Crítica: musical “Samba, Amor e Malandragem” aposta no som e na caricatura

“Deixa a praça virar um salão, que o malandro é o barão da ralé…” Chico Buarque

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O Brasil é um país prodigioso na caricatura, e como tudo o que é legitimamente popular, ou seja, ascende desta classe numerosa para a mínima, foi logo taxada por nossa pretensiosa “elite intelectual” como uma “arte menor”. Daí a similaridade com o samba, combatido porque associado à malandragem, quando tinha para a classe dominadora sinônimo de bandido. Tais relações políticas também aparecem no espetáculo dirigido por Kalluh Araújo, que atua e dá conta dos figurinos e cenário. Este, aliás, parece inspirado no tradicional “Bar do Lucas”, na capital mineira. Outra constatação que atenta para o fato é a utilização do nome do lendário garçom Olympio, interpretado, de forma cativante, por Luiz Gomide.

Se o princípio da caricatura é exagerar no traço, ou seja, carregar na tinta afim de extrair o riso, pelo caráter prioritariamente satírico que sempre teve, fica claro que atende melhor ao espetáculo nos momentos de humor. Boas risadas também resultam do talento para o improviso, especialmente do protagonista vivido por Jefferson de Medeiros. O batismo escolhido, aliás, leva a outra apropriação, desta vez do famoso Vadinho de “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, obra literária de Jorge Amado recontada no cinema, no teatro e na televisão com enorme sucesso. Quando usada para emocionar, no entanto, a caricatura resvala no melodrama e perde o poder de crítica dos costumes. Fica conformada, como se sublinha-se os estereótipos.

A fragilidade da trama é compreensível. Ela serve apenas como pano de fundo para que desfilem, na primeira ala, os números musicais que, de Chico Buarque vão a Assis Valente, passando por Tom Jobim, Zé Kéti, Gordurinha, Bezerra da Silva, João Gilberto, Caetano Veloso e até pagode. Aliás esse é um dos méritos do musical. Ao colocar o “samba” no título este não funciona como algema, mas sim um álibi para usar de toda a liberdade possível e passear pelo samba-rock, o samba-canção, o samba de breque, o samba-repente e todos aqueles ritmos e estilos musicais que sofreram influência desta matriz, ou seja: tropicália, bossa nova, rock nacional. O que o espetáculo produzido por Pedro Paulo Cava pretende mostrar é que o samba é o berço de diversas manifestações culturais do país, todas legítimas e sensíveis.

Ao se revezarem entre a parte musical e a dramatúrgica, fica nítido que ao time masculino falta estofo vocal, compensado pela atuação, enquanto ao time feminino ocorre o contrário. As exceções são Luiz Gomide e Júlia Borges, que jogam bem nas duas posições. Já Gerson Marques é notoriamente um instrumentista. E à parte instrumental cabem os mais rasgados elogios, inclusive pela inventividade, por sair do lugar comum e dar voz ao berimbau dos afro-sambas de Vinicius de Moraes e Baden Powell, além de tirar som de uma vasilha de barro e imitar passarinhos. E como a música se impõe na maior parte do tempo, ao final o saldo é positivo. Pois não foi sem uma dose de radicalismo que Miles Davis disse: “existe a música negra americana, a música erudita europeia e a música popular brasileira”. Embora tenhamos na caricatura nomes de peso como J. Carlos, Juarez Machado, Ziraldo e os irmãos Caruso, a música ainda é, sem dúvida, a nossa arte mais expressiva e popular, a única a ser reconhecida além-mar.

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Raphael Vidigal

Fotos: Guto Muniz.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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