“É um grito de liberdade contra tudo que oprime”, diz diretor de “Bixa Travesty”

“Não respondo de medo. De medo da pressa dos inteligentes que arrematam a frase antes que ela acabe. E porque não tem resposta. Qual o segredo por trás disso tudo? Como te digo que desejo sim meu cônjuge, meu par, que não proclamo mas meu corpo pêndulo nessa direção? Que meu par é quem quer saber e dá, a bênção, as palavras: em nome do pai, e da filha, qual é o endereço? o interesse? o alvo do raio? a vida secreta do sr. Morse? Alguém viu – o sossego do urso? Alguém ficou fraco diante de sua mãe? Alguém disse que é para você que escrevo, hipócrita, fã, cônjuge craque, de raça, travestindo a minha pele, enquanto gozas?” Ana Cristina Cesar

Uma luva metálica de unhas pontiagudas usada por Ney Matogrosso na época do grupo Secos & Molhados é apresentada no documentário “Bixa Travesty” como um amuleto dado pela amiga e parceira Jup do Bairro para Linn da Quebrada, 29. A revelação do encontro entre ídolo e fã, no entanto, só acontece ao final do longa-metragem. “Ser recebida pelo Ney com tanto carinho e generosidade representa muito. A importância se dá, justamente, por ser um encontro de gerações, entre o que eu venho propondo na música agora e o que o Ney continua realizando com o seu corpo, sua força e sua coragem”, exalta Linn.

Focado na trajetória de Linn, que também participou da roteirização, “Bixa Travesty” estreia em BH, no Cine Belas Artes, no dia 28 de novembro. Mas o caminho, até aqui, não foi fácil. Lançado no Festival de Berlim no ano passado, ele recebeu o prêmio Teddy de melhor documentário. No Festival de Brasília, foi novamente premiado, dessa vez na categoria melhor filme de público, concedido pela Petrobras para fomentar a distribuição. No entanto, com a eleição de Jair Bolsonaro e a troca de governo, a premiação foi suspensa, como conta Kiko Goifman, que dirigiu o filme ao lado de Claudia Priscilla.

1 – Como vocês conheceram e o que os instigou a produzirem um filme com Linn da Quebrada como personagem?
Conhecemos a Linn em 2015, durante uma pesquisa sobre coletivos de arte que se apropriavam das ruas para discutir gênero através de performances ousadas e provocativas. Na época, Linn fazia parte do Coletive Friccional. A partir daí, começamos a acompanhar sua vida através das redes sociais e encontros ocasionais. A decisão de fazer um filme veio quando nos deparamos com a cantora Linn da Quebrada, num show no centro de São Paulo. Percebemos que estávamos diante de uma artista contemporânea, que trata de assuntos atuais de uma forma original. Uma artista que usa o próprio corpo como arte. Decidimos fazer um filme pautado na ideia de liberdade de comportamento e do corpo. O discurso em forma de corpo foi nos atraindo, fomos entendendo que Linn e outras ativistas trans colocam em dúvida o que até aqui foi encarado como natural. Escancaram a fragilidade dos nossos corpos tidos como normais. A partir do momento que nos deparamos com esses corpos desobedientes, podemos ver o mundo além das caixas do binarismo que nos foram impostas. Linn constrói um corpo novo, que extrapola os limites do que foi definido como masculino e feminino.

2 – Quais critérios definiram as escolhas narrativas do filme?
Propusemos uma criação coletiva, um trabalho horizontal de trocas de ideias e conceitos. A ideia de convidarmos a Linn para estar ativa criativamente no filme vem da percepção de sua arte, que se nutre da sua história de vida, da sua subjetividade. Achamos importante que ela também pudesse decidir como seria retratada numa narrativa fílmica. Escrevemos um roteiro que atravessa as bordas do cinema documental, utilizando elementos ficcionais para o filme. Além dos shows, o filme traz a intimidade da personagem. Linn indicou personagens e também lugares para filmagens. O filme registra encontros de Linn com pessoas que compõe a sua rede afetiva, seus amigos e a sua mãe. Além disso, criamos uma dinâmica que estimulava uma produção contínua de ideias ao longo das filmagens. Muitas cenas que foram feitas neste impulso criativo sobreviveram na montagem final. São olhares de pessoas diferentes que compõe esse filme.

3 – O que significa lançar “Bixa Travesty” no Brasil de Jair Bolsonaro?
Existe uma onda conversadora, moralista, não somente no Brasil. São evidentes alguns desejos de retrocessos de conquistas de direitos. Falar desse tema hoje é urgente, estamos diante da luta por direitos de pessoas que sofrem violências simbólicas e físicas diariamente. O Brasil é o país que mais mata travestis e pessoas trans no mundo. A expectativa de vida dessas pessoas é de 35 anos, menos da metade da média nacional, que é de 75 anos. “Bixa Travesty” é um filme sobre esses corpos políticos que, para muitos, inclusive para o presidente Bolsonaro, não deveriam ocupar espaços públicos. “Bixa Travesty” é um grito de liberdade contra tudo que oprime, contra tudo que tenta reduzir os entendimentos dos corpos à ideia heterocisnormativa, contra tudo que violenta os direitos humanos e contra todos que querem calar as diversidades. O filme foi lançado no Festival de Berlim no ano passado, onde recebeu o prêmio Teddy de melhor documentário e seguiu com uma carreira de premiações dentro e fora do país. Importante dizer que, no Festival de Brasília, recebemos o prêmio de melhor filme de público concedido pela Petrobras para a distribuição do filme e, com a troca de governo, o prêmio foi cancelado. As negociações seguem agora juridicamente. Diante disso, começamos a tentar outros apoios para o lançamento. Isso demorou e o filme entrou em outros países antes de chegar aqui, como Argentina, França e Reino Unido. Agora, finalmente, estaremos em cartaz e esperamos que esse filme seja um instrumento político e simbólico para a garantia da liberdade de expressão nesse país.

Raphael Vidigal

Fotos: Marie Rouge; e Cia. de Foto/Divulgação, respectivamente.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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