Alceu Valença: “A filosofia transformou a minha maneira de ver o mundo“

“Quanto mais desconfiança, mais filosofia.” Nietzsche

Um trauma marcou as primeiras relações de Alceu Valença, 73, com as artes. Nascido em São Bento do Una, no agreste meridional de Pernambuco, o músico viveu na cidade até os 7 anos, antes de se mudar, com a família, para a capital Recife. No pequeno município de 5 mil habitantes, havia dois cinemas, três grupos de teatro e uma banda de música. “Era uma cidade amiga da arte”, descreve. “E havia também a cultura popular dos cantadores, poetas, cordelistas, violeiros, coquistas e improvisadores; dos cegos cantores de feira e dos aboiadores que tangiam o gado com sua cantigas de forte influência mourisca. Tudo isso faz parte da minha formação primal, são os mesmos elementos que Luiz Gonzaga utilizou para formatar, por exemplo, o forró e o baião”, conta.

Quando foi que você se sentiu fascinado pelas artes pela primeira vez?
Sou de São Bento do Una, no agreste meridional de Pernambuco, onde vivi até meus sete anos, antes de minha família se mudar para Recife. São Bento era uma cidade de cinco mil habitantes, onde havia dois cinemas, três grupos de teatro e uma banda de música, era uma cidade amiga da arte. E havia também a cultura popular, dos cantadores, dos poetas, cordelistas, violeiros, dos cegos cantores de feira, os coquistas, os improvisadores, os aboiadores que tangiam o gado com sua cantigas de forte influência mourisca. Tudo isso faz parte da minha formação primal, são os mesmos elementos que Luiz Gonzaga utilizou para formatar, por exemplo, o forró e o baião. E eu convivia com esta cultura desde a infância. Na fazenda do meu avô, aconteciam diversos saraus, vinha gente de toda a região para participar das festas que ele organizava. Ele próprio possuía uma dupla de violeiros cantadores com um tio meu, chamada Patativa e Azulão. Mas este ambiente também me causou certos traumas. Uma vez, durante um destes saraus, eu peguei um pandeiro e comecei a bater enquanto meu avô e seus amigos faziam música na fazenda. Meu avô gritou lá pra dentro: “tragam outra pessoa para tocar porque este menino não tem ritmo” (risos). Passei grande parte da minha infância e adolescência acreditando naquilo. Levou bastante tempo até que eu pudesse dizer: “vovô Orestes, o senhor estava enganado. Seu neto tem muito ritmo, viu?”.

Quando surgiu a vontade de realizar o espetáculo “Amigo da Arte?”
Foi minha mulher, Yanê, quem descobriu em minha obra diversos elementos ligados à filosofia, à literatura, ao cinema, às artes plásticas. Eu meio que incluí estes elementos de uma maneira quase inconsciente em muitas de minhas canções. Então, tenho músicas que falam de Cervantes, de Fernando Pessoa, de Mario Quintana, ou de personagens da literatura brasileira como Macunaíma, João Grilo, Malasartes. “Agalopado”, uma canção que fiz nos anos 70, diz: “Dom Quixote liberto de Cervantes/ Descobri que os moinhos são iguais”. A mesma letra cita Drummond e Guimarães Rosa: “Viro pedra no meio do caminho/ Viro Rosa, vereda de espinhos/ Incendeio esses tempos glaciais”. Outro escritor que admiro muito é Rubem Braga, a quem homenageio em “Na Primeira Manhã”, no trecho em que cito “O Conde e o Passarinho”, uma de suas crônicas mais conhecidas. “Embolada do Tempo” remete à máxima do sociólogo pernambucano Gilberto Freyre, que considerava o tempo tríplice, porque vivemos presente, passado e futuro, todos ao mesmo tempo. Tenho também músicas que mencionam o cinema, como “Belle de Jour”, cujo título foi tirado do filme de (Luis) Buñuel, estrelado por Catherine Deneuve. “Estação da Luz” celebra as cores dos artistas plásticos de Olinda, “Girassol” homenageia Van Gogh. A letra de “Tropicana”, por exemplo, foi inspirada em uma natureza morta do pintor pernambucano Sergio de Lemos. O show traz até uma citação do filósofo Hobbes (“O homem é o lobo do homem”), em “Seixo Miúdo”, uma música menos conhecida mas que é um dos pontos altos do show. Acho que o que realmente transformou a minha maneira de ver o mundo foram as aulas de filosofia com a professora Bernadete Pedrosa, na Faculdade de Direito do Recife. Através dela tive contato com os pensadores clássicos e me tornei um questionador da alma humana. Essa talvez tenha sido a maior de todas as minhas influências.

