Crítica: peça “No Pirex”, do grupo Armatrux, equilibra a loucura com categoria

“ – Porque eu não pude encontrar o alimento que me agrada. Se eu o tivesse encontrado, pode acreditar, não teria feito nenhum alarde e me empanturrado como você e todo mundo.” Franz Kafka

No-Pirex

O texto é tão bem construído através dos gestos, ruídos e arroubos das personagens que não se ouve sequer uma frase ao longo dos 60 minutos de espetáculo. Entenda-se por personagens também os objetos, figurino, cenário, que participam e interferem na peça “No Pirex”, do grupo “Armatrux”, com a mesma precisão e eloquência dos atores Cristiano Araújo, Eduardo Machado, Paula Manata, Raquel Pedras e Tina Dias, todos com um desempenho tão sublime que é capaz de enlouquecer a plateia com toda a insanidade posta em cena e fazê-la crer no absurdo do mundo: uma mera fantasia de traços góticos.

Os recursos de humor físico, sempre explorados em favor de um pensamento ou ideia reflexiva permitem ao grupo arrancar o riso fácil do público sem abrir mão da consciência crítica ou partir para a esculhambação pura e simples. A força de um cuspe, uma facada ou qualquer outra agressão mais grosseira e violenta é capturada em seu melhor ângulo, cuja amplidão e alcance não se perdem no jogo que é feito entre o banal e o extraordinário, o comum e o surpreendente, afinal um retrato da vida sem almejar a pretensa do ininteligível e nunca beirando a rasteira do golpe baixo e omisso. É um malabarismo.

Com referências ao universo do cinema mudo, que remete de cara ao gênio de Charlie Chaplin, ao teatro do absurdo de Ionesco, e com a maquiagem típica do expressionismo alemão, todos os elementos postos no palco adquirem diferentes formas e comportamentos dependendo da situação, do olhar, da necessidade, como um copo que se transforma no membro fálico do garçom, ou de um prato que vira alimento para outro personagem, e mesmo um porco que volta dos mortos para confrontar a senhora que será, em outro momento, a vítima das atrocidades mundanas e pode, talvez, ser salva pela luz do teatro.

No-Pirex-Teatro

Raphael Vidigal

Fotos: Bruno Magalhães/Agência Nitro

Compartilhe

Facebook
Twitter
WhatsApp
LinkedIn
Email

Comentários pelo Facebook

5 Comentários

  • Adorei suas palavras Raphael!! que bom novos olhares e sensações!!!
    Muito obrigada de novo!! vou postar aqui e no face do Armatrux!! abs

    Resposta
  • Um belo espetáculo! O cotidiano tem a vida e a morte escancaradas, como o é. E o sofrimento ocupa um lugar único, o corpo carregado pela dor e que toma formas que incomodam aos olhos. O banal e o cotidiano apareceram de forma bem separada do sofrimento… raro.

    Belo texto e percepção!

    Resposta
  • Olá Raphael, obrigado pela crítica que para nós, é uma importante ferramenta de trabalho.

    Resposta

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recebas as notícias da Esquina Musical direto no e-mail.

Preencha seu e-mail:

Publicidade

Quem sou eu


Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

Categorias

Já Curtiu ?

Siga no Instagram

Amor de morte entre duas vidas

Publicidade

[xyz-ips snippet="facecometarios"]