2005, a paixão tornou-se objeto e o Chico foi tema da minha dissertação de mestrado na Faculdade de Letras da UFMG”. “Francisco”, o atual projeto, foi realizado através do financiamento coletivo na plataforma “Variável 5”. Mariana retorna, então, ao início desse processo que desemboca em apresentação criativa.

“Foram dois anos intensos, ele e eu, suas tantas letras e histórias. Sua obra, inúmeras outras vezes, foi também motor inspirador dos meus experimentos de cena nas pesquisas no teatro, dos meus cartões de aniversário, das dedicatórias de livros… finalmente, chegou o dia de celebrar esse amor platônico”, sublinha. Mas Mariana não está sozinha nesse embalo. E o afeto aparece também para conduzir as participações. “O show começou a surgir nas minhas aulas de canto com a Babaya. Convidei o Leandro Aguiar que também é professor e tem uma história com a música e o teatro, assim como eu. Ele foi do grupo ‘Ponto de Partida’ e escolheu a dedo cada músico para compor a banda e, já no primeiro ensaio, vivemos uma sintonia plena”, garante.

DO CABARÉ AO SAMBA
Um dos momentos mais delicados do espetáculo acontece com a entrada em cena de Creusa Dias, mãe de Mariana que divide com a entrevistada os versos de “A Noiva da Cidade”, um dos inúmeros achados do cancioneiro menos óbvio de Chico Buarque que compõe o show. Leonardo Rocha também dá o ar da graça em participação inspirada. Para obter esse resultado, Mariana ressalta a presença de Lira Ribas. “Pra trabalhar o olhar cênico, veio a Lira Ribas que assumiu toda a direção artística do show e dos figurinos e cenário, este em parceria com a Gabriela Dominguez. Lira participou de toda a criação do conceito do show. Juntas, trabalhamos a definição dessa viagem musical. Começando por um tom mais cabaré antigo parisiense e chegando ao samba”.

Sofisticado, o espetáculo une três das paixões de Mariana. Estão lá o teatro, a música, e Chico Buarque, numa amálgama. Não se pode dizer que a artista limita-se a interpretar Chico Buarque. Ela, literalmente, se entrega a ele de corpo e alma, inclusive ensaiando um strip-tease a esse amor tão platônico quanto necessário. “O repertório e o caminho de interpretação de cada canção foi feito nas aulas com a Babaya. Escolhi, depois de um tempo nesta pesquisa, fazer um recorte em canções do Chico com o eu lírico masculino. São músicas que cantam diferentes relações de amor entre amantes, o início de uma relação ou o fim dela, canções de malandros machistas ou de românticos apaixonados, ou o amor do Chico pela arte, pelo ofício do artista”, sintetiza.

NOSSA HISTÓRIA DE AMOR
“Era um vislumbre ter o Chico ali neste show cantando essa ‘nossa’ história de amor, entre nós dois e entre a arte”, confessa Mariana. Esse movimento de aproximação entre intérprete e compositor é fruto de várias nuances. “A Lira (diretora do espetáculo) estudou a palheta de cores, o tom e clima do cenário, dos figurinos. E, a partir das minhas propostas de interpretação das canções e dos arranjos do Leandro, desenhamos juntas a cena, a movimentação, a definição dos 3 microfones e suas atmosferas, os porquês e as trocas de roupas. Foi uma delícia criar em parceria com a Lira, uma grande diretora e uma artista múltipla. Ela é sincera, criativa, ousada. Não tem medo dos riscos. Foi uma grande alegria este encontro”, valoriza.

Outra prova de fogo das envolvidas está na canção “Lábia”. “É a única música no feminino, da trilha do musical ‘Cambaio’, foi gravada pela Zizi Possi, e seria uma espécie de prefácio”, explica Mariana. Entre os versos da canção de doce sensualidade destacam-se os finais: “Mas nem uma mulher em chamas/Cede o beijo assim de antemão/Há sempre um tempo, um batimento/Um clima que a seduz/E eis que nada mais se diz/Os olhos se reviram para trás/E os lábios fazem jus”. Com ousadia e muita beleza em cena, Mariana Arruda transmite o recado da liberdade em atuação que arrepia pela voz e gestos. Nisso o teatro lhe faz cantos. “Nossa! O teatro entra a todo tempo quando canto. Assim como há tempos o canto entra a todo tempo no teatro que escolho fazer”, confirma.

MÚSICA & TEATRO
“Não tem como separar em gavetas. Vivo sempre em busca de um teatro sincero, que se aproxima dos personagens que faço com verdade, muito até pela pesquisa que faço como palhaça e neste caminho da descoberta pessoal e intransferível do palhaço de cada um”. Com estas palavras Mariana define um pouco de sua relação com a arte. Há tempos ela é a palhaça Begônia no grupo “Maria Cutia”. Mas mais do que isso, segue em busca de certa essência da vida. “Foi um grande privilégio dar voz a estas letras do Chico, imaginar essas situações e tentar cantar com verdade cada uma delas. Passei por emoções que nunca tinha experimentado no teatro e isso foi um exercício maravilhoso como atriz, como cantora, como cantriz, como pessoa”, enumera.