Como a experiência de assistir a filmes impactou nas suas criações musicais?
Eu frequentava as sessões de filmes do Neorrealismo italiano e da Nouvelle Vague francesa no cinema São Luiz, em Recife. Um filme que assisti diversas vezes foi “Acossado”, de Godard. Eu era tímido com as garotas e, nesta época, possuía uma grande semelhança física com o ator Jean Paul Belmondo, protagonista do filme. Então, eu saía das sessões, acendia um cigarro e passava o polegar sobre os lábios, como Belmondo faz em “Acossado”. As meninas diziam: “olha lá o ator do filme” (risos). O cinema também influenciou uma das minhas composições de maior sucesso, “Belle de Jour”. Eu estava em Paris nos anos 80, quando conheci a atriz Jacqueline Bisset. Fiquei deslumbrado com sua presença, me apresentei e dei um poema em branco para ela. Mas confundi Jacqueline com Catherine Deneuve e fiz a música com o título de um filme em que Catherine, e não Jacqueline, atuava.

De que maneira as artes plásticas influenciaram as suas composições?
Eu gostaria de ser pintor, mas não levo jeito para desenho. Em “Estação da Luz” eu digo: “Pintor chamado verão/ Tão nobre a sua aquarela”. É talvez o desejo inconsciente de desenvolver uma arte para a qual não tenho aptidão. Sempre admirei muito Van Gogh e a música “Girassol” é diretamente inspirada em sua obra. Já “Tropicana” foi uma letra que fiz para a música do meu parceiro Vicente Barreto, num hotel em São Paulo, no início dos anos 80. Me inspirei num quadro de Sergio de Lemos, que foi casado com minha irmã Delminha. É uma natureza morta com frutas tropicais que está até hoje na sala da minha casa em Olinda. A letra saiu inteira, em poucos minutos. Na hora fiquei em dúvida se ela era realmente boa ou se estava parecendo uma salada de frutas (risos). Então fomos assistir a um show e deixei o papel com a letra manuscrita dentro de um pequeno vaso que havia no quarto. Falei para Vicente: “Na volta a gente vê se presta”. Na volta retirei a letra do vaso, cantamos novamente e só então vi que a letra era realmente muito boa.

O que tem te inspirado a compor atualmente?
O show tem uma música inédita, que vamos lançar em formato de single digital, no dia 11 de novembro. Chama-se “Eu Vou Fazer Você Voar”, parceria minha com o músico alagoano Hebert Azzul. Componho com muita facilidade e em qualquer lugar. Tenho diversas ideias armazenadas no gravador do celular. Surge a inspiração, eu assovio o tema e deixo um esboço gravado até concluir. No caso do novo single, Herbert veio com a ideia e eu complementei. Tenho outras parcerias com ele, como “Pétalas” e “Vou Chover”. A maioria das canções que faço tem letra e música de minha autoria. Mas tenho também poucos e ótimos parceiros, como Hebert, Vicente, Carlos Fernando, Geraldo Azevedo, Zé Ramalho, Dominguinhos.

Raphael Vidigal

Fotos: Aline Camargo/Divulgação.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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