10 criadores de vanguarda da música brasileira

*por Raphael Vidigal

“Mínimo templo
para um deus pequeno,
aqui vos guarda,
em vez da dor que peno,
meu extremo anjo de vanguarda.” Paulo Leminski

O júri formado por Nara Leão, Décio Pignatari, Júlio Medaglia, Roberto Freire e Rogério Duprat elegeu “Cabeça” como a vencedora do Festival Internacional da Canção de 1972, mas o compositor Walter Franco jamais recebeu o prêmio. No intervalo da apresentação, as vaias estrondosas da plateia e a presença de militares do regime ditatorial resultaram na remoção do júri, e o primeiro lugar acabou com “Fio Maravilha”, de Jorge Benjor, interpretada por Maria Alcina. O episódio é elucidativo do tipo de música que Walter Franco produziu. Morto no último dia 24 de outubro, ele renegou a vida inteira o rótulo de maldito, colado em artistas inconformados que encheram a música brasileira com trabalhos experimentais e de vanguarda.

JARDS MACALÉ (1943)
Vestido de Batman em plena ditadura militar, o carioca Jards Macalé conseguiu a sua vaia consagradora ao subir no palco do Festival Internacional da Canção de 1969 para apresentar “Gotham City”, parceria com Capinam que desafinava o coro dos contentes com estridência. Em 2019, Macalé lançou “Besta Fera” e manteve o espírito rebelde e desafiador.

WALTER FRANCO (1945-2019)
Ao ter todas as suas músicas censuradas, Chico Buarque lançou, em 1974, “Sinal Fechado”, disco de intérprete em que gravou “Me Deixe Mudo”, de Walter Franco. Alice Caymmi deu uma nova versão para a canção em 2019. Com 6 álbuns lançados, Franco deixou a promessa de um novo trabalho de inéditas e uma biografia escrita pelo jornalista e crítico Thales de Menezes.

ITAMAR ASSUMPÇÃO (1949-2003)
Artífice da Vanguarda Paulista, Itamar Assumpção concebeu uma obra que trazia outras linguagens para dentro da música, como o teatro e as artes plásticas. Em suas letras, ele abordava questões existenciais, sociais e políticas, amparado por uma sonoridade que privilegiava o canto falado. Com 12 álbuns gravados, ele realizou uma homenagem a Ataulfo Alves em 1996.

ARRIGO BARNABÉ (1951)
Ícone da Vanguarda Paulista, o paranaense Arrigo Barnabé vinha de uma formação erudita, que ele levou para a música popular, ao realizar uma mistura com o universo das histórias em quadrinhos. A música dodecafônica foi outra referência utilizada. Em 1980, Arrigo colocou na praça o conceitual álbum “Clara Crocodilo”. Em 2011, ele homenageou Lupicínio Rodrigues.

CIDA MOREIRA (1951)
Com forte veia dramática, a paulista Cida Moreira sempre escolheu canções que privilegiassem essa característica. Ao longo da trajetória, ela primou por um repertório que contemplava Brecht, Tom Waits, Amy Winehouse, entre outros, passando pelo blues, jazz, música de cabaré e MPB. Em 2019, ela estreou um espetáculo em tributo ao compositor capixaba Sérgio Sampaio.

TETÊ ESPÍNDOLA (1954)
A cantora sul-mato-grossense iniciou a carreira no mercado fonográfico com o disco “Tetê e o Lírio Selvagem”. Com uma emissão aguda e um alcance vocal impressionante, Tetê Espíndola criou canções ligadas à natureza, em que explorava esse ambiente em discos como “Piraretã”. A intérprete foi a primeira a lançar uma música de Arrigo Barnabé, com “Tamarana”, em 1980.

ROGÉRIO SKYLAB (1956)
Abusando da escatologia e do niilismo, o carioca Rogério Sklyab sempre negou a pretensão de provocar o riso com suas canções. Com a série de dez discos intitulada “Skylab”, o músico criou aquele que é o seu único sucesso popular, “Matador de Passarinho”, que batizou um programa apresentado por ele no Canal Brasil. Em 2018, Skylab deu início ao projeto “Trilogia do Cu”.

FAUSTO FAWCETT (1957)
Com sobrenome artístico inspirado na atriz norte-americana Farrah Fawcett, Fausto já trazia na gênese de seu trabalho o que é hoje conceituado como performance. Colocando no mesmo liquidificador funk e filosofia, Fausto Fawcett compôs, nos anos 80, canções que tratavam de sexo e violência, como o hit “Kátia Flávia, a Godiva do Irajá”, do famoso refrão: “Calcinha!”.

CARLOS CAREQA (1961)
Nascido em Santa Catarina, Carlos Careqa morou em Berlim e Genebra, onde iniciou sua carreira. Em 1993, ele estreou em disco com “Os Homens São Todos Iguais”, que trouxe as participações de Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, Cida Moreira e Tetê Espíndola. Com composições recheadas de ironia, ele lançou, em 2013, “Palavrão Cantado”, disco infantil para adultos.

LUÍS CAPUCHO (1962)
Conterrâneo de Roberto Carlos e Sérgio Sampaio, o capixaba Luís Capucho nasceu em Cachoeiro do Itapemirim. Em 1996, ele foi diagnosticado com Aids e, no mesmo ano, estreou no disco coletivo “Ovo”, com a canção “O Amor É Sacanagem”. Em 1999, Cássia Eller regravou “Maluca”, de sua autoria. Em suas canções, ele fala abertamente sobre a homossexualidade.

Fotos: Marcelo Macauê; e Alexandre Rezende/Divulgação, respectivamente.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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