Para atingir esse resultado, Mariana procurou referências em experiências diversificadas. “Há dois anos estudo muito o melodrama. Acho que, inconscientemente, isso me influenciou muito. O melodrama, gênero das grandes emoções, da raiva, da paixão, da tristeza profunda… E talvez tenha escapulido alguns momentos de palhaça, será?”, questiona. E a seguir assume a influência de olhares próximos. “Muita gente me falou isso depois da estreia. Que em muitos momentos viram a Begônia, fazendo graça. O que é natural, afinal, a Begônia vive em muitas facetas minhas. Que bom saber que ela também estava presente ali, mesmo sem o nariz vermelho”, comemora. O poder de identificação das músicas de Chico permanece com Mariana.

SENTIMENTO DAS CANÇÕES
Além da admiração a Chico Buarque, há outra estrela que pontua o céu colorido de Mariana. “Gosto muito de ver a teatralidade na canção. Acho que sempre senti muito isso nas interpretações da Elis. Não era um cantar só da melodia, mas do sentimento das canções. E disso eu sempre gostei muito”. A abreviação do nome artístico da cantora, poupando-lhe o sobrenome, destaca a intimidade com Elis, a Regina, por Mariana e pelo Brasil. E se essa história começou em algum lugar, a atriz garante que nem tinha dentes na boca ainda e já ensaiava para o espetáculo de sua vida. “Canto desde pequena. Menininha, ainda banguela, dava canja na praça lá em São Francisco, cidadezinha na beira do Rio, no Norte de Minas, onde cresci”, relembra.

Daí para o meio da empreitada Mariana deu vários pulos diferentes, sempre dispensando aquele roteiro pré-definido traçado pela sociedade e que tende a eliminar uma parcela considerável de possibilidades. “Sempre cantei em coral, nas festas da escola, na adolescência, quando morei em Brasília, tive banda de rock. Aqui na época da universidade tive bandas de bossa nova. Aí, quando comecei a estudar teatro lá no Palácio das Artes passei a cantar só em cena”. A reviravolta ocorreu na fundação do grupo de teatro de rua “Maria Cutia”. “Passei a associar o teatro e a música, numa pesquisa que chamamos de música-em-cena. Gostamos tanto desse diálogo que para criar espetáculos começamos pelas canções e adoramos cantar e tocar para contar histórias”.

VONTADE DE MUDAR O MUNDO
Se havia uma pedra no meio do caminho, o artista a pintou de vermelho e fez um nariz de palhaço. E este não é, necessariamente, o final da história. Mariana Arruda também tem tropeços em sua trajetória, que podem significar o medo ou a glória, depende do olhar. “Neste caminho, fiz vestibular para comunicação, me formei. Fiz mestrado em Literatura… pra no fim, largar tudo pra ser palhaça”, destaca, e aproveita a deixa para aquela que talvez seja a revelação mais importante de sua vida, principalmente para ela. “É um caminho longo até se fazer a escolha fatal: sou artista. O mundo a todo tempo vai te desviando. Acho que demorei pra ter a clareza da arte como ofício, como profissão. Hoje vivo exclusivamente como artista”, afirma.

“Nunca vou ser rica na conta bancária, mas tenho o maior tesouro de fazer o que acredito e ser feliz no meu ofício. Vivo na estrada, em busca do encontro com o público, com diferentes realidades. Um cotidiano repleto de busca pelo sincero, pelas questões que queremos falar, pelo rir e chorar, pela vontade de mudar o mundo”. Pouco a pouco Mariana vai tocando corações e modificando as pessoas que preenchem o planeta. Pode ser uma saída, embora para ela possa ser também entrada, começo, meio, fim, neste amálgama entre canção e Chico, Buarque e Francisco, teatro e vida, e um pouco de música também, muito além do que um fundo, a arte ocupar a essência é uma conquista diária, raramente com o reconhecimento devido, mas teimosa e decidida.

INCENTIVO À CULTURA
Inserido em um contexto, o entorno raramente favorece ao artista, que luta para prevalecer aos espinhos. Em Belo Horizonte e pelo Brasil não há exceção à regra. “O cenário cultural fica cada dia pior. As Leis de Incentivo à Cultura não podem ser as únicas soluções pra se produzir, até porque está tudo entrando em colapso, como se concretizou este ano a LEIC. É estranho pensar que o recurso destinado à cultura vai pouquíssimo para os artistas, grupos e companhias que a todo ano ameaçam fechar suas portas e acabar com seus projetos por falta de patrocínio”, avalia e critica Mariana, na busca de alternativas. “As iniciativas de financiamento coletivo podem ser um caminho para tirar do papel vontades artísticas”, sugere e relata sua experiência.

