Dia Mundial do Rock: Política e rock/metal andam de mãos dadas?

*por Thiago Prata (jornalista, repórter e crítico musical)

“As pessoas da nossa terra viveram sob medo/ Loucuras militares financiadas pelo império/ Os mestres daquela época com suas estrelas e uniformes/ Nunca enfrentaram o julgamento pelo horror que causaram/ Torturadores caminhando livremente/ Sem retribuição, impunidade/ Celebrando a injustiça, rindo do nosso desespero/ Crimes sem resposta, a verdade desaparecendo no ar” (Livre tradução para “Endless Tyrannies”, de Violator, banda de thrash metal de Brasília)

O cidadão brasileiro que se mostrou atônito com o posicionamento de Roger Waters – que rotulou Jair Bolsonaro como um dos ‘neofascistas’ do mundo –, em outubro de 2018, durante a turnê do músico inglês por terras tupiniquins, não entendeu – ou fez questão de não querer entender – a fundo o conteúdo escrito pelo eterno baixista do Pink Floyd em obras como “The Wall” (1979) e o solo “Is This the Life We Really Want?” (2017). “Sou contra o ressurgimento do fascismo. E acredito nos direitos humanos. Prefiro estar num lugar em que o líder não acredita que a ditadura é uma coisa boa. Lembro das ditaduras da América do Sul, e foi feio”, declarou ele, arrancando aplausos de grande parte da plateia paulista e vaias de outra parcela, em uma das apresentações.

Cerca de seis meses depois, a banda Dead Kennedys, um dos ícones do punk e que celebrava quatro décadas de música e atitude, não fez jus a seu espírito contestador, ao cancelar um giro pelo Brasil, depois de uma polêmica. Um cartaz da turnê trazia críticas ferrenhas à política do país, ao presidente Jair Bolsonaro e à “tradicional família brasileira”. Fãs do grupo, inicialmente eufóricos com a imagem, logo cairiam em um mar de frustração quando os punks “execraram” a arte e deram para trás, a fim de evitar problemas. “O promotor no Brasil realmente não soube como gerenciar as coisas da forma correta. Sem nos contatar sobre o assunto, ações estúpidas foram tomadas, que fizeram com que os pregadores de ódio se manifestassem por todos os lados”, escreveu a banda.

Atitude. A repercussão desse fato foi extremamente negativa para o Dead Kennedys. Decepcionados, fãs do grupo protestaram nas redes sociais. Houve quem dissesse que “Roger Waters é muito mais punk que vocês”. Até o ex-vocalista do DK, Jello Biafra, disparou contra sua ex-banda. “De todas as grandes artes políticas e antifascistas usadas para promover o Dead Kennedys ao longo dos anos, esta é a primeira vez que eu tomo conhecimento desses caras serem contra um pôster político. Por que este? E por que agora? Eu admiro e respeito muito cada um que tenha a coragem de se posicionar contra Bolsonaro e seus apoiadores fascistas metidos a valentões”, disse Biafra. Esses episódios recentes ainda esquentam velhos debates: Afinal, o rock e a política se misturam? Uma banda tem que se posicionar? O rock e o metal devem se calar contra um governo?

Um dos músicos que ajudam a responder a essas indagações é o vocalista da banda mineira de thrash/hardcore Uganga, Manu Joker. “Acho que combina sim. Tem a ver com meu gosto particular, tem a ver com minha história na música, venho do punk e hardcore. É um discurso que é fácil para mim desde quando comecei a escutar e a tocar em bandas. Mas não acho que deva ser uma obrigação para se expressar artisticamente no rock e no metal. Inclusive, inúmeros artistas que venero abordam temas mais fantasiosos e da psique humana”, ressalta o cantor, que procura inserir temas mais político-sociais em suas letras. “Da minha parte, eu sempre tive em algumas letras essa abordagem, porque é minha maneira de me expressar. O Uganga é aquela linguagem que vem das ruas. Mas eu tomo cuidado de fazer mais um questionamento de homem livre do que uma tentativa de doutrinação desse ou daquele segmento político ideológico e tal. Nunca o dedo na cara”, destaca.

Política. A vocalista do grupo paulista de metal Ajna, Elizabeth Queiroz “Tibet”, bate na tecla que “desde que o homem é musical, o homem é político”. “É através de suas letras e melodias, que seus sentimentos e frustrações puderam ser expressados. Do rock rebelde, dos beatniks aos protestos sociais de Bob Dylan em suas letras polêmicas nos anos 60, passando pelos movimentos Power and Flowers, que gerou grandes festivais de rock como Woodstock nos anos 70, até chegar ao momento atual com suas bandas pesadas, de heavy metal, de thrash metal, que fazem um rock agressivo, político e indignado, contra todas as formas de opressão social ou política. Bandas como Rage Against the Machine, U2, Bad Religion e muitas outras, que expressam escancaradamente em suas letras, politicamente incorretas e revoltadas com um sistema neoliberal excludente e ideologicamente tóxico”, comenta.

Para Fabiano Borges, guitarrista do conjunto mineiro de death/thrash Last Conscious, “em primeiro lugar, a arte vem de uma necessidade de expressão, e isso sempre vai ser incontestável”. Ele relembra que o rock nasceu de uma rebeldia, “da vontade e necessidade de expressão do que não podia ser dito”. E conclui que rock/metal combina, sim, com política e acredita piamente que é muito importante que um artista se posicione quanto a isso “para que haja resistência e oposição a todo autoritarismo e tudo que oprima qualquer direito de liberdade”. “Nós, como banda, ou mesmo de forma individual, como seres humanos, viemos e seguimos lutando contra todo autoritarismo, preconceito racial, preconceito étnico, de classes ou de sexualidade das pessoas… Somos contra todo esse controle de massa e de opiniões entorpecidas. É necessário engajar-se. O conhecimento e o entendimento trazem clareza”, enfatiza.

