Crítica: programa “Saia Justa” vai do humor à convenção

“Eu sei que estão todos me vendo. Tem muitos que até esperam de mim, me esperam, homens e mulheres me desejam mesmo sem saber. Eu invento tudo, absoluta.” Ana Cristina Cesar

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O formato é antigo, e a atração também. No ar desde 2002 no canal pago GNT, o programa “Saia Justa” se valeu da fórmula das tradicionais mesas-redondas esportivas para colocar em seu sofá quatro mulheres discutindo os assuntos que lhes parecessem pertinentes, o que já configura, em si, uma importante colaboração e mudança na tentativa de reavaliar os costumes da nossa televisão e, por conseguinte, da sociedade que a assiste. Se ao longo dos anos contou em seu time como nomes como Rita Lee, Fernanda Young, Marisa Orth, Betty Lago, Marina Lima, Mônica Waldvogel e Luana Piovani, hoje quem tenta dar conta do recado é a apresentadora Astrid Fontenelle, as atrizes Maria Ribeiro e Mônica Martelli e a jornalista Barbara Gancia, no que alcançam êxito na maioria das vezes. Permanece, portanto, a tentativa de estabelecer um perfil diversificado entre as participantes, o que é verdade só até certo ponto.

É possível dizer que, em linhas gerais, as abordagens variam entre a emocional, a ácida e irônica, e a bem humorada, quase leve, em outras linhas, pessimismo, otimismo e cinismo, além da que estabelece o comando da embarcação, com uma atitude menos definida e previsível em relação a essas perspectivas. Se cumpre, de fato, um importantíssimo papel social ao tocar em assuntos delicados, fundamentais e espinhosos que, ainda arraigados numa sociedade com histórico machista e patriarcal, não oferecem a possibilidade de uma solução com humor pela própria dramaticidade das situações, é quando o riso aparece e se espalha para o telespectador que a atração cresce em qualidade. Pois é possível diversão com conteúdo, está claro. No entanto, soa exagerada a excessiva reverência, por exemplo, às palavras dos especialistas, guardadas numa aura de pura verdade, e também o uso indiscriminado de adjetivos tais como o hoje já ralo “genial”.

Outra observação salutar é que, embora dispostas a eliminar barreiras e apartar trincheiras, as apresentadoras cedem, por vezes, às convenções, afinal de contas somos, também, produtos do próprio meio. É nesse ponto que a televisão e sociedade brasileiras precisam se abrir ainda mais, não apenas às mulheres de certa classe, mas, sobretudo, a todas as representações que hoje exigem voz.

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Raphael Vidigal

Fotos: Arquivo e Divulgação.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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