15 músicas brasileiras a favor do feminismo

“Ninguém nasce mulher, torna-se mulher.” Simone de Beauvoir

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Não é de hoje que as mulheres bradam na música brasileira. O clamor pela igualdade e contra práticas abusivas vem de tempos remotos até os mais atuais. Ícones da cultura nacional influenciam e influenciaram nossas compositoras, como Leila Diniz, Elvira Pagã, Pagu e Luz Del Fuego, além de histórias cotidianas vividas por anônimas com as quais muitas se identificam; é o caso da “Maria da Vila Matilde” cantada por Elza Soares. Em verso, prosa e muito ritmo selecionamos 15 músicas brasileiras a favor do feminismo, através do talento incontestável de Rita Lee, Cássia Eller, Angela Ro Ro, Joyce, Marina Lima, Zélia Duncan, Adriana Calcanhotto e a provocativa Valesca Popozuda.

Paraíba (baião, 1950) – Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira
Embora seja o nordeste brasileiro identificado com freqüência junto a um universo machista e de preconceitos, Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira quebraram esse paradigma de maneira enviesada em 1950. Outro forte costume da região é também o das mulheres fortes, que, não por acaso, tornam-se as lideranças das famílias e dos lares, capazes de enfrentar os maiores desafios e as violências dos próprios maridos e da moral do ambiente. No baião “Paraíba”, os compositores provavelmente prestam homenagem a essa figura bem atribuída à mãe, e reiteram: “Paraíba masculina, mulher macho, sim senhor!”. A música foi regravada pela leoa do norte Elba Ramalho.

Luz Del Fuego (rock, 1975) – Rita Lee
Rita Lee certamente é a compositora com o maior número de obras identificadas ao feminismo, e também a que mais homenageou personagens desta seara. À sua maneira leve e descontraída, Rita inicia o ritual em 1975, no rock “Luz Del Fuego”, uma ode à icônica dançarina que provocou escândalo na sociedade brasileira com suas práticas liberalistas. Adepta do nudismo e do naturalismo, Luz foi brutalmente assassinada em 1967, aos 50 anos, mas seu legado de liberdade e amor continuou colocando fogo nos costumes e na hipocrisia. Sua história foi levada ao cinema em 1982, quando foi interpretada por Lucélia Santos. Luz Del Fuego foi aquela “que não tinha medo”, canta Rita.

Doce de Pimenta (rock, 1976) – Rita Lee e Roberto de Carvalho
Para Elis Regina nunca houve dissociação de música e vida; por isso a força de suas interpretações e a capacidade de chorar, rir e esbravejar no palco sem que pareça um artifício de convencimento da plateia ou pura demagogia. Em 1976, Rita Lee e Roberto de Carvalho compuseram um rock para saudar Elis, que visitara Rita na cadeia quando esta, grávida, havia sido detida por posse de maconha. Começou ali uma amizade improvável, já que as duas andavam de lados opostos na música brasileira, com Rita próxima da modernidade e Elis da tradição. Num dueto impagável das duas, elas cantam a forte personalidade de Elis Regina, uma mulher livre que escolhia o que queria seguindo seu bico.

Perigosa (música disco, 1978) – Rita Lee, Roberto de Carvalho e Nelson Motta
“As Frenéticas” foi um grupo formado pelo jornalista e compositor Nelson Motta, que acabara de inaugurar uma casa de espetáculos e teve a ideia de contratar garçonetes que, no meio da noite, subiriam no palco para cantar. O projeto deu tão certo que elas rapidamente se tornaram uma febre nacional. No período da invasão da música disco no Brasil, o grupo também trazia um discurso feminista, de liberação do prazer e da sexualidade feminina sem grilos nem dores de cabeça. É esse discurso que contamina toda a melodia e a letra da canção “Perigosa”, uma criação de Rita Lee, Roberto de Carvalho e do próprio Nelson Motta lançada em 1978 pela trupe. Um hino do prazer feminino.

