“É necessário ter conteúdo para não gerar uma música vazia”, diz cantora Lívia Itaborahy

“Mas o amor nascente aguçou nela o senso da beleza e ela jamais esquecerá aquela música. Toda vez que a ouvir, ficará emocionada. Tudo o que acontecer em torno dela nesse momento ficará aureolado com o brilho daquela música, e será belo.” Milan Kundera

Estreante no mercado fonográfico, a cantora Angélica Duarte decidiu homenagear Caetano Veloso em seu primeiro EP. “Odara” apresenta três músicas do irmão de Maria Bethânia. Apesar do caráter de tributo, Angélica garante o vigor e a atualidade do trabalho. “A gente homenageia os músicos que os nossos pais escutavam porque eles são importantes para o que a gente faz agora. A Tropicália abriu muitas portas para que a gente continue se reinventando”, declara a cantora.

O mineiro Octavio Cardozzo seguiu a mesma linha. Em 2019, ele coloca na praça o seu segundo álbum. “Sertão Elétrico” é baseado no show homônimo, onde cantou músicas de Bethânia. “Hoje estamos mais perto dos artistas e poderíamos dividir o line-up de um festival com Caetano e Gil, por exemplo”, afirma Cardozzo. Também mineira, Lívia Itaborahy dedicou show a Ivan Lins. “Reverenciar um trabalho, apesar de não romper, traz um novo olhar, que é dado a partir do recorte que se faz daquele artista”, afiança Lívia.

Para celebrar o centenário de Jacob do Bandolim, festejado em abril desse ano, Hamilton de Holanda preparou um box especial, com nada menos do que quatro discos em que contempla toda a obra do mestre do instrumento. “Quando surgiu o (violonista) Raphael Rabello foi um sopro de renovação no choro, mas, normalmente, é um estilo que pende mais para a manutenção, porque tem 150 anos, é um clássico, como uma Mona Lisa”, compara, em referência à pintura de Leonardo da Vinci.

O violonista mineiro Lucas Telles, responsável pelos arranjos do disco “Waldir Silva em Letra & Música” e que estreou com seu grupo Toca de Tatu homenageando Radamés Gnatalli usa uma frase de efeito para respaldar sua opinião. “Como músico brasileiro, eu quero estar sempre perto das grandes referências que fizeram a nossa música. É como dizem, não há nada mais antigo do que querer ser moderno”, constata. No papel de homenageado, Odair José teve sua obra revista por Zeca Baleiro, Pato Fu, Suzana Flag e outros no tributo “Vou Tirar Você Desse Lugar”, de 2005. “Quando o novo vem, ele mexe com a gente, a juventude te tira da zona de conforto”, arremata Odair.

Íntegra da entrevista com Lívia Itaborahy:

1 – O que a aproximou da obra de Ivan Lins e qual critério guiou a seleção de repertório?
Bom, desde pequena escuto Ivan Lins, nos discos que minha mãe me mostrava e também nas canções de novelas. Depois da canção “Vieste”, que interpretei no (programa) The Voice Brasil (da rede Globo), em 2014, vi que existiam várias outras canções marcantes que eu gostaria de cantar em um show, e sempre que tinha a oportunidade inseria uma ou outra no repertório. A primeira delas foi “Daquilo Que Eu Sei”, que abriu o show “Daquilo Que Somos”, que apresentei em 2015, e, depois, inseri “Guarde nos Olhos” em um show com piano e voz feito em 2017. A seleção desse repertório foi cuidadosa, queria muito colocar canções que fossem sucessos, mas também aquelas que tinham um significado especial para mim e que marcavam, de alguma forma, as fases da carreira do Ivan Lins. Consegui fazer isso colocando “Abre-alas” e “Deixa” no repetério, trazendo esse viés politico; Guarde nos Olhos” e Coragem, Mulher”, que representam muito para mim; e, por fim, “Vieste” e “Lembra de Mim”, que tiveram um grande sucesso de vendas.

2 – Parece ter havido uma mudança na relação entre as gerações na música brasileira. Em determinado período ela foi de rompimento: bossa nova com samba-canção; Tropicália com bossa nova; rock com MPB, etc. E atualmente a reverência dos novos artistas aos antigos domina a cena. Na sua opinião, a que se deve isso?
Acredito que a música é cíclica, e é interessante ver o ressurgimento de um álbum antigo nas plataformas digitais, ele acaba sendo tratado como uma preciosidade. Outro dia mesmo descobri uma coleção inteira do Eduardo Gudim, com participação de Mônica Salmaso e Fabiana Cozza, por exemplo, que foi uma alegria só. É necessário ter conteúdo para não gerar uma música vazia, é preciso ter poesia, uma boa harmonia e uma melodia desafiadora. Acredito também na beleza do simples, mas creio que a importância de valorizar e aprender com quem já trilhou esses caminhos de desbravar estilos, criar novos conceitos, agregar música às artes visuais, performance, literatura, etc. e criar movimentos artísticos é de fundamental importância para colorir o novo cenário da música.

3 – O rompimento com gerações anteriores nunca foi exclusividade da música brasileira. Qual a importância desse tipo de movimento dentro de um território de reflexão como são as artes?
Bom, é importante situar o rompimento. Por qe romper? Com o que romper? Quem rompe? Tudo isso legitima esse processo. Nas artes, o rompimento é quase um dos pilares de sua força de expressão, e na música isso acontece como um mote de criação também, um incentivo para continuar produzindo. Como disse na pergunta anterior, eu considero muito importante o conteúdo e o valor, se aquilo me dá base, eu posso não romper, mas transmutar, tranformar, criar a partir de. Como foi o caso do Ivan Lins. A forma imagética de suas letras me inspiram muito, e a partir daí sinto que fui influenciada por ele de certa forma. Reverenciar um trabalho, apesar de não romper, traz o novo olhar que é dado a partir do recorte que se faz daquele artista, isso também, além de trazer esse olhar para o artista homenageado, diz muito sobre o olhar do artista que quis fazer a homenagem.

4 – Tem planos de gravar algum álbum em homenagem a alguém?
Tenho planos de gravar o meu primeiro CD como intérprete, mas escolhendo canções de vários compositores com os quais me identifico. Ainda farei um outro tributo, dessa vez à voz da América Latina, Mercedes Sosa, e quem sabe desse material não surja um disco?

Raphael Vidigal

Fotos: Geraldo Bisneto/Divulgação; e Facebook/Reprodução, respectivamente.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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