“Hoje no Brasil não se consegue fazer arte por bilheteria. Os ingressos não pagam nem as despesas”, lamenta. Entre os pontos positivos da nova maneira de objetivar a arte no país, está a proximidade. “O que achei mais interessante do financiamento coletivo é que ele conta, em sua maior parte, com suas relações de afeto. Tive como apoiadores amigos de infância que não vejo há 20 anos, ex-colegas de faculdade que não vejo há mais de 10 anos, amigos de todos os cantos do Brasil, como Pará, Rondônia, Curitiba, Recife, Porto Alegre, Natal, e de fora, do Canadá, Suíça, França, muitos tios e tias e amigos da minha mãe que me viram crescer, meus ex-alunos dos cursos brincantes, aulas de palhaço, dos meus tempos de professora do UniSol e no projeto Rondon, fãs do ‘Maria Cutia’ e até de gente que nem conheço pessoalmente”, alegra-se.

FINANCIAMENTO COLETIVO
Muitos artistas consagrados aderiram à prática do financiamento coletivo, o que evidencia a falência de um modelo de produção ainda em vigência no Brasil. Se é necessário repensar novos caminhos também é indispensável celebrar experiências positivas. “Cada contribuição que entrava era como um ato enorme de afeto. É uma aposta que se faz naquele artista, exposto ali, em busca de recurso pra fazer sua arte. Confesso que foram 40 dias de muita ansiedade, com dúvidas a todo tempo se alcançaria a meta”, assume Mariana quando questionada se aconselha o método. É para os fortes e persistentes, deixa bem claro. Já com esta arte realizada, Mariana não para e avisa de antemão das novas estripulias, que como sempre unem teatro e música.

“No segundo semestre, estreio com o ‘Maria Cutia’ o melodrama ‘Ópera de Sabão’, com direção do Eduardo Moreira e dramaturgia de Raysner de Paula. Depois circulamos com esse trabalho pelo interior do estado. Este ano vamos também para o interior do Piauí e do Pará, na turnê ‘Do Xingu ao Parnaíba’ com nosso Shakespeare de rua ‘Como a Gente Gosta’. Temos também espetáculos agendados em praças e parques de BH e festivais pelo Brasil. Fico sonhando com formas de produzir mais vezes o meu FRANCISCO por aí. Espero que dê certo. Quero fazer pelo menos mais uma temporada em BH este ano”, avisa para deleite dos fãs que já aguardam ansiosos. E para que saibamos o que Mariana vê quando não a vemos, ela lista preferências abaixo.

TODAS AS ARTES
“Na literatura, Chico Buarque, é claro, o que rendeu até minha dissertação de mestrado no campo da teoria da Literatura, Mia Couto e Adriana Falcão. Nas artes plásticas, desde menina adorava os Impressionistas em especial Renoir.  Na música, sempre fui Bossa Nova. Um tanto tropicalista também. Adoro Tom Jobim, Grupo Rumo, lá dos anos 90, gosto das letras do Arnaldo Antunes. E sempre tive loucura pela Elis desde criança. Também Nara, Gal e Marisa Monte. E amor pleno pelo Chico”, faz questão de reiterar, respira e volta a novas paixões. “No teatro, vejo tudo que posso sempre. Adoro teatro, principalmente teatro feito com sinceridade, que busca a relação com o público e não a vaidade do artista”. Nesta seara, Mariana elege alguns nomes.

“Gosto muito do Galpão, dos Clowns de Shakespeare, grupo de Natal, dos Palhaços Trovadores, grupo de Belém, dos nossos conterrâneos do Luna Lunera, Atrás do Pano, e Cia Brasileira, grupo de Curitiba. Adoro tudo que vi com texto do Jô Bilac, gosto de ver montagens das comédias do Shakespeare, gosto das direções do Aderbal Freire-Filho, do Gabriel Vilela, Eid Ribeiro, Cida Falabella, Chico Pelúcio, Rodrigo Robleño e do meu querido Eduardo Moreira. Tem também as palhaças Gardi Hutter, da Suíça, e Lila Monti, da Argentina, que gosto bastante. Por mim, ia ao teatro todo dia. Sou daquelas que se emociona, chora. Gosto de ver teatro que eu tenha vontade de fazer. Gosto de ver montagens totalmente diferentes do que pesquiso. E, é claro, adoro quando o teatro e a música se encontram”. Mariana é eficaz ao demonstrar, vez outra, que opções não faltam, e o tédio é o deleite para os desatentos.

Mariana-Arruda-entrevista

Raphael Vidigal

Fotos: Tati Motta.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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