Agito e Uso (rock, 1979) – Angela Ro Ro
Ângela Ro Ro sempre conciliou o teor confessional a um distanciamento propício ao deboche em suas composições, sem nunca abrir mão da veia autobiográfica. Polêmica, perspicaz, piadista e homossexual assumida, foi uma das compositoras que melhor representaram a estética do blues no Brasil, e por isso se tornou admirada por artistas como Cássia Eller e Cazuza. Logo em seu disco de estreia, em 1979, Angela desafiava padrões, convenções e até a polícia. É o que fica explícito no rock “Agito e Uso”, de 1979, em que ela manda as regrinhas do bom comportamento para as cucuias; como a mulher corajosa que sempre foi. “Sou uma moça sem recato”, elabora nos versos iniciais.

Elvira Pagã (rock, 1979) – Rita Lee e Roberto de Carvalho
Outra figura aplaudida por Rita Lee foi Elvira Pagã, vedete que, já na década de 1930, causou alvoroço na comportada sociedade brasileira da moral e dos bons costumes. Atrevida e colocando a libido no próprio nome artístico, Elvira também foi adepta das práticas de nudismo. De maneira debochada, Rita repreende as expectativas do homem comum, habituado à mulher comportada e obediente na canção, composta em 1979 com Roberto de Carvalho. O contrário de Elvira Pagã, figura escandalosa e explosiva, uma mulher ciente e lutadora de todos os seus direitos e liberdades. Rita avisa com ironia aos desavisados: “Santa, santa, só a minha mãe, (e olhe lá!) é canja-canja…”.

Feminina (MPB, 1980) – Joyce
De maneira um pouco menos explícita e mais comedida, Joyce também contestou, em seu disco “Feminina”, de 1980, as obrigações que a cultura machista legava às mulheres. Na música de mesmo título, a compositora e cantora ensaia um suposto diálogo com a mãe, que seria representante desta tradição, e desvirtua o rumo da conversa. Afinal a mulher feminina de Joyce possui caminhos, possibilidades, e tem toda a liberdade para traçá-los como bem desejar. Uma típica peça da nossa MPB que encanta pela singeleza dos acordes, centrados no melhor do nosso samba, em que Joyce desfia o poema: “Termina na hora de recomeçar, dobra uma esquina no mesmo lugar…”.

Gata todo dia (balada, 1981) – Marina Lima, Léo Jaime e Tavinho Paes
Marina Lima sempre conjugou modernidade com elegância. A contenção procurada em seus versos e melodias, baseados em uma estética pop nunca impediu o discurso avançado, libertário e inovador. Marina representa a mulher moderna, livre, leve, solta e “Gata todo dia”, como canta na balada lançada por ela em 1981, uma parceria com Léo Jaime e Tavinho Paes. Além de ser uma ode aos prazeres da mulher, explicita também como ela constantemente desafia os limites impostos pela sociedade machista do patriarcado. Marina se expõe sem concessões, sem favores, sem pedir licença, assumindo o lugar de direito. “Tomo banho é de lambida”; “Mando na minha cabeça”, afirma a gata.

Grávida (MPB, 1991) – Arnaldo Antunes
Outra contribuição de Marina Lima para o universo feminista foi a música “Grávida”, música de Arnaldo Antunes gravada por ela em 1991. Nela, Marina revela outra faceta da mulher moderna, livre. O desejo da maternidade que não anula em nada as outras conquistas e os ambientes que esta mulher explora. Por isso a grávida da canção é capaz de gerir um filho como também “um terremoto, uma bomba, uma cor, uma locomotiva a vapor”. A capacidade geradora da mulher, seu senso de maternidade se aliança, desta maneira, às novas expectativas e perspectivas de um mundo moderno. Que talvez tenha começado quando Leila Diniz, grávida, expôs a barriga na praia em seu biquíni.

Todas as mulheres do mundo (rock, 1993) – Rita Lee
Rita Lee havia prometido uma canção para homenagear Leila Diniz em 1972, quando a atriz morreu aos 27 anos em um trágico acidente de avião. “Todas as mulheres do mundo”, título retirado do filme que Domingos Oliveira ofereceu à ex-mulher e que também explicita a relação de reverência e fascínio que Leila exercia sobre o diretor; só ficou pronta em 1993. Um rock ligeiro, rasgado, sem lero-lero, sem blá-blá-blá, com o espírito de Leila em seu embrião. E de todas aquelas que Rita cita em sua ode à mulher moderna, dentre elas: Dercy Gonçalves, Roberta Close, Dolores Duran, Luiza Erundina, Hortência, Ruth Escobar e a própria mãe. A música foi regravada, com gana, por Cássia Eller.