Classe. Nascida com uma proposta de levar som com letras politizadas, os paulistas do Manger Cadavre?, especialistas no metal/hardcore/crust, ressaltam que a política e o rock podem combinar ou não, por não ser uma regra no estilo. No entanto, como afirmam a vocalista Nata Nachthexen e o baterista Marcelo Kruszynski, “todas as esferas da nossa vida são ligadas direta ou indiretamente pela política”. “A consciência de classe é algo que precisa ser trabalhado em todos os meios. A classe artística tem sofrido tanto quanto as demais classes de trabalhadores, logo, acreditamos ser um avanço. (…) Não debater, deixa as decisões de políticas públicas restritas às pessoas que, em boa parte das vezes, estão em busca de atender aos interesses dos grandes bancos e grandes empresas, e não do povo. A participação e manifestação pode ser estimulada pelos artistas e, por isso, é importante posicionar-se”, exaltam.

Baixista do Surra, Guilherme Elias cita, porém, que “é triste ver bandas que apoiam abertamente movimentos que visam à manutenção do sistema vigente e figuras autoritárias e preconceituosas em ascensão no cenário político mundial”. E, obviamente, diz que é crucial se posicionar. “Hoje, mais do que nunca, é de suma importância toda a classe artística deixar claro qual seu posicionamento político e de que lado da história estamos. Vivemos num mundo de desinformação total, infestado de robôs disseminando fake news nas nossas timelines. Esse contato das pessoas com artistas se torna muitas vezes o pontapé inicial que desperta o interesse em ir buscar uma consciência e formação política fora do grupo de WhatsApp da família”, pondera o integrante do trio de thrash/hardcore/grind.

Brasil. Há pontos em comum no discurso de todos os entrevistados. Um deles é a oposição ao atual governo de Jair Bolsonaro, marcado pela ineficiência política, o preconceito, o fracasso econômico, a falta de políticas públicas, o retrocesso social, o descaso na saúde em tempos de pandemia e tantos outros problemas. “Esse é um momento atípico, extremamente conturbado não só no Brasil, pois é um fenômeno mundial, onde a extrema direita, nacionalista, se impõe. Figuras de autoridade extremista, de vários países com grande importância global, se posicionam num neoliberalismo agressivo do ‘salve-se quem puder’. Fronteiras são fechadas e limitam movimentos de imigração e interrelação entre os países e entre os povos e, infelizmente, o Brasil aderiu a esse movimento conservador e extremo”, opina Elizabeth.

“Não é momento de ficar em cima do muro, esse é o momento de se posicionar, e tenho certeza de que todos se posicionarão em favor da liberdade de expressão, liberdade de se manifestar e de poder lutar contra a censura e o engessamento ideológico e cultural”, completa. Manu é outro que destila duras críticas ao atual governo. “Há muito tempo que existe uma demonização da classe artística, como se fôssemos parasitas da Lei Rouanet e o grande problema do Brasil. É de um extremo mau-caratismo esse tipo de acusação. Se temos um governo que trabalha essa visão distorcida, por outro lado temos a própria pandemia mostrando o valor da arte. E, da minha parte, enquanto artista e brasileiro, estarei sempre contra essas posturas e ideias dessas pessoas que apoiam a política de extrema-direita”, dispara.

Fãs. Em meio a esse caldeirão de ideias, música e política, existe uma gama de fãs que se diz “surpresa” com o posicionamento de determinados artistas. E, também, aquela fatia de aficionados que demonstram ainda mais admiração com determinado ídolo. “Acho que essa decepção e a admiração vêm pelo fato de apoiar lados opostos ou lados iguais dentro da política. Sabemos que existe um governo atual em que uma grande parcela abomina, e que outros admiram, mesmo depois de tantos erros e fatalidades. Acho que por isso existe essa admiração ou decepção por parte dos fãs”, sintetiza Fabiano Borges.

Nata e Kruszynski destacam também que a um fã, “a decepção acontece quando não se espera algo do seu ídolo, mas se estivermos atentos, a arte acaba refletindo muito daquilo que o indivíduo acredita”. “Da mesma forma, acreditamos que existem muitos artistas que não tem uma base política formada e que acabam repetindo discursos veiculados pela grande mídia, numa linha tênue entre a ignorância e o mau-caratismo. Então, acho a cultura do cancelamento complicada, pois, muitas vezes, se trata de falta de conhecimento e, também, vai de como a pessoa se porta. Ninguém está imune a cometer erros, mas a questão é como você se porta após a repreensão. Se há reflexão e mudança, não vemos problemas”, comentam.

Futuro. Guilherme Elias salienta outro ponto importante. “Quantas pessoas não se decepcionaram em saber que aquele seu primo fez dancinha do impeachment de sapatênis e camiseta da CBF na avenida Paulista, ou que seu tio acredita que a Covid-19 é um vírus comunista que se trata com hidroxicloroquina? Se um primo ou tio curtia uma banda de rock minimamente engajada politicamente, a decepção é mais que natural: é até bem-vinda”, pontua. E finaliza: “Do outro lado, é bom saber que não estamos sozinhos e que existem pessoas que são capazes de colocar a cabeça para fora dessa piscina de chorume em que estamos nadando e se organizar politicamente em partidos, movimentos e demais coletivos”.

CRÉDITOS DAS FOTOS
Uganga: Daniel Moreira/Divulgação
Ajna: Ajna/Divulgação
Last Conscious: Last Conscious/Divulgação
Manger Cadavre?: Maya Melchers/Divulgação
Surra: Estevam Romera/Surra/Divulgação

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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