1º de julho (MPB, 1994) – Renato Russo
Em 1994, Renato Russo compôs especialmente para Cássia Eller a música “1º de julho”, em homenagem ao filho da cantora que acabara de nascer, Francisco, conhecido e chamado por ela de Chicão. Além de lançar uma luz poética e sensível sobre os mistérios da maternidade, Renato também acende sua lâmpada para a capacidade transformadora da mulher, os ciclos que a tornam não-linear, interessante e liberta das convenções de um mundo fadado ao preconceito e ao fracasso. Cássia Eller canta com toda a propriedade: “Sou fera, sou bicho, sou anjo e sou mulher, sou minha mãe, minha filha, minha irmã, minha menina, mas sou minha, só minha e não de quem quiser…”.

Pagu (rock, 2000) – Rita Lee e Zélia Duncan
Patrícia Galvão foi uma jornalista como poucas no Brasil. Como era de se esperar, não se ateve a uma só atividade. Foi escritora, poeta, diretora de teatro, incentivadora de Plínio Marcos, musa do modernista Raul Bopp, desenhista e militante do comunismo, sendo a primeira mulher presa no país por essa motivação, no início da década de 1930. É a essa figura lendária, folclórica e real, uma mulher de carne e osso que se sabia livre e dona do próprio destino e nariz que Rita Lee e Zélia Duncan se referem no rock lançado por elas já nos anos 2000. Provas de que Pagu continua revolucionando. “Nem toda feiticeira é corcunda, nem toda brasileira é bunda…”, as três afiançam.

Pode se remoer (samba, 2011) – Adriana Calcanhotto
Adriana Calcanhotto, embora discreta, nunca dispensou uma mordaz ironia. Também sempre gostou de balançar as estruturas e suspender os padrões. No disco “Micróbio do Samba”, de 2011, a intenção era dar nova cara ao gênero, e, por que não, colocar a mulher no papel desempenhado, historicamente, pelo homem. Por isso na canção “pode se remoer”, é o homem quem espera pela mulher em vão, já que ela não volta, encontrou alguém que “só quer lhe beijar”. Além de um elogio à liberdade feminina, ao prazer e ao desprendimento, carrega ainda uma pitada de crítica aos relacionamentos modernos, e como eles têm se modificado, principalmente, pela postura dessa nova mulher.

Ta pra nascer homem que vai mandar em mim (funk, 2014) – Wallace Vianna, André Vieira e Leandro Pardal
Valesca Popozuda é uma das personagens mais polêmicas da nova cena cultural no Brasil. Com seu discurso proativo em favor do prazer feminino, é capaz de causar discórdia tanto na ala das feministas quanto na dos machistas, o que lembra a trajetória, em parte de Leila Diniz. O certo é que Valesca não esconde o sentimento nem as vontades, sejam elas quais forem. Emblema maior desta liberdade, a música “Ta pra nascer homem que vai mandar em mim” é um funk lançado em 2014, autoria de Wallace Vianna, André Vieira e Leandro Pardal e que deixa claro que, nesse caso, é a mulher quem escolhe, seja a cama, o sexo, ou a atividade no mercado de trabalho.

Maria da Vila Matilde (MPB, 2015) – Douglas Germano
Não é de hoje que Elza Soares representa a mulher sobrevivente, batalhadora, livre, dona de seus desejos e vaidades. Para coroar a carreira da octogenária intérprete nada melhor do que a canção “Maria da Vila Matilde”, peça que conjuga samba e música eletrônica, na veia da nova MPB, modernidade sem esquecer a tradição, bem ao estilo ousado e inquieto de Elza Soares. Denúncia clara à violência contra a mulher, a canção serviu para suscitar debates e cumpriu sua função social. Mais do que isso, exprimiu a arte de uma mulher talentosa, guerreira, determinada, que não abre mão de seus prazeres e é um símbolo de perseverança. Para a qual não existe idade, credo, gênero ou raça.

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Raphael Vidigal

Fotos: Montagem com as cantoras e personagens ícones do feminismo, na ordem, da esquerda para a direita do alto: Leila Diniz, Rita Lee, Luz Del Fuego, Elza Soares, Pagu e Valesca Popozuda; e foto de arquivo da cantora Elis Regina.

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Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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